[50ª Mostra de São Paulo]Ray Gunn (2026)
Esse texto faz parte da cobertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 15 e 29 de outubro de 2026.
Dirigido e roteirizado por Brad Bird, Ray Gunn (e produzido pelo assediador John Lasseter) Ray Gunn é uma animação que nos faz esquecer que estamos assistindo a uma animação. Com uma estética neo-noir futurista levemente derivativa, que você já viu em Blade Runner e todos os filmes que o homenageiam, ainda assim o visual é bonito com seus elemento art decó que referenciam as décadas de 1930. E na lógica da homenagem que o filme propõe, o protagonista é um detetive particular, que dá nome ao título, com voz de Sam Rockwell. Seu assistente é um alienígena caolho simpático, Olhívio Kadok (Tom Waits), capaz de fotografar como seu único olho, feito útil na área profissional.
Nesse universo, espelhando os Estados Unidos segregados dos anos 30 e 40 (e depois), os alienígenas (aliens, literalmente estrangeiros em inglês), são tratados com desconfiança e xenofobia. Trata-se de mais um filme de que usa de metáforas para tratar do racismo. Ray e Olhívio vivem se enfiando em trabalhos complicados e que resultam em pouco ou nenhum pagamento, ao ponto em que estão perdendo até mesmo os móveis de seu escritório. Até que se envolvem nos problemas profissionais e pessoais da estrela pop Venus Nova (Scarlett Johansson). Só não estranhe que as músicas são contemporâneas demais para o tempo retrô. A não ser quando ela quer ser “ela mesma”, porque a trama usa aquela ideia de que toda diva pop não é quem ela quer ser, como em Nasce Uma Estrela (2018).
O filme ganha, sem dúvida, na direção de arte. Por mais que você já tenha visto Blade Runner (1982), O Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988), O Quinto Elemento (1997), Relíquia Macabra (1941) e outras referências visuais facilmente perceptíveis, a escala da cenografia é impactante, e a familiaridade dos personagens encanta nos detalhes, desde um simples Ray(mond Chandler), autor dos livros que deram origem aos clássicos noir À Beira do Abismo (1946) e Relíquia Macabra, até a um personagem falando “play it again, Sam” em certo momento, como no filme Casablanca (1942). Nada que impacte significativamente a história, mas trata-se uma simples piscadinha para a plateia que agrada quem está assistindo.
Existe um certo acovardamento na forma como se trata o racismo e o dispositivo é basicamente o mesmo que de Guerreiras do K-Pop (2025): o discurso de aceitação do outro é amplificado quando esse outro é basicamente igual a qualquer outra pessoa humana, bonita, jovem, magra, apenas com a diferença de ter cabelos roxos. Isso facilita, inclusive, a narrativa romântica. Não há nenhum exercício imaginativo de criação de oito braços, corpos quadrados, cabeças octogonais, três olhos, tubos ao invés de bocas, ou qualquer coisa que pudesse realmente causar aversão, apenas para fazer um exercício de imaginação aqui. Enquanto isso Olhívio continua causando medo com suas pernas de aranha e seu único olho.
A manipulação da mídia, a máfia, a imagem midiática, a aceitação por meio do sucesso, o tráfico, todos são alguns tópicos abordados na narrativa. E o design dos personagens, claro, não poderia deixar de incluir elementos noir reconhecíveis como o sobretudo, as ombreiras, o cabelo longo partido de lado, os conjuntos de paetê com com barriga de fora e fenda, as calças femininas largas de cintura alta, enfim, num trabalho esmerado de composição.
Dito isso, em toda essa mistura de elementos, o filme diverte e enche os olhos. É gostoso ver o desenrolar da narrativa, ainda que com alguns tropeços e limitações, mas preenchido com esmero visual e um amor pela própria história do cinema. Ray Gunn sem dúvida vai agradar quem gosta de cinema e quer ainda mais (bom e bonito) cinema.


