Entrevista | Kate Hudson, de Song Sung Blue
Biografias musicais costumam ser inspiradoras, especialmente aquelas que tratam de astros e estrelas de que somos fãs e que nos inspiram, trazendo canções que marcaram época. Mas Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, dirigido por Craig Brewer, conta uma história um pouco diferente daquela que estamos acostumados: embora as músicas sejam famosas, o casal de protagonistas vividos por Kate Hudson e Hugh Jackman é dupla de artistas de cover. Adaptado de um documentário com o mesmo o nome, o filme conta a história de Mike e Claire Sardina ou Thunder e Lightning, respectivamente, que na vida real se conheceram tentando a vida e buscando o sucesso com suas respectivas apresentações e se uniram em um tributo a Neil Diamond.
No dia 3 de dezembro de 2025 pude participar de uma entrevista coletiva com Kate Hudson a respeito do filme. Com uma carreira perpassada por filmes com músicas marcantes e um disco recém lançado, é inevitável que música seja um tema presente na conversa, mas não resiste em puxar uma perguntar diferente para começar. O resultado da conversa você confere abaixo.
Isabel: Antes de tudo, o filme tem tantos figurinos incríveis do Ernesto Martinez, tantos paetês maravilhosos. E eu queria saber, como isso te ajudou a criar sua personagem e qual foi o teu figurino favorito?
Kate Hudson: Incrível! Eu continuo dizendo que minha coisa favorita nisso tudo foi que… a experiência inicial foi cantar com o Hugh, e depois ir para a minha primeira prova de figurino, porque a prova foi tipo… eu nunca tinha visto nada igual, tinha tanto paetê! Tinha tipo todas aquelas peles falsas por toda parte, chapéus de cowboy e bijuterias. Quer dizer, era tipo meu deus, vai ser tão difícil encontrar algo que eu não quisesse usar, mas tínhamos 51 figurinos. Então foram muitas provas de figurino, mas naquela primeira prova nós experimentamos várias coisas diferentes, e aí encontramos aquele colete branco com estrelas, e quando eu o vesti, é o que eu uso quando estamos no encontro. E eu e o Ernesto vestimos a roupa e pensamos: “Nossa, isso é… parecia a cara da Claire”. Era quase como se ela tivesse costurado as estrelas, parecia feito à mão, e quando você veste, parece que é o jeito dela de se vestir. Então, a roupa influenciou muito, e eu diria que meu figurino favorito foi o vestido de noiva. Nós o encontramos. O Ernesto encontrou duas ou três opções diferentes, mas vestimos aquele primeiro porque nós dois estávamos completamente apaixonados por ele. E aí colocamos o chapéu de cowboy, e eu pensei: “Como não amar esse vestido de noiva?”. Não tinha jeito. Acho que esse foi meu favorito.
Pergunta: Sua carreira inclui musicais, mas com Claire, parece que você alcançou um espaço onde atuação e música se entrelaçam de uma forma completamente nova. Como você vivenciou a oportunidade de explorar sua voz e sua identidade musical de uma maneira mais intencional e profissional?
Kate: Ah, eu adoro essa pergunta. Acho que, honestamente, fazer meu álbum, que começou há uns 4 anos, foi o primeiro passo para Claire. Quer dizer, no sentido de entender o que é não conseguir viver sem coragem, sem nunca se apropriar da própria voz, sabe? É como quando Claire diz: “Eu desapareço na música, e eu preciso. Eu nunca deveria ter deixado ninguém tirar isso de mim”. Eu realmente entendo como é essa sensação, mesmo que seja uma circunstância diferente. E eu… acho que definir-se como músico é algo que está em constante mudança, e acho que qualquer músico diria isso. Tipo, você quer se reinventar. Você não quer sempre fazer o mesmo álbum, não quer sempre fazer o mesmo filme, não quer sempre. E neste filme, para encontrar a voz da Claire. Sim, acho que encontrar a voz da Claire foi uma mistura entre honrar o que a Claire representava para o Mike, que era realmente o apoio dele, e harmonizar, e tudo se resumia a enaltecê-lo e fazê-lo parecer o melhor possível, apoiá-lo e amá-lo loucamente. E então trabalhar com o Craig para dizer, ok, onde continuamos? E elevar a música, e fazer disso algo que, quando você ouve, realmente te faz vibrar. E então foi uma verdadeira colaboração, e Hugh… nós fomos primeiro ao estúdio. Acho que essa foi uma das melhores coisas que fizemos, porque nos permitiu conectar de uma forma diferente do que provavelmente faríamos se tivéssemos começado filmando imediatamente, porque quando você está gravando, você tem que cometer tantos erros horríveis. Eocê tem que tentar acertar as notas e encontrar notas que soam horríveis, e você tem que ser capaz de rir de si mesmo. Então nós tivemos essa… meio que quebrou o gelo para nós. E então encontramos nosso ritmo juntos, e o encontramos na música, que é realmente o que acabou acontecendo no filme. E foi ótimo fazer isso.
Pergunta: É interessante que o filme se concentre nas conexões amorosas e não no lado sombrio dos personagens e sua atuação demonstra uma grande extensão emocional. Quais aspectos da personagem mais a desafiaram e como você se preparou para retratar essa vulnerabilidade na tela?
Kate: Primeiramente, obrigada por dizer isso. É uma das minhas coisas favoritas neste filme também, e acho que Craig fez um trabalho incrível com isso, e é muito difícil fazer isso. Para mim, pessoalmente, acho que as coisas mais desafiadoras são provavelmente as coisas que acompanham o que você está falando, que é uma linha tênue, sabe. Acho que foi me comprometer, honestamente, me comprometer com a essência completa da Claire. Eu estava um pouco preocupada que talvez eles quisessem recuar um pouco, de me comprometer totalmente com isso, e… Craig disse algo como: “Não, nós vamos com tudo, você vai se comprometer totalmente com isso”. E isso me deixou muito animada, porque me permitiu ter muito mais liberdade para me dedicar ao máximo àquela transformação. E então acho que as coisas mais desafiadoras para mim foram naqueles momentos de rastreamento da escuridão, da decadência, meio que rastreando isso. E a sutileza de ir da decadência para o reencontro, a recalibração. A fisicalidade não era necessariamente difícil de interpretar. Era a parte mental junto com a fisicalidade, então foi realmente mais o rastreamento disso com o Craig, a construção e o ajuste dos níveis enquanto filmávamos. Foi aí que você começa a levar seu trabalho realmente a sério. Porque eu acho interessante como isso se torna importante quando você interpreta alguém que é uma pessoa real, porque você só quer acertar por eles. Mas acho que essa foi provavelmente a parte mais desafiadora, aquela parte central do filme, sabe, o quão profundamente nós vamos. Tem uma cena de briga provavelmente deve ter sido a cena mais difícil para o Craig montar. Tem tipo, provavelmente 10 cortes diferentes. Não sei ao certo, mas acho que ele conseguiu criar 10 camadas diferentes daquela briga que fizemos, e foi um daqueles dias que eu nunca vou esquecer, sabe? Porque eu e o Hugh… Foi um daqueles ótimos dias de trabalho em que você pensa: nós realmente fizemos algo diferente e em um momento, depois da luta, nós simplesmente ficamos sentados lá por 20 minutos e choramos. E é esse tipo de coisa, eu sei que soa estranho, mas é por isso que você vive como ator, sabe?
Pergunta: Há 25 anos você fez Quase Famosos e agora biografias musicais são um sucesso enorme. Sempre uma nova conexão entre música e histórias. O que você faria, novamente, com outras cinebiografias conectadas à música de uma forma tão profunda?
Kate: Sim, eu tenho uma teoria sobre isso, porque nossos grandes heróis da música… Estamos ficando mais velhos e eu acho que quando você começa a refletir sobre sua vida como artista, você pensa em Bob [Dylan] e Bruce [Springsteen], eu vou… Bob Dylan, quando você começa a refletir sobre eles, como pessoas que se foram, certo? E que tiveram um impacto tão grande, você realmente, como uma experiência visual e cinematográfica, você quer entrar nisso. Você quer voltar e vivenciar isso. E eu acho isso incrível. Acho maravilhoso que essas pessoas, ainda vivas, permitam que suas histórias sejam contadas. Mas, para mim, pessoalmente, quando eu era pequena, La Bamba… Eu me lembro de La Bamba e de pensar nossa, eu quero estar nesse filme, eu quero ser a Donna. Filmes sobre música e filmes que… a linguagem visual do cinema, da música e da moda, é como se… você precisa de tudo isso. O único problema é que filmes musicais são muito difíceis de fazer bem, e eu acho que os diretores que fazem os melhores são aqueles que têm a música dentro de si. Eles têm a alma de um músico. E Cameron Crowe viveu essa vida. Ele a conhece muito bem. Craig Brewer é de Memphis, um cara da música, Mangold, um cara da música, né? Então, eu acho que as pessoas que realmente sabem como nos proporcionar essa experiência são pessoas que vivem e respiram música, e que conseguem criar e encontrar a linguagem visual perfeita para isso. Então, enquanto continuarmos tendo esses grandes cineastas que conseguem nos dar algo assim, espero que continuemos fazendo filmes assim. Espero que sempre façamos filmes assim, sabe? Lembro de ter visto All That Jazz pela primeira vez quando era menina, e pensei aquele filme me impressionou, o do [Bob] Fosse, sabe. Era ousado, incisivo e impactante. Esses eram os filmes que sempre me inspiraram a querer fazer tudo isso. Espero que continuemos fazendo filmes assim. Espero que ninguém tenha medo de fazê-los. Espero que este filme faça muito sucesso para que mais filmes como este sejam feitos. Porque acho que precisamos deles, pessoalmente. Eu sei que eu preciso.
Son Sung Blue: Um Sonho a Dois estreia no Brasil em 29 de janeiro.
Agradeço à Universal pela oportunidade de entrevista, realizada em ambiente virtual e editada visando melhor clareza.



