Entrevistas

Entrevista | Lúcia Murat, diretora de Hora do Recreio

Em Hora do Recreio, a diretora Lúcia Murat continua sua jornada rumo ao entendimento do que pensam as novas gerações. O filme acompanha jovens do sistema público de ensino do Rio de Janeiro, reunindo relatos que atravessam temas como violência de gênero e racismo, e culmina em uma encenação artística que evidencia a força da arte como espaço de expressão e descoberta para esses estudantes.

Entrevistei Murat recentemente para falar do filme, que vem de uma carreira internacional de destaque, com Menção Especial do Júri Jovem na mostra Generation 14plus do Festival de Berlim 2025. Entre vários assuntos, ela falou sobre a importância da inserção da arte no cotidiano dos jovens da rede pública, e as surpresas que o filme reservou ao longo de sua produção.

Leia a entrevista na íntegra, abaixo:

Camila Henriques: Como surgiu a ideia de olhar para essas experiências dentro da escola e transformar essas vozes no ponto de partida do filme?

Lúcia Murat: Essas dificuldades que fazem parte da realidade brasileira, na verdade, que acabaram acontecendo, ao invés de eu me submeter a essas dificuldades, eu acabei integrando essas dificuldades dentro do filme. Talvez por isso que o filme seja um filme tão diferente, de mistura de gêneros e de situações diferentes.

O Ensino Médio é ligado ao Governo do Estado, e o Fundamental 1 e 2 são ligados à Prefeitura. A gente tinha apoio da Prefeitura, a gente tinha apoio da RioFilme, não tinha problema, mas não conseguimos a liberação [do Governo] para filmar no Ensino Médio. E aí a produção falou: “olha, você vai ter que abrir mão do Ensino Médio e ficar só com o Fundamental”. Eu falei: “não vou [abrir mão], porque eu preciso do Ensino Médio. Aí falei: “por que a gente não faz igual um filme de ficção? Coloca a van lá e aluga uma escola e leva para essa escola e faz, e filma”. E foi o que a gente fez.

E isso está no filme, porque eu também não queria enganar o espectador. [Recentemente], a gente estava fazendo uma série de sessões para a rede pública, e em uma dessas sessões, das meninas [da primeira escola] falou assim, e eu achei muito bonitinho: “Fomos muito bem tratadas, puseram van e deram comida”. Funcionou como um filme de ficção normal.Tem van e tem café da manhã, almoço e lanche.

Com uma outra escola que teve operação policial também, a gente não pôde filmar. Era uma escola ótima, tinha projetos muito interessantes. Então, o que a gente faz? A gente teve que parar algumas vezes para se readequar.

Camila: Queria falar da sua experiência filmando diferentes gerações, falando com jovens ao longo da sua carreira. Esse trabalho começou a ser feito em 2018, mas é uma geração que passou por um governo totalitário, por uma pandemia, e que tem acesso às redes sociais. Você sentiu essa diferença, você sentiu que essa geração está mais consciente dessas questões, mais disposta a falar sobre elas?

Lúcia: Se for comparar com a minha geração até, de jovens nessa faixa etária, acho que tem uma consciência da questão identitária que a gente não tinha, tanto da questão do racismo, tanto da questão do abuso. Isso é um avanço muito grande. Por outro lado, também é uma geração que tem muita dificuldade de concentração em função das redes sociais, em função do celular. Outro dia eu estava numa dessas sessões e os alunos estavam demorando para entrar e comecei a dar bronca. Falei assim: “gente, está na hora, não vai perder o início do filme, não dá para perder”. O gerente do cinema chegou para mim e falou que é impressionante que, mesmo quando eles pagam, é comum entrarem com o filme já e não concentrarem no filme. É um problema, realmente. E tem esses dois lados.

Camila: É muito interessante pensar que uma sala de aula carrega várias histórias ali, principalmente na rede pública. A menina que não tem como ir todo dia porque tem que trabalhar, o garoto que sofre homofobia, a garota que tem consciência do racismo que ela sofre, isso realmente é muito diferente. E é muito legal como é inserido também o Lima Barreto nesse contexto. Essa descoberta desses autores, a gente teve isso com o Machado de Assis também, de descobrir a obra deles e também entender as problemáticas que elas tinham por terem sido feitas como foram feitas. Queria que você falasse também sobre esse processo de inserir a arte no filme. 

Lúcia: O Lima Barreto era uma ideia original que eu tinha desde o início [da produção]. Eu gosto muito do Lima Barreto, um grande escritor da nossa literatura. E Clara dos Anjos é um livro que trabalha sobre essas duas questões, racismo e abuso. Eu queria muito pensar como é que isso se dava hoje. Acho até que, naquele momento que eu pensei nisso, eu tinha uma visão muito academicista, meio sociológica, [de querer] discutir o passado e o presente. [Mas depois cheguei à ideia de representar] no teatro e depois discutir o que era na época e o que é hoje.

