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Duas Rainhas

Apesar do duplo protagonismo prometido e cumprido pelo título nacional, Duas Rainhas (2018), primeiro longa da diretora Josie Rourke, foca na história de Mary Stuart (Saoirse Ronan) e sua rivalidade com a prima Elizabeth I (Margot Robbie), rainha da Inglaterra. Além disso se preocupa com questões de representatividade, incluindo atores e atrizes com diversas etnias e ascendências no casting.

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Ainda que o roteiro tenha sido escrito por dois homens, Beau Willimon e John Guy (autor do livro “Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart”), o filme representa duas mulheres muito fortes e poderosas em cena (passando com sucesso no Teste de Bechdel). Na primeira parte, temos o prazer de ver cenas de homens se curvando a mulher, mesmo que por circunstâncias históricas, de hierarquia, não por um respeito genuíno e não sem lembrar da corrente linguagem extremamente misógina da época, como o personagem que diz: “maldição: mulher com coroa”.

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A película bem escura condizente com a iluminação restrita da época ganha mérito ainda pras cenas em que o sangue da menstruação aparece, humanizando a rainha e valorizando algo natural feminino tão usualmente encoberto por inúmeros tabus. A outra rainha se humaniza mais quando contraiu varíola e a consequente desfiguração de seu rosto, um choque para sua Malévola que se compara à jovem Branca de Neve.

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A rainha escocesa tinha a curiosidade de “casar para saber como é ter um homem completamente, não como propriedade” e é uma tristeza necessária ver como tal desejo matrimonial se desfaz diante da frieza das relações humanas. Vamos de “vida longa a rainha” a “morte à prostituta”! Vamos do flerte queer e do orgasmo feminino proporcionado por um pseudo altruísmo (momentos raros no cinema mainstream) ao estupro e ao crime de homofobia, dissolvendo toda a esperança contra a crueldade humana e mostrando que todo o poder das minorias se esvai diante de homens brancos. O encanto se desfaz, pois não se pode confiar em ninguém com tantos interesses pelo trono em jogo…

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A produção constrói o silencioso paralelo entre um animal que deu a luz e a rainha inglesa que simula uma barriga impossível para si, enquanto no casamento real da outra um herdeiro vale mais que amor. Também se contrapõe com classe o quadro de rosas vermelhas confeccionado pela perfeccionista Elizabeth e o sangue do parto de Mary, ambas na mesma posição diante das criações.

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A completa aceitação e pacacidade pela benevolente jovem rainha não é muito verossímil, mas todo longa de ficção é passível de romantizar os fatos e apresentar incongruências históricas, e mesmo seguindo um formato padrão para o gênero, tem um figurino incrível e consegue fazer soar naturalmente frases clichê como “um minuto não faz um homem” e “apenas com o sofrimento conhecemos a alegria”. Destaque para a atuação de Margot quando ela tira a peruca e se torna frágil e despida da intencionalidade de apresentar sua melhor versão para a concorrente. No aguardado encontro, com expectativa prolongada magistralmente por um jogo com véus, as “irmãs” discutem hierarquia, morte e solidão. Ainda guardei essa frase dita por uma delas para usar em algum momento durante a primavera: “Vamos marcar um encontro antes que o verão traga desconforto”.

icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50icons8-estrela-de-natal-50 Ps: Passa também no Selo Faustina, pois há pelo menos dois cães! S2

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