Blogs,  Críticas,  Isabel Wittmann

Sense8

Esse texto foi originalmente escrito para a revista LumeScope em 04/06/2018

No dia 24 de junho último, foi ao ar na plataforma de streaming Netflix o episódio final do seriado Sense8, criado por Lana e Lilly Wachowski. Dirigido por Lana Wachowski, ele tratou de arrematar algumas pontas que haviam ficado soltas com o cancelamento do programa ao fim da segunda temporada. A maior parte das soluções encontradas para produzir um desfecho diziam mais sobre os personagens e sua relação com as pessoas que assistem a eles do que sobre a trama proposta inicialmente.

A série aborda a história de oito desconhecidos distribuídos ao redor do globo, que subitamente se descobrem conectados uns aos outros, não só compartilhando sensações, como habilidades e mesmo a presença quase física. Esses oito são a coreana Sun (Doona Bae, de outros trabalhos com as irmãs Wachowski), a estadunidense Nomi (Jamie Clayton), a indiana Kala (Tina Desai), a islandesa Riley (Tuppence Middleton), o mexicano Lito (Miguel Angel Silvestre), o estadunidense Will (Brian J. Smith), o alemão Wolfgang (Max Riemelt) e o queniano Capheus (Toby Onwumere à partir da segunda temporada). A diversidade é posta no elenco, mas também nas experiências apresentadas. Por isso é interessante perceber como a série se conecta tematicamente com outros trabalhos das irmãs, que costumam incluir em suas obras questões sobre sexualidade, corpo e espiritualidade.

Já em seu primeiro longa, Ligadas pelo Desejo (Bound, 1996), as protagonistas Violet (Jennifer Tily) e Corky (Gina Gershon) são amantes. As diretoras fogem de uma representação heteronormativa, o que em Sense8 culmina na composição de personagens lésbicas e gays (em se tratando se sexualidade) e transgêneros (quando se fala de gênero) que não são unidimensionais. Nomi e Amanita (Freema Agyeman), bem como Lito e Hernando (Alfonso Herrera) tem suas profissões, interesses e características de personalidade trabalhadas para além do fato de serem pessoas LGBT. Claro que a LGBTfobia se faz presente na trama, marcada dos conflitos familiares até os percalços profissionais. Esses momentos são utilizados como uma forma de compartilhamento de experiências. Nomi chega mesmo a dizer “A verdadeira violência, a violência que eu percebi ser imperdoável, é a violência que fazemos a nós mesmos, quando estamos com muito medo de ser quem realmente somos”. Em outro momento, no contexto de uma parada do orgulho LGBT retratada, ela diz:

Durante muito tempo, tive medo de ser quem sou porque fui ensinada por meus pais que há algo errado com alguém como eu. Algo ofensivo, algo que você evitaria, talvez até mesmo teria pena. Algo que você nunca poderia amar. Eu estava com medo dessa parada porque eu queria muito fazer parte disso. Então hoje, eu estou marchando para aquela parte de mim que antes estava com medo demais para marchar. E por todas as pessoas que não podem marchar … as pessoas vivendo vidas como eu fiz. Hoje marcho para lembrar que não sou apenas um eu. Eu também sou um nós. E nós marchamos com orgulho.

A personagem frisa, assim, ao mesmo tempo, o medo que as violências cotidianas causam e a maneira como um indivíduo pode significar um coletivo. Nesse sentido, sua trajetória e suas falas e posicionamentos parecem muitas vezes ser utilizadas como uma forma de dar voz à própria experiência das diretoras, ambas mulheres transgênero. Lana veio a pública falar sobre sua transgeneridade em 2012, logo se tornando uma voz importante sobre o assunto e sendo creditada como a primeira grande diretora transgênero de Hollywood. Lilly, por sua vez, passou por uma situação midiática terrível: foi basicamente chantageada a trazer a público sua própria transgeneridade por um veículo de mídia. Para fazê-lo antes dele, utilizou uma carta pública em que abordava o assunto, dizendo que:

essas palavras “transgênero” e “transição” são difíceis para mim porque ambos perderam a complexidade em sua assimilação no mainstream. Há uma falta de nuances de tempo e espaço. Ser transgênero é algo grandemente entendido como existente dentro das fronteiras dogmáticas de masculino ou feminino. E “transicionar” transmite uma sensação de imediatismo, um antes e depois de uma fronteira para outra. Mas a realidade, minha realidade, é que eu tenho transicionado e continuarei a transicionar toda a minha vida, através do infinito que existe entre masculino e feminino, como acontece no infinito entre o binário de zero e um. Precisamos elevar o diálogo além da simplicidade do binário. Binário é um falso ídolo (WACHOWSKI, 2016, tradução minha).

