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[49ª Mostra de São Paulo] Cigarras
Esse texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. Imagino que, assim como eu, você também esteja lidando ou já teve que lidar com o envelhecimento dos seus pais. Ver o tempo passar nos rostos e corpos deles, e, aos poucos, se tornar um pouco mãe ou pai de quem te criou. Em Cigarras (Zikaden, 2025), a diretora e roteirista Ina Weiss tira o chão de sua protagonista, que vê tudo o que achava certo em sua vida escorrer pelos dedos. Essa demolição emocional na vida de Isabell (Nina Hoss), uma arquiteta que costuma ter tudo…
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[49ª Mostra de São Paulo] Dolores
Esse texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. O tema do vício em jogos de azar e a destruição que eles causam nas famílias ecoa em Dolores (2025). A produção conclui a trilogia iniciada por Ausência (2007) e A Casa de Alice (2014), ambos do cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019. O filme é dirigido pela dupla Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar como um tributo a Teixeira, um dos roteiristas. Em Dolores, acompanhamos quatro mulheres cujos laços são revelados com o desenrolar da trama, bem como os ressentimentos que carregam entre si. Defendida pela…
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[49ª Mostra de São Paulo] Atropia
Esse texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. Há mais de 25 anos, os Red Hot Chili Peppers já diziam que “o espaço pode ser a fronteira final, mas é construído em um porão de Hollywood”. Se você é jovem demais ou não fez a associação, me refiro a um verso da música Californication, do disco homônimo lançado em 1999 pelo quarteto. A canção tocou incansavelmente na MTV com um clipe (dirigido por Valerie Faris e Jonathan Dayton) que simulava um jogo de videogame. Esse comentário ácido sobre todos os sonhos que podem ser fabricados…
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[49ª Mostra de São Paulo] Sugar Cane Alley
Este texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. Há uma vivacidade na forma como a diretora martinicana Euzhan Palcy coloca em paralelo os elementos da natureza e a jornada de amadurecimento do protagonista de Sugar Cane Alley (Rue Cases-Nègres, 1983). Pelos olhos de uma criança, ela dá a seus personagens o direito básico de sonhar e, mais que isso, realiza desejos que são negados por uma socidade cuja segregação não mudou com o fim da escravidão. O filme é um coming of age que lida com racismo, colonialismo, resistência e senso de comunidade em uma…
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[49ª Mostra de São Paulo] Nada a Fazer
Este texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. “Um teatro a salvar. Só o teatro para nos salvar.” Legado talvez seja a palavra-chave para o novo documentário de Leandra Leal, Nada a Fazer (2025). Assim como em seu primeiro filme, Divinas Divas (2016), a diretora parte de algo profundamente pessoal. Se em Divinas… o Teatro Rival era o ponto de partida para que ela contasse as histórias de quem subiu naquele palco, agora o negócio de família aparece em risco durante a pandemia de Covid-19 e em meio à desvalorização da cultura no governo Bolsonaro.…
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[49ª Mostra de São Paulo] Satisfação
Este texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. Satisfação (2025) é um filme sobre os silêncios e a falta de cor na vida de quem vive um relacionamento abusivo. A diretora e roteirista Alex Burunova transforma a divisão do mundo antes e depois de um evento traumático em um punhado de contradições visuais. A Grécia alegre e vibrante que conhecemos é, aqui, uma prisão para a protagonista, Lola (Emma Laird), uma musicista promissora que abandona o ofício para viver em uma quietude sufocante. O mundo continua acontecendo do lado de fora, mas ela se vê…
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[49ª Mostra de São Paulo] O Lendário Martin Scorsese (Mr. Scorsese, 2025)
Este texto faz parte da cobertura da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 16 e 30 de outubro. O título de O Lendário Martin Scorsese (Mr. Scorsese, 2025) fala por si só. A diretora Rebecca Miller costura uma biografia linear do cineasta em uma conversa entre as obras dele e os depoimentos de amigos de infância, familiares, colegas, colaboradores e, claro, do próprio biografado. Cada episódio é dedicado a uma década de sua vida e produção, com exceção do último, que tenta condensar tudo o que tivemos de Marty no século XXI. Miller faz perguntas precisas e não demora a deixar as respostas dos entrevistados…
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Entrevista | Grace Van Patten e o desafio de dar nova voz a Amanda Knox
Não sou exatamente fã de true crime. Talvez por ter feito ronda policial durante alguns anos, no meu tempo de redação, ou talvez por ter sido uma criança traumatizada pelo Linha Direta, meu interesse por histórias de crimes reais é bastante pontual. Para ser sincera, quando decido investir tempo em algum conteúdo desse filão, é quase sempre pela maneira como ele aborda a cobertura midiática — ou por alguma conexão pessoal com o caso retratado, seja geográfica (como em Bandidos na TV, da Netflix), seja do imaginário ou profissional. Nos tempos do podcast Feito por Elas, por exemplo, participei de um episódio sobre a docussérie Pacto Brutal, que fala do…
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“Meu avô foi meu primeiro ator”: diretor Leonardo Lacca fala sobre o documentário Seu Cavalcanti (2025)
Uma década separa Seu Cavalcanti (2025), novo trabalho de Leonardo Lacca, de seu longa anterior, Permanência (2015). Nesse intervalo, o diretor pernambucano se dedicou a curtas-metragens e manteve a bem-sucedida parceria com Kleber Mendonça Filho, iniciada em O Som ao Redor (2012), onde atuou como preparador de elenco. O peso desse tempo é sentido em Seu Cavalcanti, um documentário com toques de ficção que reúne imagens captadas ao longo de 14 anos do avô do realizador. No filme, o protagonista é um idoso nonagenário apegado ao seu Fiat Uno, orgulhoso da neta que se forma em Direito e, por muito tempo, a única figura paterna de quem o filma. Brincando…
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Magic Farm (2025)
Já falei o quanto me fascina ver o vazio millennial representado no cinema. Não porque me sinto em posição de superioridade, mas pelo espelho que essas histórias colocam. É bom esbarrar na própria mediocridade, né? Esse foi um tema que comentei na crítica de On a String, filme de Isabel Hagen que passou no Festival de Tribeca. Agora, com o lançamento recente de Magic Farm, da diretora e roteirista argentina Amalia Ulman, esse tema surge novamente, mas em uma lente mais absurda e colorida. A exposição dos millennials (liderados por uma it girl da geração Z que é vivida pela pessoa que melhor carrega este título, Chloe Sevigny) estadunidenses que…