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[79º Festival de Cannes] Breves Comentários – Parte Dois

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio

The Man I Love | Ira Sachs

Presente na competição da 79ª edição do Festival de Cannes, The Man I Love, dirigido por Ira Sachs, produção franco-estadunidense, nos contextualiza na Nova York do final da década de 1980 e acompanha Jimmy George (Rami Malek), um ator e performer que tenta continuar trabalhando, criando, e vivendo imprudentemente, na medida do possível, enquanto lida com o avanço do HIV e a iminência de sua  morte. Ao seu lado está Dennis (Tom Sturridge), companheiro que dedica sua rotina a cuidar dele.

Apesar de Rami Malek – que, para mim, é o maior problema da obra – Sachs constrói um tocante retrato nostálgico de um tempo, passando muito longe de idealizá-lo. A atmosfera da década é facilmente absorvida, especialmente através da ótima trilha sonora, e da ideia do apego à arte como forma de sustento emocional, mas o diretor sabiamente recusa-se a romantizar a nostalgia, em razão da crescente melancolia provocada pela progressão da doença. 

Malek, entretanto, parece absolutamente deslocado desse universo. Sua atuação e exibicionismo chamam atenção para si o tempo todo. Mesmo nos momentos mais cotidianos e banais, como o ato de dormir ou despertar, ele performa de maneira excessiva, como se estivesse em um registro diverso do habitado pelos demais atores. Falta naturalismo num filme que clama por ele, e essa inadequação acaba ocupando um espaço grande dentro do filme, e sequer seu ofício como artista justifica essa dissonância de tom.

Há de se reconhecer, porém, que The Man I Love é genuinamente comovente em muitos momentos. Se o filme me cortou o coração abruptamente, não foi por Malek, mas por Tom Sturridge, que concilia, no silêncio e na discrição, sutileza, exaustão, amor e tristeza, sem precisar de muito para mostrar-nos um homem visivelmente devastado.

Notre Salut (A Man of His Time) | Emmanuel Marre  

Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro na 79ª edição do Festival de Cannes, Notre Salut (A Man of His Time), de Emmanuel Marre, é mais um exemplar franco-belga da seleção e também outro filme sobre um homem branco atravessando os dilemas morais da Segunda Guerra Mundial. Inspirado em cartas trocadas pelos próprios tataravôs do diretor durante a ocupação nazista na França, o longa acompanha Henri Marre (Swann Arlaud), cuja vida está em ruínas: financeiramente falido, com o casamento em crise e sem perspectivas concretas de futuro, ele passa a enxergar na colaboração com o sistema que oprime seu país uma possível forma de recuperar algum controle sobre sua existência.

O que impede o filme de se tornar ainda mais cansativo é justamente a maneira como Marre o encena. Em diversos momentos, o diretor adota uma câmera de aparência documental e uma iluminação frontal bastante direta que, ao mesmo tempo em que expõe o protagonista, como se o despisse para o nosso julgamento, também o aproxima do espectador.

Todavia, é difícil ignorar a sensação de déjà-vu. Já vimos muitos filmes semelhantes sobre homens comuns confrontados com escolhas morais em contextos autoritários e, embora Notre Salut se destaque por sua forma, não encontra uma perspectiva particularmente singular para se diferenciar dentro dessa tradição. É um filme competente, mas com o qual me parece bastante difícil estabelecer uma conexão mais profunda.

Congo Boy | Rafiki Fariala 

Vencedor do prêmio de Melhor Interpretação Masculina na mostra Un Certain Regard do 79ª Festival de Cannes, Congo Boy, de Rafiki Fariala, um dos poucos filmes africanos desta edição, acompanha Robert (Bradley Fiomona Dembeasset), um jovem refugiado congolês de 17 anos que vive em Bangui, capital da República Centro-Africana, e sonha em seguir carreira na música. Enquanto a guerra civil devasta o país, seus pais estão presos, e ele se vê obrigado a cuidar sozinho dos irmãos mais novos, equilibrando a escola, pequenos trabalhos, a sobrevivência cotidiana e o desejo de cantar.

