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[44ª Mostra de São Paulo] Rose Interpreta Julie


Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online

A questão moral apresentada no começo do filme já é uma uma dica para seu desfecho. Rose (Ann Skelly), a protagonista, é uma jovem universitária, estudante de medicina veterinária. Seu professor apresenta um slide sobre eutanásia e informa que muitos profissionais são solicitados para eutanasiar animais saudáveis, geralmente por causa de mau comportamento. Esse é o ponto central da trama de Rose Interpreta Julie (Rose Plays Julie, 2019), escrito e dirigido por Christine Molloy e Joy Lawlor: o que fazer com um humano que não sabe se comportar socialmente.

Rose espiona uma mulher, que logo descobrimos ser Ellen (Orla Brady) sua mãe biológica. Vai ao local de trabalho dela, em um set de filmagem, onde ela é atriz, e chega, mesmo, a visitar sua casa, que está à venda. É assim que Ellen fica sabendo que Rose é o bebê que havia dado anos antes para adoção, com o nome de Julie. E conta à garota que ela foi concebida por meio de um estupro e por isso não conseguiu ficar com ela, apesar de querer muito ser mãe.

Rose reflete que gosta de se imaginar como uma pessoa que se chama Julie, como se fosse diferente. As duas criam os laços que deixaram de ter por esses anos e é assim que a protagonista inquire e descobre o nome do estuprador de sua mãe: Peter Doyle (Aidan Gillen). E então resolve se vingar dele. Para isso, se oferece como voluntária, com direito a peruca de disfarce, na escavação do sítio arqueológico que ele coordena, como arqueólogo. Diz que é um estudo para um papel em uma peça.

O filme não é muito sutil em seus detalhes. Rose é retratada como uma menina série, com olhos arregalados e ares assustados, apesar de sua obstinação. A fotografia é acinzentada e câmera desliza suave em cada cena, para reforçar a sobriedade e até sisudez da narrativa. Elementos visuais que remetem à violência são inseridos pontualmente, ilustrando como cada personagem lida com eles: Rose abalada por ter eutanasiado um cão; Peter que mata um cervo com fúria desproporcional (sendo que ele mesmo, ao fim do filme, usa uma camisa com logo de cervo, que remete diretamente a essa morte); Rose observando o sangue de uma vaca deslizar pelo ralo, como que hipnotizada. Por fim é inegável o simbolismo posto nas profissões dos personagens e como eles se relacionam com Rose: criar personagens (atriz) e descobrir o passado (arqueólogo). A trama é um tanto quanto óbvia e trabalhada sem muita sutileza.

A tensão do filme é bem construída e acompanhamos com atenção as ações de Rose, mas elas nunca parecem se desenvolver à altura da atmosfera. O desfecho nada climático aborda as questões morais apresentadas tomando a resposta mais simples. A estrutura da narrativa se vale de personagens esquemáticos e parece não saber muito bem como lidar com elas para além dos clichês, especialmente sobre trauma. Rose Interpreta Julie tenta abordar o tema da vingança, mas o resultado é um prato que se come frio (desculpa).

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