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[44ª Mostra de São Paulo] Dias


Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 22 de outubro e 4 de novembro em formato online

Apenas dois personagens e poucas ações: assim se desdobra Days (Rizi, 2020), escrito e dirigido por Ming-liang Tsai. Kang (Kang-sheng Lee) mora em uma casa espaçosa e confortável, com grandes panos de vidro. Non (Anong Houngheuangsy) mora em um pequeno apartamento que mais parece uma garagem, com janelas cobertas por lençol.

As ações mais cotidianas são retratadas por meio de planos longos, com a câmera parada e distante dos dois protagonistas. Kang observa a a chuva cair, sentado. A imagem é levemente azulada em virtude da iluminação que vem do exterior. Non, por sua vez, lava diligentemente verduras em bacias com água postas no chão, para depois picá-las e preparar sua comida em um fogareiro de brasa. Kang tem uma vida cômoda, rodeado de cuidados, mas lida com a dor em seu pescoço e os tratamentos dela. Non dorme em um colchonete no mesmo cômodo despido de confortos em que cozinha, .

O filme não tem legendas e a quase total falta de diálogo parece tornar a história mais íntima. Os gestos rotineiros poderiam ter sido captados em qualquer dia daqueles personagens, porque muito provavelmente eles se repetem, sempre iguais. E os dois são igualmente marcados pela solidão e isolamento.

É então que Kang e Non se encontram num quarto de hotel. Kang nu e deitado na cama, recebe uma massagem de Non. A sequência de vinte minutos explora o encontro dos corpos, a comunicação silenciosa, as possibilidade táteis. A dor, o prazer, o tratamento e o sexo se conjugam Ao final, uma caixinha de música é o compartilhamento de um momento de ternura.

É interessante como o filme parece espelhar o tipo de retrato da banalidade repetitiva da vida que Jeanne Dielman, de Chantal Akerman, propõe com maestria. A rotina e o padrão das atividades cotidianas são aquilo que o cinema não costuma mostrar. Mas o filme da cineasta belga buscava escancarar de forma radical a invisibilidade do trabalho que geralmente é generificado. Todo tipo de trabalho, no caso, da cozinha à prostituição. As tarefas de Jeanne são apresentadas sem distinção moral entre elas, com o mesmo distanciamento da câmera e algumas, ainda fora de campo. Todas elas são esperadas das boas esposas e mães de família: acontece que geralmente o sexo não é remunerado. E comparando personagens, Jeanne não teria como pagar alguém para servi-la, de forma alguma, como Kang.

Mas se o comentário de Jeanne Dielman é (de maneira simplificada) sobre a exploração da mão de obra feminina, retratando a personagem gradualmente se libertando, no filme taiwanês não tem nenhuma catarse violenta. Jeanne não não tinha a vantagem do afeto: pelo contrário, o único vínculo é a transação financeira. Sem a hierarquia de gênero, embora ainda com uma de classe e de idade presente, existe uma conexão entre os dois homens. Kang e Non se enxergam como igualmente humanos, mas nem sempre as mulheres são entendidas como tal.

O ritmo do filme, na forma como aborda cada atividade sem pressa, e ausência de tensão na narrativa, podem ser frustrantes. Mas há uma certa poesia na composição dos planos longos, sem pressa de se encerrar, que se valeriam muito mais da exibição na telona. Dias é bonito na simplicidade com que executa uma ideia complexa (ou seria o contrário)?

Nota: 3 de 5 estrelas

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