O sonho, aliás, é elemento crucial de Congo Boy. O filme se passa em um contexto no qual a ameaça soa ininterrupta. Há milícias armadas em espaços de lazer, revistas policiais sendo realizadas até mesmo em crianças pequenas, falta comida, falta energia elétrica, faltam perspectivas. Fariala, porém, evita transformar essa realidade em espetáculo de sofrimento ao se apegar, justamente, no direito de sonhar. Ainda que a dor esteja em toda parte, Congo Boy encontra espaço para a graça, o humor e a leveza através da resiliência como única alternativa. Em muitos momentos, o diretor contrasta a hostilidade política constante com pequenos respiros, como, por exemplo, ao trazer crianças brincando enquanto tiros ecoam ao fundo e trovões que se confundem com disparos.

Ao acessarmos os pensamentos do protagonista, compreendemos que seus objetivos parecem simples, mas sua concretização parece quase impossível naquele contexto: reunir novamente a família, libertar os pais, ter o que comer, comprar uma televisão para assistir filmes ao lado daqueles que ama. Em um país onde intermináveis conflitos controlam liberdades e limitam possibilidades, sonhar é um ato de resistência de Robert.

Assim como o sonho, a música surge central porque possibilitadora do seu alcance e signo de esperança. O concurso promovido pela UNICEF, no qual Robert assume orgulhosamente a identidade de Congo Boy, mostra-se uma oportunidade concreta de ascensão e afirmação de pertencimento diante do preconceito enfrentado pelos refugiados congoleses. 

Congo Boy é, de fato, um deleite. O filme explicita a violência que cerca os personagens como força moduladora de suas vidas, mas não limita suas existências ao contexto político. Afinal, como o próprio filme sugere, ali, congoleses sempre serão vistos como refugiados, e portanto, dificilmente encontrarão pertencimento – ainda assim, seguem exercendo, entretanto e apesar de tudo, o direito de sonhar.

Kokurojo: The Samurai and the Prisoner | Kiyoshi Kurosawa  

Exibido na seção Cannes Première da 79ª edição do Festival de Cannes, o muito aguardado Kokurojo: The Samurai and the Prisoner, de Kiyoshi Kurosawa, adapta o romance histórico de Honobu Yonezawa para nos transportar ao Japão de 1578, durante o período Sengoku. Somos introduzidos e acompanhamos Araki Murashige (Masahiro Motoki), senhor feudal acusado de traição contra seu aliado, Oda Nobunaga, que se refugia no Castelo de Arioka em razão de um cerco militar. Quando uma sucessão de crimes e acontecimentos inquietantes desestabilizam a fortaleza, ele se vê obrigado a recorrer justamente ao homem preso em suas masmorras: Kuroda Kanbei (Masaki Suda), um dos melhores estrategistas de Oda. O que começa como uma traição, torna-se uma investigação e transforma-se, gradualmente, em um estudo sobre guerra, honra, punição e redenção. 

Em que pese trate-se de um filme de samurais, Kurosawa se distancia do heroísmo tradicional do gênero, sem, entretanto, fugir de seu formalismo. Kokurojo: The Samurai and the Prisoner é rigorosamente construído pelo distanciamento emocional que contrasta com a violência latente. Os espaços fechados do castelo e a proximidade das masmorras traduzem uma atmosfera sufocante, ao passo que a fotografia esverdeada e a iluminação muito pontual nas cenas internas evocam um mundo lento e letárgico.

Estruturado em capítulos associados às estações do ano, o filme se desenvolve como uma investigação tanto moral quanto policial. Testemunhamos depoimentos contraditórios, suspeitas e inseguranças, e reconstituições de acontecimentos expressas em longas sequências, nas quais os personagens simulam os fatos na tentativa de compreender o crime. O objetivo de busca pelo assassino é substituído pelas questões éticas levantadas pelo próprio contexto. O que fazer diante de uma criança pronta para morrer em nome da honra? Quando a punição é necessária e quando ela se torna apenas mais uma manifestação da violência? O que significa demonstrar misericórdia em uma sociedade que interpreta a compaixão como fraqueza?

