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[44ª Mostra de São Paulo] Miss Marx


Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online.

Quando se fala da prole do filósofo Karl Marx, pouco se comenta para além do aspecto trágico de suas histórias. Sem fugir dessa faceta, a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli, no entanto, busca em Eleanor (Tussy) Marx (Romola Garai) uma protagonista marcada por várias lutas. O filme começa em 1883, no enterro de seu pai e se estende até 1898, com a sua própria morte.

A trama começa nos apresentando a sua vida afetiva. A relação próxima com o pai é mostrada por meio de flashbacks. O presente nos traz seu filho de um relacionamento anterior e seu envolvimento com Edward Aveling, um homem separado, de quem não pode se separar oficialmente e que, em suas palavras, não tem noção de dinheiro. Com ele frequenta amigos intelectuais e a direção se arte se esmera em colocá-los como uma espécie de contracultura da época. Ela veste uma capa com franjas e estampa parsley colorida e sua amiga, a escritora Olive Schreiner, uma saia formada por múltiplas tiras de tecidos com estampas diferentes costurados entre si. Já o companheiro de Olive veste um robe com flores bordadas. Tudo isso cria uma aparência meio hippie, meio boêmia, que contrasta com o robe fúcsia ou o paletó de veludo azul, extremamente dândi, de Edward, demonstrando o desalinhamento dele com ela mesma.

Mas, para além dos dramas pessoais, o filme nos apresenta à faceta ativista e teórica de Eleonor, que trabalhou com traduções de obras literárias, defendeu os diretos das mulheres e das crianças trabalhadoras, foi sufragista, sindicalista e pensadora (pode-se dizer marxista, quando ela mesma é Marx?). São tantas as atividades políticas dela que às vezes parece que a narrativa não dá conta, pincelando um ou outro momento de cada item para simbolicamente representar um trabalho maior.

Nesse sentido, o que é mais interessante no filme é justamente como se propõe abordar esses elementos. Se a proposta episódica parece remeter a uma cinebiografia convencional, Nicchiarelli consegue, ainda assim, criar uma estética bem particular. Ela insere falas que apresentam conceitos trabalhados pela autora: “a luta de classes existe”, o “lucro sempre vem de trabalho não pago”, “quanto maior a acumulação de riqueza, mais pobre o país”, “a condição cruelmente degradante” das mulheres e a “tirania dos homens”. Mas para que o filme não se torne didático ou panfletário, apegado apenas ao textual, insere slides com cenas de resistência e revolta popular, imagens das condições de trabalho fabris e o que mais for necessário para dialogar com o que se fala. E, o mais importante: a trilha sonora, punk (com direito à Internacional em versão da banda Downtown Boys) que dá o tom da abordagem da protagonista e confere energia aos acontecimentos.

Sem entrar em detalhes, a sequência final redesenha a trajetória da personagem de uma maneira muito interessante. Em certo momento no meio do filme vemos Eleanor falar para Edward que eles nunca conversam sobre coisas sérias e que ela havia sido transferida das mãos do pai para a do marido. Um zoom out e descobrimos que trata-se de uma peça de teatro, Casa de Bonecas, de Ibsen, que ela havia traduzido. A citação específica é utilizada para contextualizar sua própria trajetória, uma vez que entabulou sua primeira conversa com Edward, pelo menos na diegese, no enterro do pai. E nessa cena ela usa um vestido claro e floral que destoa, pelo ar romântico, de suas demais roupas. Em conversa após a peça, Edward comenta que ela também traduziu Madame Bovary, de Flaubert e aí se estabelece outra relação entre a protagonista e a literatura dessa vez com o desfecho da heroína da obra. Então, no final do filme, após inúmeros acontecimentos, ela reaparece com o mesmo vestido, após a constatação de que Edward não a trata como gostaria, dessa vez não como personagem que fala com melancolia sobre o matrimônio, mas como a pessoa real que está infeliz. Downtown Boys retorna com a música I’m Enough (I Want More), dançada catarticamente pela casa. Um flashback mostra a pequena Eleonor dizendo que sua virtude preferida é a verdade e seu mote é “vai em frente”. Com toda essa poética, a cineasta consegue resignificar o fim da vida da ativista.

Miss Marx poderia ser um filme esquemático e formulaico, mas está muito longe disso. As questões prementes para a protagonista aparecem de uma forma instigante. Com inventividade, a diretora Susanna Nicchiarelli imprime um vigor muito próprio na narrativa e o punk serve perfeitamente para dialogar com a trajetória da retratada.

Nota: 4 de 5 estrelas
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