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    Flaira Ferro Virada na Jiraya

    As letras (que cutucam feridas certeiras) e as variações da voz de Flaira Ferro fazem ‘Virada na Jiraya‘ (2019) um disco extremamente autêntico. A cantora recifense homenageia suas antepassadas em ‘Faminta’, faz um coro feminino necessário com Sofia Freire, Ylana e Isaar em ‘Germinar’ (“dentro de nós acumulamos pesos cruéis”), entre violinos e batucadas condizentes com o poder da faixa. Apesar da insistência em melodias alegres, pois “uma cidade triste é fácil ser manipulada”, ela valoriza culturas e o que mais precisamos nesse momento, ‘Estudantes’ (“mesmo que o destino reserve um presidente adoecido e sem amor”). ‘Revólver’ (“no contra ataque da guerra: arte!”) lembra que “o frevo é o nosso…

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    Fiona Apple, Fetch The Bolt Cutters

    Após oito anos, Fiona Apple volta com o visceral Fetch The Bolt Cutters. A bateria está mais presente aqui do que em qualquer outro trabalho anterior, tantas vezes se sobressaindo ao piano, ainda marcante como na introdutória I Want You To Love Me. Ela não perde a profundidade ao lidar com seus demônios de forma mais esportiva (Relay), ou mais leve, em montanhas russas entre o zen e o catártico (Rack of His). O clima é intimista, e como se abrisse a porta de sua casa, Fiona mantém palavrões, gemidos, barulhos de coisas caindo e latidos de sua cachorra (especialmente na faixa título), a voz de sua irmã enquanto amamenta (Newspaper, pra mim a…

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    Letrux aos Prantos

    É o fim do climão. É o início dilma nova era letruxiana. Letrux aos Prantos é o novo trabalho da musa Letícia Novaes e sua trupe. Se Climão é fogo, sagitariano (pelo menos no ascendente, né possível), Aos Prantos é pura água, banho de mar, pisciano, deixa fluir, deixa brotar. Menos festinha e mais lágrimas, até porque “o país não colabora”. Como um comentário do YouTube bem definiu: “Parece uma massagem. Dói, mas ajuda a relaxar” (MATOS, Phelipe). Letrux os Prantos secou meu choro com os travas línguas afiados de sempre (CopaBacana / BotaFOGO) e um revival (ou melhor, um Déjà-vu) a la Letuce, sintonizada em uma rádio AM com alguns abalos sísmicos…

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    PJ Harvey

    Fiz uma playlist no Spotify com as recomendações musicais da newsletter do Feito por Elas até agora e me deparei com este absurdo: minha cantora preferida não tinha aparecido por aqui ainda! Quem me conhece um pouco sabe que PJ Harvey é minha diva absoluta… Quem ainda não conhece o rico trabalho dela, sugiro começar por Stories from the City, Stories from the Sea, o álbum mais impecável e acessível, seguido pelo visceral To Bring You My Love, no qual ela canta dores profundas. O início da carreira (Dry e Rid of Me) tinha guitarras mais sujas e composições mais cruas, em contraste com os mais introspectivos Is This Desire? e Uh Huh Her (uma espécie de retomada e despedida da porra-louca…

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    The Archer, de Alexandra Savior

    Finalmente saiu o novo álbum da Alexandra Savior! <3 Eu já havia a recomendado anteriormente aqui e continuo completamente apaixonada pelas músicas doces e honestas da moça, angelical mas com uma certa desilusão melancólica que lhe dá força, expressa tanto nas letras quanto nas composições próprias. The Archer é um segundo álbum consistente e tão bem acabado quanto o anterior Belladonna of Sadness (2017), apesar da precocidade da cantora, que sabe muito sobre a vida em seus 20 e poucos anos. Com serenidade na voz (nas melodias sombrias nem tanto) ela exorciza promessas quebradas, a dor fantasma <The Phantom> de quem mergulha sozinho mas parou de chorar o tempo todo <Crying all the time> e de confiar na traidora “graça…

