• Filmes,  Indicações

    Olla, de Ariane Labed

    Com clara influência do longa Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975), da diretora Chantal Akerman, Olla (2019) é a estreia bem sucedida da atriz francesa Ariane Labed (A Lagosta) atrás das câmeras. O trocadilho com o nome que ela recebe ao chegar, ao menos no Brasil permite uma associação erótica, uma das facetas bem trabalhadas na protagonista Olla (Romanna Lobach), que deixa a Ucrânia e vai para a França morar com Pierre, que ela conheceu pela internet e que vive com a mãe idosa. O curta de 27 minutos não brinca apenas com as discrepâncias da linguagem, mas com expectativas masculinas, direitos e desejos femininos, tantas vezes agredidos e silenciados. Destaque para…

  • Indicações,  Livros

    Alerta Selvagem, de Susy Freitas

    Finalmente comprei meu exemplar do Alerta Selvagem (Editora Patuá), livro de poesia da jornalista, professora, Elvira (e amiga!) amazonense Susy Freitas. Os poemas começam intimistas, no “quarto em que dorme o inesperado” (‘o amigo’), o convite para beber (‘aprendizagem’/’beba’), ao que passam para alteridade dos “territórios percorridos nos sonhos dos outros” (‘aberta’). A carreira como crítica da autora é referenciada (‘cinema’ e ‘mise en abyme’), ela comenta sobre o vazio existencial virtual (‘a entertainer definitiva’), “ninguém nunca vai saber que horas você foi dormir” (‘pobre menina’), e o livro termina com seu caráter político acentuado, da crítica social ao pedigree gourmetizado (‘condomínio’) até a folia final “nas noites ébrias…incerteza nos corpos”…

  • Discos,  Indicações

    Flaira Ferro Virada na Jiraya

    As letras (que cutucam feridas certeiras) e as variações da voz de Flaira Ferro fazem ‘Virada na Jiraya‘ (2019) um disco extremamente autêntico. A cantora recifense homenageia suas antepassadas em ‘Faminta’, faz um coro feminino necessário com Sofia Freire, Ylana e Isaar em ‘Germinar’ (“dentro de nós acumulamos pesos cruéis”), entre violinos e batucadas condizentes com o poder da faixa. Apesar da insistência em melodias alegres, pois “uma cidade triste é fácil ser manipulada”, ela valoriza culturas e o que mais precisamos nesse momento, ‘Estudantes’ (“mesmo que o destino reserve um presidente adoecido e sem amor”). ‘Revólver’ (“no contra ataque da guerra: arte!”) lembra que “o frevo é o nosso…

  • Indicações,  Seriados

    Eu nunca…

    Ao invés de colocar as demais séries em dia ou assistir algo das mil listas que faço, acabei pagando língua ao ver numa tacada só um seriado adolescente, que costumo ter preguiça (com exceção de Sex Education). Das criadoras Mindy Kaling e Lang Fisher, Eu Nunca…, disponível na Netflix, trata dos conflitos típicos de uma garotinha no ensino médio, mas rompe certos clichês e tem o diferencial de trazer elementos da cultura indiana e muitos personagens de diversas etnias, ainda que todos extremamente cheios da grana e outros com subjetividade pouco aprofundada, como as melhores amigas de Devi, Fabiola e Eleanor. Cômica e dramática em doses bem calculadas, passam rápido os 10…

  • Discos,  Indicações

    Fiona Apple, Fetch The Bolt Cutters

    Após oito anos, Fiona Apple volta com o visceral Fetch The Bolt Cutters. A bateria está mais presente aqui do que em qualquer outro trabalho anterior, tantas vezes se sobressaindo ao piano, ainda marcante como na introdutória I Want You To Love Me. Ela não perde a profundidade ao lidar com seus demônios de forma mais esportiva (Relay), ou mais leve, em montanhas russas entre o zen e o catártico (Rack of His). O clima é intimista, e como se abrisse a porta de sua casa, Fiona mantém palavrões, gemidos, barulhos de coisas caindo e latidos de sua cachorra (especialmente na faixa título), a voz de sua irmã enquanto amamenta (Newspaper, pra mim a…

