Críticas e indicações
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A Cronologia da Água (The Chronology of Water, 2025)
O cinema parece sempre cheio de biografias, ano após ano. Recentemente, inclusive, esse espaço vem ganhando também cada vez mais filmes nesse formato, só que retratando personagens fictícios, usando os moldes tradicionais da cinebiografia, ou tentando fazer algo mais empolgante. Do oscar bait a visões interessantes de vidas reais ou inventadas, tudo já foi feito. Poderia-se dizer que há um desgaste, mas a indústria e o público não se cansam, aparentemente, das biopics. Essa introdução pessimista vai na contramão do que se vê em tela quando Kristen Stewart decidiu contar a história de Lidia Yuknavitch nos cinemas, já que A Cronologia da Água carrega em si uma motivação e paixão…
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Hamnet – A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025)
Em um ano com tantos filmes relacionados a parentalidades, não consigo deixar de relacionar Morra, Amor (Die, My Love), de Lynne Ramsay e Hamnet, de Chloé Zhao. O primeiro trata de uma mulher, Grace (Jennifer Lawrence), escritora, que se casa, engravida, e vai morar em uma casa distante com o marido, onde começa a apresentar o que é entendido pelos demais como um comportamento errático. O segundo é a história ficcionalizada da pessoa real que foi Agnes, esposa de William Shakespeare, envolvendo a morte do filho de ambos, Hamnet, que teria inspirado a escrita da peça Hamlet. Ambas são narrativas que envolvem questões complexas sobre maternidade e domesticidade. Na época…
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Quando a Mulher se Opõe (Merrily We Go to Hell, 1932)
Publicado originalmente em 11/12 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. Joan (Sylvia Sidney), uma jovem socialite, filha de um rico industriário, conhece Jerry (Fredric March), um charmoso jornalista em uma festa. Ela estava entediada, ele a fez rir. Embriagado, ele faz um brinde aos dois, exclamando merrily we go to hell: alegremente vamos ao inferno. Apesar da simpatia do rapaz, ele claramente não consegue mais controlar seu desejo pelos copos: esse brinde já é um aceno de desespero e a frase dá o título original de Quando a Mulher se Opõe (1932), romance-melodrama pré-código dirigido pela cineasta Dorothy Arzner. …
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Melhores Filmes de 2025
Como todos os anos, tentei elaborar uma lista dos filmes que mais gostei e como todos os anos sofri no processo. Filmes entraram e saíram e certamente vou me arrepender assim que publicar. Eu não gosto de fazer listas muito extensas, mas também gosto de números redondos, então acabei ficando com 30 títulos. Esse é um recorte aproximado daquilo que mais me emocionou e/ou instigou em 2025, nem sempre necessariamente os melhores em termos objetivos (isso existe?), mas alguns dos que mais mexeram comigo. Até o momento, foram 283 filmes assistidos no ano, sendo 240 longas metragens. Se eu contei certo, 101 foram lançados Brasil ao longo dos últimos 12…
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20 melhores filmes vistos pela primeira vez em 2025
Desde 2013 incluo na minha retrospectiva do ano esse apanhado de descobertas entre os filmes que assisti que não são lançamentos daquele ano. Afinal, a cinefilia nunca acaba, é um processo de encontros. A lista também pode ser conferida no letterboxd, onde também é possível ver minha nota para cada um deles. A ordem da disposição é cronológica, já que ranquear seria uma tarefa ingrata. Seguem os escolhidos. Garotas Na Farra (The Wild Party, 1929) Direção: Dorothy Arzner Minha Rainha (Queen Kelly, 1932) Direção: Erich von Stroheim O Pecado da Carne (Rain, 1932) Direção Lewis Milestone Oharu, a Vida de uma Cortesã (Saikaku ichidai onna, 1952) Direção: Kenji Mizoguchi Palavras ao…
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Tudo que Resta de Você (All That’s Left of You, 2025)
Publicado originalmente em 27/11 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. Tudo que Resta de Você (All That’s Left of You, 2025), escrito e dirigido pela cineasta palestino-jordaniano-estadunidense Cherien Dabis, utiliza do drama familiar para contar a história da Palestina em três gerações. Logo no primeiro ato, a câmera na mão segue pelas ruas um adolescente, Noor (Muhammad Abed Elrahman) e seu amigo. O moletom amarelo de um, a jaqueta jeans do outro, eles poderiam ser jovens em qualquer lugar de um momento recente. Mas trata-se da Cisjordânia em 1988, na primeira Intifada, quando os palestinos se rebelaram com pedras…
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Mini-guia para o cinema de Mira Nair
Publicado originalmente em 06/11 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui. A recente eleição do jovem democrata Zohran Mandani como prefeito de Nova York gerou muita curiosidade sobre sua figura pública e sua vida. E com isso diversas pessoas descobriram que a primeira-mãe é a cineasta indiana Mira Nair. Aqui no Feito por Elas, ela já figurou em um de nossos primeiros podcasts e apareceu na nossa lista de Melhores Filmes da Década de 2000. Aproveitando a deixa, nada melhor do que conhecer um pouco mais do trabalho da diretora Mira Nair. Esse é um mini-guia para a filmografia…
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Apolo (2025)
Logo nos primeiros minutos, Apolo já se mostra um filme bastante íntimo. Enquanto Lourenzo e Isis conversam sobre o significado de realizar uma obra audiovisual que retrate o período de gestação e nascimento do filho, ainda pequeno na barriga do pai, o casal reflete sobre como as histórias desses momentos, em geral, são apenas contadas, repassadas nas famílias. Como símbolo da ruptura com as formações familiares tidas como tradicionais na sociedade, a gravidez de Apolo não poderia ser apenas uma conversa para o futuro, urge a necessidade dos pais de construir algo maior, mais honesto e sensível. O documentário é uma carta de amor ao filho, que atravessa linearmente cada…
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Cobertura completa do Feito por Elas na 49ª Mostra de São Paulo
Essa página vai funcionar como um índice, com todas as nossa críticas de filmes da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo publicadas. Os filmes estão em ordem alfabética do título traduzido. Ao final também é possível conferir a lista de entrevistas. 100 Sunset, de Kunsang Kyirong, por Isabel Wittmann A Garota Canhota (Left-Handed Girl), de Shih-Ching Tsou, por Raissa Ferreira Ainda é Noite em Caracas (Aún Es de Noche en Caracas), de Mariana Rondón e Marité Ugása, por Isabel Wittmann A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo, por Raissa Ferreira À Paisana (Plainclothes), de Carmen Emmi, por Isabel Wittmann Aqui Não Entra Luz, de Karol Maia, por…
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[49ª Mostra de São Paulo] Broken English
Esse texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. Em Broken English, a dupla Jane Pollard e Iain Forsyth parte de um experimento fictício para mostrar, por meio de narrativas conflitantes ao longo das décadas, a complexidade artística de Marianne Faithfull. Entre a conversa com o público estabelecida pela personagem interpretada por Tilda Swinton e os relatos da própria Marianne a um examinador vivido por George McKay, o filme passa por todas as definições que a artista recebeu, sobretudo nos anos 1960, para reivindicar o papel que ela merecia na música e na cultura pop desde…