Lilly, portanto, chama a atenção para o absurdo de acreditarmos em limites fixos para performatividades masculinas e femininas, quando no próprio cotidiano esses limites são disputados. Não há um corpo natural, intocado pela cultura, e, de fato, o corpo transgênero se apresenta efetivamente como “um corpo transformado, fabricado, que aparece e se afirma como corpo fabricado, não um corpo substantivo, objetificado, mas corporalidade, veículo e sentido da experiência” (MALUF, 2002, p.145-146). Ainda que todos os corpos sejam fabricados, apenas alguns são entendidos como tal. É por este motivo que Paul Preciado fala a respeito da violência do binarismo mencionado por Lilly, que “força os corpos falantes a se enquadrarem em padrões específicos, que se disfarçam de naturais” (PRECIADO, 2014, p.168). O discurso da naturalidade diferencia pessoas entre aquelas adequadas e as inadequadas. Confrontando as violências, Nomi é interpretada por uma atriz também transgênero (algo raro mesmo hoje quando se trata de representação de pessoas transgênero) e é escrita como uma mulher transgênero lésbica plena de agência e não objetificada. Em Sense8 é permitido que esses personagens não sejam mortos e suas histórias não são pautadas pelo drama da violência, como em tantas narrativas hegemônicas.

Não deixa de ser interessante, nesse sentido, que a obra de maior sucesso das irmãs seja também a mais conservadora quando se trata de gênero e sexualidade: Matrix (1999). O filme se estabeleceu no cânone do cinema com seu uso inovador de efeitos especiais e sua mistura pop de referências que vão mangás até aspectos de religiosidade. Uma das protagonistas é Trinity (Carrie-Ann Moss), apresentada como uma hacker habilidosa e que tem domínio sobre o universo apresentado. Mas a narrativa é centrada na história de um homem branco salvador, Neo (Keanu Reeves) que descobre ser O Escolhido. Embora ela não se resuma a uma donzela em perigo, vê-se superada pelo novato que acabou de chegar em poder e habilidade. Não por acaso se cunhou o termo “Síndrome de Trinity”, que pode ser definida quando uma personagem é uma “mulher extremamente capaz que nunca se tornou tão independente, significativa e excitante como ela é em sua cena introdutória” (ROBINSON, 2014, tradução minha), apenas para depois ser superada em suas habilidades por seu co-protagonista. Mas não só isso: não há nenhum personagem retratado como abertamente LGBT e os relacionamentos são entendidos de forma heteronormativa e heterossexista, sendo que o “Heterossexismo é a pressuposição de que todos são, ou deveria ser, heterossexuais” (MISKOLCI, 2013, p. 46). 

É possível fazer uma leitura queer de Matrix, quando tomamos que a própria realidade fabricada pela Matriz é o falso mundo que rodeiam as pessoas, criando vidas normativas e estruturadas, com figuras de poder brancas e masculinas, onde minorias, sejam elas étnico-raciais ou sexuais estariam de certa forma excluídas. Por isso é significativo que o Oráculo seja uma senhora negra. Mas essa é uma leitura que pode forçar elementos de interpretação não necessariamente diegéticos.

Em A Viagem (Cloud Atlas, 2012), as Wachowski propõem outra forma de representar raça-etnia, em que elas deixam de ter importância em um contexto de espiritualidade permeado pela possibilidade de reencarnação. Já no seriado, essas representações foram inseridas, à princípio, perigosamente no limiar do caricato. Com exceção dos personagens estadunidenses, estereótipos vinculados às suas origens foram usados em sua composição. Em grande parte, esses estereótipos foram lidados de forma melhor e mesmo subvertidos na segunda temporada. Mas no geral fica a sensação de que não há o mesmo cuidado em relação a raça-etnia do que aquele conferido às temáticas de gênero e de sexualidade.

Por isso é notável perceber a construção dos personagens presentes em Sense8 quando se trata desses aspectos. Ainda que a bissexualidade passe por um gritante apagamento, a própria noção de ser lésbica, gay ou heterossexual é, no limite, borrada, pois tratam-se de corpos que desconhecem as barreiras em sua conexão. Com sua diversidade também sexual e a possibilidade de conexão profunda entre todos, vieram as cenas de sexo sentidas em coletivo que permitiram efetivamente, especialmente no episódio final, a criação de imagens que retratam uma sexualidade fluida, livre, flertando com a possibilidade de pansexualidade deles, ou pelo menos de alguns deles. O corpo não se encerra em si mesmo: conectivo e conectado, expande seus próprios limites.