O gênero é inequivocamente bem aproveitado pelo diretor através de um evidente virtuosismo estético e na atenção dedicada aos gestos, aos procedimentos e aos rituais. Cada palavra é acompanhada de uma ação cuidadosamente calculada. Quando a violência explode, especialmente nas sequências noturnas de batalha, é imageticamente satisfatório que Kurosawa aposte em efeitos práticos para construir imagens de impacto.

Em Kokurojo: The Samurai and the Prisoner, a pergunta que fica é: por que matar? Em uma sociedade fundamentada pela honra e pela guerra, a sobrevivência pode ser interpretada como fraqueza, a punição é uma obrigação e a morte, um dever. O que está sob investigação, no fim das contas, é a incapacidade de escapatória da própria lógica da guerra, bem como seus samurais, figuras que não existem para salvar ninguém, mas estão, sim, exaustas e moralmente desgastadas.

Victorian Psycho | Zachary Wigon 

Estreando na mostra Un Certain Regard, Victorian Psycho, dirigido por Zachary Wigon, é uma produção britânico-irlandesa ambientada, justamente, na Inglaterra vitoriana de 1858. A protagonista Winifred Notty (Maika Monroe) é uma governanta recém-contratada para educar e ensinar boas maneiras às crianças da família Pounds. No início do longa, Winifred diz para a câmera, sob um sorriso irônico e sombrio, ser a pessoa mais sã que conhece. À medida em que funcionários da propriedade começam a desaparecer, a estranheza da governanta amadurece para dar lugar a evidentes indícios de uma psicopatia disposta a tomar o lugar de seus senhores.

Dotado do típico – e delicioso – humor britânico, e no presente caso, ainda mais irônico com pitadas de morbidez, Victorian Psycho é estruturado em capítulos, e é um convite para o espectador a habitar a mente de sua protagonista. Winifred é uma figura perturbadora e fascinante, que oscila entre a loucura, a ambição e o desejo obsessivo e macabro por pertencimento. 

Wigon contrasta a relação entre classe social e violência, já que Winifred encarna uma empregada que deseja tornar-se membro da família que serve. Nesse mundo inacessível para ela, rígido e fechado, organizado por hierarquias, etiquetas e sensos duvidosos de moralidade, sua presença não se limita à psicopatia, mas se torna uma ameaça, principalmente, à ordem estabelecida. 

Contando com Ruth Wilson, Thomasin McKenzie e Jason Isaacs no elenco, estrelas que exageram saborosamente nas performances e nos sotaques carregados, colaborando para a consolidação de uma atmosfera um tanto alucinada, Victorian Psycho é muito mais acidamente bem humorado do que sombrio, assumindo-se uma sátira sobre poder, classe e ascensão social, em que a luta pela inversão das forças entre patrões e empregados assume contornos tão violentos quanto divertidos. 

La Bola Negra | Javier Ambrossi, Javier Calvo 

Se há um filme nessa edição do Festival de Cannes que me trouxe tremendo impacto logo em seus trinta primeiros minutos, certamente essa obra é o espanhol La Bola Negra. Vencedor do prêmio de Melhor Direção para Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos também como Los Javis, conecta as histórias de três homens gays, perpassando diferentes tempos da história espanhola: 1932, a Guerra Civil em 1937 e os dias atuais. Baseados e inspirados nos textos inacabados do poeta e dramaturgo Federico García Lorca e na peça La Piedra Oscura, os diretores instigam, nesse entrelace, uma abordagem multidimensional sobre a herança, entre cicatrizes, lutas e conquistas, que a experiência queer deixa de uma geração para outra. 

Quando faço referência ao início do longa, no contexto da Guerra Civil Espanhola, há um choque de harmonia que se estabelece ante a presença italiana que remete ao apoio fornecido pelo regime fascista de Mussolini às tropas de Franco à época. Um repentino ataque aéreo destrói uma rotina simples de pessoas ordinárias, que observamos até com ternura no preparo de uma festa. Esse cenário político insere, certamente, a narrativa em um sentido mais amplo, onde a ascensão do fascismo europeu que precede a Segunda Guerra Mundial também faz aumentar a perseguição a dissidentes políticos e sexuais. 

