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Kindred, seriado adaptados do livro de Octavia Butler

Texto publicado originalmente na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas.


Um dos motivos pelos quais não vi filmes nos últimos dias, além da correria, foi que resolvi assistir a Kindred, nova série da Hulu adaptada do livro de mesmo nome da Octavia Butler. Eu recebi o screener pelo Globo de Ouro e, mesmo não votando em televisão, decidi ver, porque o livro é MARAVILHOSO apenas. Uma das melhores leituras que fiz ano passado com o Grupo de Leitura Feito por Elas. A história é sobre uma jovem escritora, chamada Dana, que se vê voltando repetidas vezes para o começo do século XIX, em uma fazenda do sul estadnidense no contexto de plantation e escravidão. 

A série parte da mesma premissa, mas ao invés de mantê-la na década de 1970, contemporânea à obra, o tempo presente se passa em 2015. Logo no piloto somos levados subitamente junto com Dana (interpretada pela ótima estreante Mallori Johnson) em sua viagem ao passado que, assim como no livro, nunca é explicada, afinal o mecanismo é menos importante do que os acontecimentos testemunhados. Logo ela percebe que tem alguma conexão com Rufus (David Alexander Kaplan), um menino que salva algumas vezes. Mas para permanecer perto do garoto precisa conviver com a ressentida dona da casa Margaret (Gayle Rankin) e o pai dele, Thomas Weylin (Ryan Kwanten), dono da fazenda e basicamente uma pessoa horrível em todos os sentidos possíveis.

Essa forma de apresentar ao expectador o contexto presente e passado da trama é bastante eficiente, mas os episódios seguintes se arrastam um pouco. Algumas mudanças na estrutura do livro podem ser culpadas. Kevin (Micah Stock), marido de Dana no livro, aqui é apenas um homem que ela acabou de conhecer e com quem teve um encontro, de forma que a ligação deles é, à princípio, mais superficial, e o laço adquirido em torno do que estão vivenciando é forçado. Além disso, ele passa, em alguns momentos, a adquirir o protagonismo da trama e também a funcionar como alívio cômico, de forma incômoda. Uma subtrama envolvendo a mãe da personagem também me deixou questionando seu rumo e o acréscimo de vizinhos chatos e caricatos para criar um drama extra é dispensável. 

A segunda metade da temporada fica mais interessante. À partir do momento que Kevin passa a voltar ao passado junto com Dana o protagonismo dos dois fica mais equilibrado, voltando ela ao destaque. A participação de ambos, sendo ele um homem branco e ela uma mulher negra, permite mostrar as dinâmicas das relações étnico-raciais da época, da forma como ambos precisam esconder seu relacionamento ao modo como acessam os demais personagens. Dana está junto às pessoas escravizadas da fazenda, acompanhando seus problemas e necessidades e ajudando conforme suas possibilidades. Kevin permanece entre as demais pessoas brancas, mostrando os tipos de ideologias que circulavam entre as classes dominantes e testemunhando hipocrisias e desmandos. 

Pensava que a obra seria uma minissérie fechada, mas, na verdade, a temporada termina sem estar nem no meio livro. Trata-se de uma adaptação que não tem o mesmo primor e profundida do livro de Butler, mas melhora ao longo do caminho e termina com a promessa de ficar mais interessante na segunda temporada. 

O seriado estreou em 13/12 nos EUA e vai chegar ao Brasil na Star+, ainda sem data confirmada.

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Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero, sexualidade e cinema e é feminista.

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