Críticas e indicações,  Livros

Livros escritos por mulheres no vestibular

Foi publicada na Folha uma matéria informando que a partir do vestibular realizado em 2025, para definir os ingressantes de 2026, o vestibular da USP (Fuvest) terá uma lista para a prova de literatura composta apenas por livros escritos por mulheres. Entre as escritoras escolhidas há nomes como Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Conceição Evaristo. E também há alguns nomes menos conhecidos do público, e eu, particularmente, não conhecia as autoras do século XIX.

Mas essa é a graça de uma proposta como essa, não é? Você incorpora autoras validadas e reconhecidas, e que mesmo assim figuram pouco em um vestibular (inclusive por questões subjetivas de gênero e raça que passam pela elaboração de uma lista dessas. Mas você também questiona o cânone, trazendo pros holofotes nomes que (provavelmente pelas mesmas questões já apontadas) deveriam ter mais reconhecimento.

É claro que no Instagram, na postagem com a imagem acima, o choro é enorme. Pessoas falam sobre o descaso com a história da literatura, sobre ideologizar o vestibular, sobre lacração. Porque a gente saber que colocar uma mulher em algum lugar de relevância histórica é “lacração”, imagina uma lista inteira? Agora outros nomes renomados apareceram basicamente questionando se 3 anos sem autores homens no vestibular não vai fazer toda a obra deles ser esquecida e apagada da história da literatura. Já pensou? Nessa lógica, imagina como seria ficar por décadas de fora de uma lista dessas?

Então me peguei tentando puxar de memória a lista de livros que caíram no vestibular da UFSC no ano em que prestei, porque desconfiava que só tinha homens. Felizmente encontrei a lista na internet ainda e bingo! Segue ela abaixo:

Recordações do Escrivão Isaias Caminha, de Lima Barreto
Vidas Secas, de Graciliano Ramos
Esaú e Jacó, de Machado de Assis
Zélica e Outros, de Flávio José Cardozo
Ensaio da Paixão, de Cristovão Tezza
Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros
Poesias Completas, de Cruz e Sousa
O Rei da Vela, de Oswald de Andrade
Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa
Romance Sem Palavras, de Carlos Heitor Cony

Não lembro na época de nenhum textão, carta aberta, ensaio em coluna, abaixo-assinado nem nada do tipo. Dez livros. Os dez escritos por homens. Alguns livros famosos. Alguns livros menos conhecidos de escritores famosos. Outros, ainda, não tão conhecidos. E ainda assim uma lista dessa não causa comoção. Não é acusada de ser ideológica. Porque a norma nunca quer ser marcada. Significativo.

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Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero, sexualidade e cinema e é feminista.

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