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[50ª Mostra de São Paulo] Aurora (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927)

Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.


Aurora, dirigido por F. W. Murnau, recebeu sessões especiais durante Mostra de São Paulo. Com uma nova restauração em 4K realizada pela San Francisco Film Preserve em parceria com o British Film Institute, a Cinémathèque Royale de Belgique, o Eye Filmmuseum, o Museum of Modern Art, o Národní Filmový Archiv, de Praga, e o George Eastman Museum, a projeção foi acompanhada por música ao vivo executada pela Orquestra Brasil Jazz Sinfônica. A sessão que eu presenciei foi no sábado, véspera da eleição. Antes da sessão começar, a telona também exibia os patrocinadores e lia-se “realização: Ministério da Cultura”. Impossível não lembrar que durante o governo de Bolsonaro-pai o Ministério da Cultura deixou de existir, a Mostra de São Paulo perdeu patrocínios e eventos como esse (e outros) não aconteceriam.

Mas poder rever um filme desses na no cinema com acompanhamento musical ao vivo foi realmente um privilégio. Ainda mais em se tratando de uma obra em que a canção está literalmente no título, um filme que funciona tão perfeitamente no seu ritmo. Melodramático, ele é uma espécie de alegoria universal sobre o poder de corrupção da cidade. Não a toa, as personagens não têm nomes, são creditadas apenas como O Homem (George O’Brien), sujeito às escolhas falhas e a Mulher (Janet Gaynor), sempre devotada. Ambos a princípio estavam apaixonados em seu idílio campestre com sua criança rechonchuda. Até que A Mulher da Cidade (Margaret Livingston) chega. Ela é uma figura que encarna o desejo e vai como que possuir o espírito dO Homem.

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A sedução dela é representada de maneira primorosa por dupla exposição, com seus braços se projetando em pensamento sobre o tronco dele, perturbado pela ideia da traição. Essa possessão se manifesta fisicamente, fazendo com que ele ande cada vez mais curvado e seu rosto fique cada vez mais sombrio, com olheiras mais marcadas. A Mulher da Cidade é o chamariz para outro lugar e chega mesmo a lhe dizer que mate sua esposa e que deixe aquele lugar para trás.

Quando o intento falha A Mulher, magoada, chega à Cidade Grande, O Homem tenta buscar seu perdão. Eles começam a aproveitar tudo que há de bom no lugar e que nunca puderam desfrutar: os parques, os salões, a fotografia, o baile, e ainda que por veze sejam olhados como curiosidades como figuras campestres, são bem tratados como jovens, belos e amantes. A festa dura a noite toda. Os efeitos visuais são esmerados: em certo momento apaixonados, olham um para o outro e andam andam pelas ruas sem que nenhum carro encoste neles, mas tudo é uma projeção de fundo.

A aurora quase traz o desastre, mas, por fim, traz a reafirmação do amor dO Homem e da Mulher. Toda a direção de arte é deslumbrante e Janet Gaynor é comovente em sua entrega, prejudicada talvez por sua peruca que deve ser o único ponto fraco do filme todo. Não à toa foi premiada com o primeiro Oscar de melhor atriz da história por esse filme, bem como por Sétimo Céu e O Anjo das Ruas (já que nessa época era pelo conjunto da obra do ano, não por um filme específico). O filme também levou os prêmios de melhor fotografia e melhor filme.

Murnau trabalha na lógica da dicotomia da mãe e da prostituta, mas essa lógica é tão alegórica, de um sentido tão primordial, que você não consegue se apegar nos arquétipos. O mesmo ocorre na violência dO Homem, um personagem que em outro contexto seria terrível, mas aqui não representa uma pessoa, mas um significado de retorno ao campo. Uma ideia um tanto simplória até, mas que casa com o discurso bastante direto do filme: a cidade corrompe: você pode aproveitá-la por pouco tempo, mas lembre de voltar para onde pertence. Dessa forma, Aurora não é tanto um filme para ser analisado por sua trama, mas como uma experiência audiovisual intensa, com efeitos visuais instigantes que servem à uma alegoria sensível em atuações dramáticas sensíveis.

Projeto para discutir, criticar e divulgar os trabalhos de mulheres no cinema.

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