La Bola Negra transita entre esses três tempos através da literatura, e portanto, da arte como elo geracional e de busca por pertencimento e afirmação, mas também do medo e do vínculo familiar. A própria “bola negra” que dá título ao filme remete a um termo historicamente relacionado à rejeição e à exclusão social, aqui inserido por Los Javis como essa cicatriz e como trauma herdados por pessoas LGBTQIA + após décadas de perseguição, invisibilidade e impossibilidade de viver livremente o desejo. 

Contando com um elenco grandioso que inclui Penélope Cruz, numa encantadora participação, e Glenn Close, La Bola Negra agradou genuinamente e não por acaso, saiu de Cannes como um dos títulos mais celebrados da edição, transformando o legado queer em memória, arte e identidade numa obra emocionalmente avassaladora, que, muito embora enraizada na história espanhola, alcança a universalidade da luta LGBTQIA+ em qualquer lugar do mundo. 

Histoires de La Nuit (The Birthday Party) | Léa Mysius 

Um dos poucos filmes dirigidos por mulheres presentes na competição do 79º Festival de Cannes (e mais uma produção franco-belga), Histoires de La Nuit (The Birthday Party), dirigido por Léa Mysius, constrói um thriller ambientado numa incômoda tranquilidade rural, uma espécie de fazenda isolada onde duas famílias compartilham seus lares. A primeira é composta por Nora (Hafsia Herzi), Thomas (Bastien Bouillon) e a filha pequena do casal, Ida (Tawba El Gharchi). A segunda é unipessoal, constituída por Cristina (Monica Bellucci), uma pintora italiana, e seu belo cachorro. Ao passo que se aproxima o aniversário de Nora e o marido organiza para ela uma festa surpresa que mobiliza todos os moradores daquele espaço, três homens desconhecidos se infiltram na celebração, trazendo junto deles segredos passados que fazem da aniversariante uma figura desconhecida para sua família. 

A diretora instiga o mistério, mas ao custo de tomar decisões narrativas um tanto duvidosas, que soam desorganizadas e despropositadas na trama. Nessa festa desconfortável que tornam crescentes as tensões familiares, perpassam-se memórias sombrias e modificam-se personalidades tão somente para que permaneça um desfecho impactante. A filha do casal, principalmente, é a maior vítima dessa oscilação. A uma, porque o aparecimento desses três homens está a ela conectado em razão de um vídeo familiar que ela faz viralizar na internet. A duas, porque, na visão da diretora, a história pretérita rebelde da mãe de algum modo precisa reverberar na filha, que começa a agir com insubordinação justamente em meio à situações de violência que não condizem com seu comportamento. 

Quando pensamos que o thriller dramático tomará rumos para soluções mais subversivas, especialmente no sentido de permitir que as mulheres inseridas naquela situação encontrem saídas possíveis, Mysius opta por caminhos muito menos interessantes apenas em prol de um choque derradeiro, subaproveitando, inclusive, a presença tão forte de Monica Bellucci. De fato, Histoires de La Nuit entretém e sustenta sua atmosfera de tensão com eficiência, mas termina deixando a sensação de que suas melhores ideias permaneceram apenas como promessas. 

L’Inconnue (The Unknown) | Arthur Harari 

O que aconteceria se a pessoa por quem você é obcecado se tornasse você? É dessa premissa que parte L’Inconnue (The Unknown), novo filme de Arthur Harari (co-roteirista de Anatomia de Uma Queda), exibido na competição da 79ª edição do Festival de Cannes. Nesse contexto, conhecemos o estranho David Zimmerman (Niels Schneider), um fotógrafo prestes a completar quarenta anos cuja existência parece irrelevante, inclusive, até para ele próprio. Tudo muda quando, numa festa, ele se vê fascinado por uma mulher desconhecida, que avista na multidão e decide segui-la. Depois de relacionar-se sexualmente com ela, David desperta em uma situação inexplicável: encontra-se aprisionado no corpo da mulher. 

