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Copo americano

Farei uma recomendação dupla, pois associei duas produções de mulheres com copos americanos nas capas. A primeira, copo vazio, é o novo livro da Letrux, Tudo que já nadei, dividido em Ressaca (“famoso textão”), Quebra-mar (poemas) e Marolinhas (aforismos anônimos). Comecei a ler as três partes em ordem inversa, começando pelo ato 3, e percebi que a Letrux é mesmo melhor na prosa. As múltiplas escolhas de formatos que ela explorou em Zaralha, projeto anterior, aqui se concentram no textual e eliminam fotos e desenhos, mas ela mantém o estilo memorial. Nesse corpo sem órgãos submerso há espaço ainda para diálogos de zap – ficcionais ou não – e ainda breves oportunidades interativas para o leitor preencher espaços vazios. Nossas ídalas cantantes PJ Harvey, Fiona Apple e Lhasa de Sela são citadas entre os versos, cheios de saudosismo infantil e prantos pandêmicos.

A segunda indicação, copo cheio, é A month of single frames (2019), de Lynne Sachs, que aproveitou um material experimental inacabado de Barbara Hammer (temos podcast sobre ela), filmado em 1998. O curta, que ainda está disponível por mais uma semana no Mubi, encerra com este poema da diretora:

Ela fez 60 anos hoje.
Ela tinha quase a idade de sua mãe quando morreu
Arrependida de não viver seus sonhos e desejos em uma idade avançada
O quão ressentida ela se sentiria se morresse três anos a partir de hoje?
Morrer sem ter tido seu cachorro de estimação
Sua casa de campo
Seus longos dias preguiçosos jardinando e caminhando no quintal
Morrer sem saber o resultado do trabalho de seu parceiro
O inevitável fim da respiração e do sangue correndo
O completo e minucioso vazio
“É por isso que nos ocupamos?, ela se perguntou
“Para que não tenhamos tempo para contemplar o coração dilacerante…
do fim dessa expansão chamada vida?”

(Barbara Hammer)

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Doutoranda em cinema de horror, revisora e aspirante à crítica de música no @discosdaste

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