Cinema,  Críticas e indicações,  Filmes

[Tribeca 2026] Funk, de Aly Muritiba

Este texto faz parte da cobertura do Tribeca Film Festival 2026, que ocorre em ocorre em Nova York de 3 a 14 de junho.

Funk, novo filme de Aly Muritiba, abre com a batida vibrante do ritmo vindo das favelas cariocas. Antes mesmo de conhecermos a protagonista, ouvimos a música e vemos o quanto ela envolve as pessoas. Assim que Sabrina (Duda Santos) desce do mototáxi que pediu, atrasada, para o baile, a acompanhamos em direção ao palco e ali entendemos que ela é MC Sabrina, uma cantora de funk proibidão que divide a vida entre os versos que compõe e canta e o sonho de ser uma artista famosa.

É até curioso que o filme tenha esse título e não algo que remeta à jornada da jovem, uma garota batalhadora que não abre mão de viver seus desejos, sejam eles carnais ou profissionais. A ambientação desse “nasce uma estrela” com gosto de vida real carrega uma promessa que o filme não consegue sustentar por completo, não fosse o magnetismo de Duda Santos em sua interpretação.

A sensação que fica é a de que o filme julga a personagem demais e não consegue se debruçar sobre os sentimentos dela. A relação com a mãe (MC Nem), por exemplo, é abandonada pelo filme e depois volta de repente, com direito a uma resolução fácil demais no final. Essa desconexão se vê em outros momentos da trama, como, por exemplo, as duas cenas que mostram a truculência policial com pessoas pretas – e aqui tem uma cena de agressão que parece gratuita demais, quase que como se o filme quisesse dizer “ah, é, isso acontece”.

É tudo episódico demais em uma narrativa que precisa, ironicamente, de ritmo. Em vários momentos, a câmera parece espelhar os olhares dos homens brancos que cooptam a carreira de Sabrina quando ela desce o morro e ascende financeiramente. O problema é que o filme parece não perceber que faz isso mesmo em cenas ambientadas em lugares onde a personagem se sente confortável o suficiente para ser quem é.

Um dos meus filmes favoritos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado foi Massa Funkeira, documentário de Ana Rieper que revela o potencial das histórias que existem por trás dos microfones e das picapes de funk. Talvez ele ainda esteja fresco demais na minha memória para que eu consiga ignorar a sensação de que falta algo que me cative dessa forma em Funk.

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *