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Infinite Icon: Uma Memória Visual (Infinite Icon: A Visual Memoir, 2026)

Se você está no grupo do Feito por Elas no Telegram, provavelmente sabe que eu adoro, digamos, fornecer informações sobre gente famosa, a ponto de ter uma figurinha que diz “longe de mim relacionar Camila com fofoca” (obrigada, Vincent). A bem da verdade, sou fascinada com fenômenos midiáticos e como eles podem ser respostas ao que o mundo passa no momento. Há, no mínimo, umas cinco ideias frustradas de TCCs que nunca aconteceram, e que hoje moram escondidas na minha cabeça.

Alguns fenômenos eu nunca entendi bem, mesmo sendo contemporânea a eles. Como uma millennial nascida no fim dos anos 1980, eu vivi os mundos sem e com internet e, basicamente, estava lá no nascimento de cada rede social (saudades, comunidades do Orkut). Quando Paris Hilton ficou famosa, no início dos anos 2000, eu era uma adolescente tentando ser cronicamente online (e digo tentando, porque sou do tempo da internet discada) e meio sem coragem de sustentar o que eu gostava. Assim que descobri a Avril Lavigne, não era de bom tom gostar também de Britney Spears e Sandy e Junior. Escondia que ouvia KLB e que até tinha ido no show (eu rasguei a foto que tirei com eles e joguei no lixo!). Como eu era besta, pelo amor.

Com o tempo, aprendi a vestir meus guilty pleasures com orgulho, e, sinceramente, nem acredito mais nesse termo. Talvez seja o fato de que a internet hoje é povoada por gente que abraça tudo o que foge do conceito de cool sem vergonha de ser feliz. Então, sim, no meu repertório cabem todos os livros e filmes cabeçudos que eu amo, mas também encaixo com orgulho A Fazenda 6, Rodrigo Apresentador, o filme Spice World, Gretchen, o grupo S Club 7, novelas mexicanas, o streaming gratuito do SBT, a fase country da Taylor Swift e tudo o que eu escutava escondida na adolescência com medo de descobrirem que eu não era tão ~roqueira descoladah~ assim.

Mas divago. Foco, Camila. Essa volta toda é para falar que, há sim, fenômenos que, por mais que não me atravessem a ponto de eu ser fã ou de ter acompanhado avidamente na época em que estouraram, merecem ser vistos com uma lupa porque, de fato, são frutos de um zeitgeist. Um deles é justamente Paris Hilton, a herdeira que aparecia dia sim, dia sim, nos tabloides e que, em dado momento, resolveu ser cantora.

No documentário Infinite Icon: Uma Memória Visual, que entrou em cartaz em alguns cinemas, a diretora JJ Duncan e o diretor Bruce Robertson ajudam Paris em sua cruzada pelo controle da narrativa da própria vida. Em tempos de redes sociais como o Instagram, X e TikTok, isso é mais possível do que na época em que os tabloides ditavam os rótulos que eram colocados, principalmente em mulheres.

O doc roda como um grande promo do novo álbum de Paris, e isso não seria um problema se ele não fosse tão confuso visualmente. Para um filme que quer mostrar quem é ela, terminamos sem saber tanto assim. A todo tempo, ela fala que sua paixão de verdade era a música, mas o máximo que o filme faz para provar isso é com alguns segundos de vídeos caseiros da pequena Paris cantando e tocando piano e momentos depois, em uma reunião com Sia (que, além de cantora, é compositora de alguns dos maiores sucessos das divas pop no século 21). Esse encontro entre as duas para falar sobre a música que a dona do hitChandelier” compôs sobre ter TDAH rende ao público, ao menos, uma performance completa dessa música inacreditável, que parece mais ter saído de um filme sobre um artista pop fictício.

Os momentos de bastidores, aliás, são apenas para emoldurar o que o filme realmente quer vender, que é Paris como uma artista pop. O primeiro show da carreira dela é a estrela do filme, que coloca as apresentações na íntegra. Não demora muito para entender a dinâmica: bastidores + algo sobre a vida de Paris nos anos 2000 + duas músicas no show, e assim vai até o final.

No pouco tempo que sobra para além do registro do show, há espaço para uma reflexão de Paris sobre a forma como foi tratada pela mídia e, principalmente, como já era uma garota quebrada emocional e fisicamente quando ficou famosa. Aqui, ela fala dos abusos que sofreu quando adolescente em um internato e de como tomou coragem para tornar isso público no documentário This Is Paris (2020), de Alexandra Dean. Também reflete sobre a visão reducionista que a mídia teve dela após um ex-namorado tornar público um vídeo íntimo dos dois.

É meio inevitável não relacionar isso com Britney Spears, até porque as duas apareciam muito juntas em meados dos anos 2000, e em todas as mulheres que foram vilanizadas pelos tabloides e no quão jovens elas eram. Nesse sentido, dá para entender melhor como Paris se refugiou na música – uma de suas canções favoritas, Free, de Ultra Naté, ganha uma nova versão que pontua o quão livre ela se sentia quando estava dentro de uma boate, sem que os paparazzi pudessem entrar.

Ainda assim, os pontos de reflexão no filme são isolados. Para uma obra que quer mostrar a paixão de Paris pela música e o quanto aquele show seria importante para ela, pouco sabemos sobre o processo criativo (e você pode até dizer que ela é uma artista pré-fabricada e que não há interesse em saber desse tipo de coisa, e eu respondo que é aí mesmo que eu quero saber).

Infinite Icon é anunciado pela própria Paris como uma memória visual e, como as memórias visuais, há uma confusão estética. No fim das contas, é um grande videoclipe, intercalando lyric videos, a apresentação em cima do palco, uma animação para recontar o momento mais difícil da vida de Paris, as já citadas imagens caseiras – que não são tantas, porque um incêndio destrói o trailer onde estavam as fotos que ela havia separado para mostrar no doc (mas tudo bem, gente, isso é superado em 5 segundos no filme, porque o privilégio tem dessas coisas, né).

Nessa confusão visual (que até dialoga com a estética y2k, sejamos sinceras), o filme até tenta fazer a gente olhar além do privilégio e da redoma, mas nunca desacelera o suficiente para permitir que a gente faça isso. Para o bem ou para o mal, Paris não se leva a sério, e isso a torna meio fascinante nos meus olhos que ainda guardam um TCC sobre esses fenômenos engolidos pelo pensamento de uma época. Admito que nunca vi muita graça na vida que ela simbolizava, mas conhecia umas duas músicas, como “Stars Are Blind”, que ganhou novo fôlego depois de aparecer no primeiro filme de Emerald Fennell, Bela Vingança (2020). Por mais qualquer nota que Infinite Icon: Uma Memória Visual seja, eu terminei cantando “Stars Are Blind” na sala de casa? Com certeza.

Infinite Icon: Uma Memória Visual é distribuído pela Sato Company e está em cartaz nos cinemas.

nota: 2 estrelas de 5

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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