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O BANQUETE de Daniela Thomas

O Banquete, de Daniela Thomas (Vazante), é muito mais do que um filme político. É um estudo de personagem, um teatro filmado, sem que isso soe pejorativo. Em uma noite de climão, com o perdão do trocadilho letruxiano, inimigos íntimos se reúnem ao redor de uma mesa decorada com plantas carnívoras para um jantar claustrofóbico e antropofágico.

Ted (Chay Suede) é o voyeur, que não por acaso o primeiro em cena, em seu distanciamento da treta nos conduz pela trama. O chamado “menino” deixa um pouco de sua saliva para lustrar a taça de vinho dionisíaca, da qual escorre o sangue de Cristo da boca de Plínio (Caco Ciocler), golada farta no caríssimo Brunello. Antes de entrar em cena para seus convidados, a anfitriã Nora (Drica Moraes) chora, exibindo uma vulnerabilidade surpreendente em relação à vilã sádica que aparenta.

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Maria (Fabiana Gugli), a amante subjugada, hipnotizada pela atriz Beatriz (Mariana Lima), que lhe oferece monólogo, de modo sagaz identifica o fascínio masculino com prisão e se torna o menor dos problemas diante de tantas lembranças cáusticas em meio a muita fumaça, envoltos por um espelho que simbolicamente apodrece.

Tendo como principal força as atuações estupendas, surgem questionamentos filosóficos como: “O que é obsceno hoje não é o sexo, é o amor” – este uma doença, uma fraqueza, uma incapacidade moral – e delícias de aliterações como “crítica construtiva constrange”.

Um isqueiro de motel torna-se, mais do que uma proposital chave de cadeia, a metonímia do poder transferido e outro elemento de perversidade e misoginia. A mulher gato (Bruna Linzmeyer) surge atrasada, carne jovem que causa visível abalo na atmosfera e garante o enquadramento mais belo da película, vista através das taças, ordenada a tirar a máscara. Lucky (Gustavo Machado), com outro apelido americanizado, acrescenta camada extra de provocação, apenas equilibrada pela simplicidade contrastante da personagem de Georgette Fadel.

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O celular antigo é o único elemento que dedura estarmos em outra época, já que o figurino minimalista e os penteados apenas dão pistas noventistas, mantendo um aspecto atemporal. Mauro (Rodrigo Bolzan), o mesmo herói nacional que escreve uma carta aberta ao presidente Collor, é desconstruído na imagem de um infeliz que ao invés de expor mulheres ao ridículo as torna evidentemente mais fortes.

Todo o erotismo da trama se dá em provocações verbais que nos fazem imaginar, entre outras perversões, o coito com uma noiva ainda caracterizada, eternizada no topo do viscoso bolo de casamento. Uma impotência que garante a adoração eterna, o amor eterno, a gargalhada sádica com ouriço na boca, que, surpresa, não estava temperado com veneno.

https://stephaniaamaral.wordpress.com/2018/09/02/o-banquete/

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