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    TODXS, de Ana Cañas

    O que houve com Ana Cañas? A moça outrora com carinha (e melodias) doces se transformou em porta-voz de tantas bandeiras. Não vou falar de pink money nem de apropriação cultural aqui. Só sei que TODXS (2018) é o álbum mais consistente da carreira dela desde a estreia em Amor e Caos (2007) – e eu ouvi todos na tarde anterior ao show aqui em BH. Essa pegada soul, meio hip hop às vezes, o cover de ‘Eu Amo Você’ do Tim Maia, as letras fogo no patriarcado, tanta coragem que exala desde a capa, tudo encaixa muito bem com a nova imagem e postura libertária da cantora, topless no Rock in Rio.  Stephania AmaralDoutoranda…

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    APKÁ!, de Céu

    Tenho ouvido bastante o APKÁ!, quinto álbum de estúdio da cantora e compositora paulista Céu, que eu acompanho desde o disco homônimo lançado em 2005 (com a famosa “Malemolência”). Este trabalho não supera o já clássico Vagarosa (2009) nem Tropix (2016), meu preferido, mas como sempre, traz uma sonoridade envolvente e letras marcantes cantadas pela voz doce e meio rouca, especialmente “Coreto” (clipe abaixo) e “Nada Irreal”.  Stephania AmaralDoutoranda em cinema de horror, revisora e aspirante à crítica de música no @discosdaste

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    Mais que os Olhos Podem Ver, de Jade Baraldo

    Tenho ouvido muito o “Mais que os Olhos Podem Ver” (2019), disco de estreia de Jade Baraldo. A xovem que surgiu ano passado com o refrão forte “vadia, louca, depravada…” continua corajosa e indomável desde os primeiros versos em “perigo” (veja o clipe abaixo), depois do convite “vem sentir comigo”: “não tenho medo de ser quem eu sou, nem tenho vergonha nenhuma de expor”. O clima de romance é mais forte no primeiro ato, em faixas como “nós 2”, “yo quiero!” e “jardim”. Ela canta em inglês em “oh my baby… let’s die together”, reforçando a pegada pop embalada por alt-R&B e MPB. As letras ficam mais críticas e agressivas…

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    Planeta Fome, de Elza Soares

    Aos 82 anos, Elza Soares, depois dos impecáveis A Mulher do Fim do Mundo (2015) e Deus é Mulher (2018), demonstra extrema vitalidade ao lançar o 34º álbum de sua carreira, Planeta Fome (2019) – a capa maravilhosa é da Laerte! Com parcerias com BaianaSystem e BNegão, com direito a referências ao Tim Maia “me dê motivo, pra ir embora…” e agradecimento irônico ao Garrincha, “obrigada mané!”, ela regravou ainda canções de Seu Jorge e Gonzaguinha, além da recente “Não Recomendado”. Os ritmos e as letras pesados refletem a atual atmosfera política do país, referenciado a todo momento não só na faixa “Brasis”. Segundo a dELZA, “o Brasil só está…

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    Desmanche, de Karina Buhr

    Depois de Eu Menti pra Você (2010), Longe de Onde (2011) e Selvática (2015), a cantora baiana Karina Buhr lança seu quarto álbum, Desmanche (2019), espera que fez valer cada faixa. Talvez o mais pesado, tem tambores que remetem aos primórdios da carreira na Comadre Fulozinha, tem espaço para romance – ainda que desiludido – em “Amora” e mantém o característico sotaque recifense, parte de sua afrontosa resistência. Apesar dos títulos que aparentam ser regravações, as faixas são composições próprias, como “Chão de Estrelas”, “A Casa Caiu” e “Filme de Terror”, bolero irônico em que “vende-se ânimo, valentia, coragem”. Já a vi pasma de admiração em muitos shows, de covers…