Na primeira leitura que eu fiz, foi uma tragédia, porque é um texto muito antigo, um texto que não cabia na boca de ninguém. Na segunda leitura, [os alunos] começaram a fazer piada, começaram a brincar com o texto, a brincar com as palavras. Aí eu percebi, eles estão dando a saída para chegar a contemporaneidade, que é através do humor, é através deles brincarem com esse texto e terem liberdade para isso. Foi aí que a gente decidiu filmar… Óbvio, foi tudo ensaio, ensaio, ensaio, muito ensaio.

Depois de dois meses de ensaio, eles estavam com o controle total do Lima Barreto, de tudo, e foi muito bonito. Foi totalmente documental, jogamos duas câmeras lá, eles foram falando.

Camila: O filme está fazendo uma carreira internacional, participou da Berlinale do ano passado e ganhou um prêmio. Eu queria saber como tem sido as conversas que ele está provocando no público de fora, porque a experiência de ser jovem é muito diferente em cada lugar do mundo. 

Lúcia: A gente foi para muitos festivais, e eu estive pessoalmente na França e Alemanha. No caso da Alemanha, tem uma coisa que é a identificação geral, [algo que] todos amam, que é a trilha sonora. Não interessa estar em português e tal, eles se identificam direto e gostam muito. E, no caso da Alemanha, você tem um crescimento da extrema direita muito grande, você tem um crescimento do nazismo muito grande, você tem uma questão da imigração. A discussão do racismo é uma discussão que permeia, que é presente, não é uma coisa de fora. 

No caso da França, [eu participei de um debate em uma] escola mais de meninos brancos. Seria mais legal se tivesse sido com o pessoal da banlieue, porque aí realmente teria uma identificação maior. Tem esse marcador de classe muito importante na hora que você vai discutir juventude, gênero, sexualidade, raça. Os homens têm que participar dessa discussão também.

Camila: Eu gosto muito também de como o filme mostra a arte como esse espaço para esses jovens se encontrarem, para eles se expressarem, para escapar das violências…

Lúcia: Tem uma coisa que a curadoria do Festival de Berlim falava muito, que eles selecionaram o filme e ficavam encantados pelo filme porque [os jovens] não  são apresentados como vítimas, eles eram apresentados como pessoas de resistência. E tinha uma coisa para mim que era fundamental, eu falei, eu quero acabar esse filme com aplausos, acho que é fundamental para essa história. Para mim, [isso] era importante para romper com a questão da vítima. E mesmo na primeira escola, que é tão impactante, e da mesma forma como vocês sentem a dor e ficam emocionados, a gente ficou, porque quando a gente filmou, a menina começou a falar e foi um atrás do outro. A equipe começou a chorar. Teve uma hora que eu achei que a gente não ia conseguir filmar, porque estava todo mundo assim, chorando, e sem conseguir fazer as coisas direito, entendeu? Foi muito impactante mesmo.

Mas mesmo nessa primeira turma, você vê que essas mães contam casos tão difíceis, tão barra pesada, mas são mães que de alguma maneira tinham dado a volta por cima, senão os filhos não estariam lá, na escola, estudando. [Elas] estão representando força e resistência para os filhos também. Eu acho que [os jovens] também têm essa capacidade de falar por causa disso, porque as mães conseguiram dar a volta por cima. 

Camila: E para encerrar, voltando à sua primeira resposta, sobre o processo de fazer o filme, eu queria que você falasse da chegada do Hora do Recreio nesse momento em que o Brasil tenta ainda reconstruir políticas públicas para a cultura depois do governo Bolsonaro. 

Lúcia: O que eu gostaria era que esse filme trouxesse uma discussão sobre educação pública mesmo. Tem que ter melhores salários, tem que ter recursos, e recursos para poder levar os alunos ao teatro, cinema, museu. Você vê que no filme, por exemplo, tem uma senhora que é professora, que é quase da minha idade, e ela é marrenta, pega os alunos, põe no metrô e leva para o centro cultural. O acesso à cultura parece algo tão simples, mas é um lugar de privilégio. E as políticas públicas para a cultura facilitam [isso de] levar esse filme para as escolas e outros filmes também.

Por exemplo, essas sessões que a gente está fazendo agora [com as escolas] são um esforço muito grande. A gente acha importante e pegou um dinheiro, uma parte do dinheiro da distribuição, para pagar isso, porque a gente está levando os alunos ao cinema. É importante que eles vivam o cinema.

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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