A partir desse acontecimento fantástico, Harari oferta uma obra que usa da conexão sexual para discutir identidade e desejo, transformando um encontro fugaz em uma investigação sobre aquilo que somos e sobre aquilo que imaginamos encontrar nos outros, refletindo indiretamente, outrossim, o aprisionamento e marginalização de corpos trans em gêneros que não lhe pertencem. Para abordá-lo, o diretor aposta numa atmosfera melancólica e assumidamente depressiva, onde os personagens percorrem o longa tentando encontrar-se em meio a espaços e pessoas que não mais conhecem. Entretanto, a estranheza que decorre do modo como essas relações ocorrem gera uma dúvida incômoda a respeito de consentimento e de uma aparente romantização da toxicidade obsessiva.

Eva (Léa Seydoux) é a mulher desconhecida com quem Zimmerman realiza essa troca, mas surge ainda uma terceira personagem, uma jovem mulher, que amplia ainda mais a sensação de inquietação. Em que pese o filme seja eficaz quando incorpora uma atmosfera alucinógena e eufórica associada ao uso de psicotrópicos, são poucos os momentos em que esse caráter perturbador realmente encontra seu lugar na narrativa. Ao final, fica a impressão de que o protagonista masculino apenas projeta e realiza seus próprios fetiches e fantasias nas mulheres com quem se relaciona para, de algum modo, transformar-se nelas, já que as intensas relações sexuais que compartilham parecem produzir prazer exclusivamente para ele – e essa é uma percepção que torna a experiência fílmica como um todo bastante indigesta.

The Station | Sara Ishaq

Em um país devastado pela guerra e pela divisão política, um posto de gasolina exclusivo para mulheres soa um conceito quase utópico. É justamente desse espaço que parte The Station (Al Mahattah), longa da diretora iemenita Sara Ishaq, exibido na Semana da Crítica da 79ª edição do Festival de Cannes. Layal (Manal Al-Maliki) administra esse refúgio clandestino feminino em meio ao conflito que atravessa o Iêmen. A harmonia dos negócios é confrontada quando seu irmão mais novo, de apenas 12 anos, corre o risco de ser recrutado para a guerra. Tal risco leva-a a reencontrar a irmã de quem se afastou, na tentativa de salvar a única vida que ali, para elas, talvez importe mais, e que interessa tanto ao exército local.

O olhar da guerra, em The Station, é o feminino e o infantil – e nesse segundo, um olhar infantil masculino que é influenciado pelo desejo da violência. Em vez dos campos de batalha, Sara Ishaq se volta às mulheres que tentam seguir em frente e sustentar alguma normalidade em meio ao colapso. O posto de gasolina, que também é um espaço de venda e troca de outras mercadorias, é um lugar seguro onde as mulheres encontram apoio mútuo, sororidade, resiliência, solidariedade e sobrevivência.

Ao situar uma narrativa familiar nesse cenário desolador, The Station traz a infiltração da guerra e das divergências políticas nas relações afetivas, equilibrando a força feminina decorrente dessas reuniões no estabelecimento de Layal com o iminente risco externo trazido por um conflito que destrói vidas desde suas juventudes.

Shana | Lila Pinell 

É possível, no cinema, abordar um relacionamento tóxico com leveza e bom humor que não o romantiza? O longa francês Shana, de Lila Pinell, exibido na Quinzena dos Cineastas da 79ª edição do Festival de Cannes, mostra que sim. A protagonista que dá nome ao título é uma jovem explosiva, marginalizada em sua própria família sanguínea, e que encontra nas amizades sua família por escolha, e no namorado preso, seu primeiro amor, um confinamento do qual ela não consegue se livrar. 

Lila Pinell insere elementos religiosos e pragas bíblicas aos infortúnios e ondas de azar que a protagonista vai vivenciado, o que torna seus dramas progressivamente cômicos. Quando sua avó falece e lhe deixa de herança um anel supostamente valioso, Shana vê sua rotina se tornar ainda mais turbulenta com o retorno do ex-companheiro tóxico, recém-saído da prisão. A diretora articula bem elementos de comédia, drama e crenças para refletir sobre vulnerabilidade feminina, relações abusivas difíceis de se desvencilhar e os mecanismos para seguir adiante quando tudo parece dar errado. Sem abrir mão do humor, Shana não esvazia a seriedade dos temas que propõe, encontrando um equilíbrio eficiente entre o exagero e a precariedade da marginalização.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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