“Sempre choro em casamentos” foi o que dois personagens do seriado falaram em uma das últimas cenas do episódio final. Como muitas telenovelas, esse foi o momento de incluir a celebração. Mas em Sense8 não há uma busca por mostrar a tradição. Na série, o que é tradicional pode ser ressignificado ou mesmo adquirir novas configurações. Por um lado, o casamento é “Uma instituição que foi definida através de tais exclusões e que tem sido aplicada como um sistema de aliança de classe, de pureza racial, de sanção religiosa, deveria certamente ser desmontada ao invés de expandida” (HALBERSTAM, 2012, p. 162, tradução minha). Por outro, as Wachowski possibilitam que o amor de Kala por seu marido Rajan (Purab Kohli) e seu amante Wolfgang seja uma possibilidade, ficando a promessa de um relacionamento poliamoroso subentendida. E ainda que trabalhando dentro de estruturas convencionais, mostram a relação entre Nomi e Amanita, uma mulher branca transgênero e uma mulher negra cisgênero, como algo possível e digno de ser celebrado, novamente algo raro no cinema e televisão contemporâneos. Os personagens são apresentados como corpos que existem, resistem e tem direito ao amor, independentemente de sua identidade de gênero, orientação sexual ou raça-etnia e por isso são situados pelas Wachowski no espectro da adequabilidade.

Quando se relaciona Matrix e A Viagem percebe-se a recorrência da espiritualidade quase panteísta como tema para Lilly e Lana. Em Sense8, para além das particularidades de cada personagem, a pessoa que assiste os vê envoltos em uma espécie de conexão universal. E é quando as famosas cenas de sexo já citadas alcançam um significado muito maior. O desfecho é concebido para quem assisti-lo entender que na verdade o que se vê são corpos conectados, para além do sexo, em uma compreensão mútua que expande os universos individuais. É a máxima expressão das crenças das diretoras.

O seriado está longe de ser perfeito. Como em outros trabalhos de Lilly e Lana Wachowski, às vezes parece que são ideias demais e não há mídia que vá dar conta de tudo. Mas é, afinal, um seriado imersivo, político e diverso, com uma qualidade criativa única. Em um discurso proferido durante um prêmio que recebeu no GLAAD (Gays & Lesbians Alliance Against Defamation– Aliança de Gays & Lésbicas Contra Difamação, em tradução livre), Lana afirmou que “cada um de nós, cada pessoa aqui, cada vida humana apresenta uma negociação entre identidade pública e privada”. Ainda no mesmo discurso afirma que gostaria que “este mundo que imaginamos nesta sala possa ser usado para obter acesso a outras salas, a outros mundos antes inimagináveis” (WACHOWSKI, 2012, tradução minha). São as negociações em torno das identidades públicas e privadas, conforme falado, que tornam possível a fusão entre a trajetória pessoal das diretoras e sua arte, tensionando a realidade ao seu redor e possibilitando o mundo de Sense8, que, por meio dos personagens e suas histórias, apresenta discussões relevantes sobre identidade, gênero, corpo e subjetividade, antes inimagináveis em uma produção televisiva seriada de grande escala. O corpo, fluído, construído, conectado, sexual e autônomo, é posto dentro e fora da narrativa, entrelaçando realidades e diegeses.

Referências:

HALBERSTAM, Jack J. Gaga Feminism. Boston: Beacon Press, 2012.

MALUF, Sonia Weidner. Corporalidade e desejo: Tudo sobre minha mãe e o gênero na margem. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 143-153. 2002.

PRECIADO, Paul. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.

ROBINSON, Tasha. We’re losing all our Strong Female Characters to Trinity Syndrome. The Dissolve, jun. 2014. Disponível em: https://thedissolve.com/features/exposition/618-were-losing-all-our-strong-female-characters-to-tr/. Acesso em: 04/06/2018.

WACHOWSKI, Lana. Speech. In: HOLLYWOOD Reporter, The. Lana Wachowski’s HRC Visibility Award Acceptance Speech (Transcript). Disponível em: https://www.hollywoodreporter.com/news/lana-wachowskis-hrc-visibility-award-382177. Acesso em 04/07/2018.

WACHOWSKI, Lilly. Letter. In: BAIM, Tracy. Second Wachowski filmmaker sibling comes out as trans. Windy City Times, mar. 2016. Disponível em: http://www.windycitymediagroup.com/lgbt/Second-Wachowski-filmmaker-sibling-comes-out-as-trans-/54509.html. Acesso em: 04/06/2018.

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