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[44ª Mostra de São Paulo] Walden


Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online

Jana (Ina Marija Bartaité) é uma jovem filha de um funcionário público bem posicionado na Lituânia, em um momento em que a União Soviética estava próxima do fim. Ela conhece Paulius, um rapaz que adota uma estética punk e que ganha dinheiro com o mercado negro. Escrito e dirigido por Bojena Horackova, Walden (2020) se apresenta como uma espécie de história de Romeu e Julieta, em que as expectativas e realidades de ambos os colocam em lugares diferentes no contexto em que vivem.

Jana faz parte de um grupo de amigos melhor situados financeiramente e querem estudar. Ela mesma tem interesse em arquitetura. Diz-se que os tempos estão mudando, assim como as escolas e as universidade, como sinal do desmoronamento do bloco soviético. Mas Paulius não crê nessa mudança, ironiza os apartamentos grandes, que afirma ser vergonhosos, dos funcionários públicos. Esse contexto político e econômico daquele momento histórico trespassa o filme sem nunca ser realmente o foco.

Enquanto Paulius atravessa a fronteira e consegue dinheiro com essas atividades, os demais, que desejam suas botas e seu carro, que contrabandeiam livros pra estudar, criticam suas ações. Mas não só eles: o governo segue atentamente seus passos e sabe até mesmo o endereço de Jana. A menina começa a acompanhá-lo, falsificar assinaturas do pai em documentos e matar aulas. Eles vão sempre a um lago que ele chama de Walden e que dá nome ao filme é que fica na sua lembrança como uma memória mítica da juventude.

O filme usa uma montagem paralela que coloca as personagens 30 anos no futuro. Jana reencontra amigos, conversa sobre os tempos passados e analisa os acontecimentos. Esse vai e volta temporal não consegue conferir aos adultos o mesmo interesse despertado pelos jovens e suas histórias. É como se eles pontuassem ela com seus opiniões de hoje, mas o momento de agora não é do interesse da própria diretora, para além de ser um espelho do passado.

Mais que isso, a proposta de ser uma história de Romeu e Julieta não se concretiza, apesar dos encontros furtivos que ficaram na lembrança. Não há peso na construção do relacionamento e, mesmo com as reflexões contemporâneas, não é possível entender onde ele acabou. O drama político que poderia ter se delineado também é desperdiçado, servindo apenas de pano de fundo superficial. Talvez a diretora tenha optado propositalmente por uma história de sensações difusas, mas o resultado é que Walden se desmancha sob a leveza da própria narrativa.

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