  • Indicações,  Livros

    Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende

    Sugestivo nome de livro pra ler na quarentena, não é mesmo? Mas Quarenta dias, da escritora (e freira!) Maria Valéria Rezende, já estava em meus planos de leitura antes mesmo deste caos pandêmico começar… A narradora-protagonista ora refere-se a si mesma como professora Póli, ora como Alice, durante seu percurso nômade em busca do desconhecido Cícero (seu Cheshire), o que ela mesma admite ser um pretexto para flanar e se perder por aí. Fugindo de uma condição imposta pela filha, ela acumula folhetos (estampados nas páginas formando uma trilha ilusória de pistas) e guardanapos com citações, palavras estas roubadas de sebos e livrarias, e sente na pele a invisibilidade e traços…

  • Indicações

    Jane Fonda’s workout

    Pois é gente, tudo mundo já sabe que É PRA FICAR EM CASA, né? (na medida do possível, claro…) E sabemos também que muito tempo ralando no PC ou mesmo vendo filmes a coluna até dói… Então desenterrei uns exercícios vintage de ninguém menos que a maravilhosa Jane Fonda! <3 Infelizmente não tem legenda em português, mas são bastante autoexplicativos e não parecem difíceis no início… (bom, não experimentei todos ainda). Esta sequência abaixo é pra iniciantes como eu que apenas não querem ficar muito enferrujados e liberar uma endorfina básica durante a quarentona. Em todo caso, já vale a pena assistir pela nostalgia oitentista (com direito a uma trilha característica atmosférica…

  • Discos,  Indicações

    Letrux aos Prantos

    É o fim do climão. É o início dilma nova era letruxiana. Letrux aos Prantos é o novo trabalho da musa Letícia Novaes e sua trupe. Se Climão é fogo, sagitariano (pelo menos no ascendente, né possível), Aos Prantos é pura água, banho de mar, pisciano, deixa fluir, deixa brotar. Menos festinha e mais lágrimas, até porque “o país não colabora”. Como um comentário do YouTube bem definiu: “Parece uma massagem. Dói, mas ajuda a relaxar” (MATOS, Phelipe). Letrux os Prantos secou meu choro com os travas línguas afiados de sempre (CopaBacana / BotaFOGO) e um revival (ou melhor, um Déjà-vu) a la Letuce, sintonizada em uma rádio AM com alguns abalos sísmicos…

  • Indicações,  Livros

    Sobre Gatos, de Doris Lessing

    Acabo de ler “Sobre Gatos”, da Doris Lessing (1919-2013), escritora britânica que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2007. Foi um presente acertadíssimo de amiga oculta da colega Camila Vieira! Excelente tradução feita pela Julia Romeu. Fiquei chocada com alguns relatos da autora, especialmente sobre sua infância no interior, quando os bichanos eram tratados como pragas domésticas. Me apaixonei pela “gata cinza” e pela “gata preta” e me revoltei por não saber como elas se chamavam, enquanto os gatos machos esbanjavam nomes compostos de realeza. Entre práticas que eu questiono e discordo, como a não castração, um certo especismo anti-viralatas e comentários que pra mim soam absurdos ofensivos como “é só um…

  • Discos,  Indicações

    PJ Harvey

    Fiz uma playlist no Spotify com as recomendações musicais da newsletter do Feito por Elas até agora e me deparei com este absurdo: minha cantora preferida não tinha aparecido por aqui ainda! Quem me conhece um pouco sabe que PJ Harvey é minha diva absoluta… Quem ainda não conhece o rico trabalho dela, sugiro começar por Stories from the City, Stories from the Sea, o álbum mais impecável e acessível, seguido pelo visceral To Bring You My Love, no qual ela canta dores profundas. O início da carreira (Dry e Rid of Me) tinha guitarras mais sujas e composições mais cruas, em contraste com os mais introspectivos Is This Desire? e Uh Huh Her (uma espécie de retomada e despedida da porra-louca…