Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette (2026)
Se você tem uma conta no Instagram ou no Tik Tok, provavelmente viu, em algum momento das últimas semanas, algum vídeo embalado pela canção It Ain’t Over ‘Til It’s Over, do Lenny Kravitz. Ou viu algum post lembrando das namoradas famosas de John F. Kennedy Jr., o filho de um dos presidentes mais conhecidos da história dos Estados Unidos. Ou viu alguém falando sobre o estilo de Carolyn Bessette, a relações-públicas da Calvin Klein que se casou com JFK Jr. Essa onipresença nas redes sociais vem desde o dia 12 de fevereiro deste ano, quando estreou a série Love Story, do FX, cuja primeira temporada é dedicada ao romance e à eventual tragédia que vitimou JFK Jr. e Carolyn.
Love Story contará em cada temporada uma história de amor famosa. Ela é da “grife Ryan Murphy”, o showrunner responsável por outras séries com o mesmo formato de antologia, como Feud, American Horror Story e American Crime Story. Aqui, ele assina “apenas” a produção executiva. Por mais que alguns veículos estejam culpando ou exaltando Ryan Murphy pelos defeitos ou aspectos positivos da série, o showrunner de Love Story é Connor Hines, que também assina o roteiro de seis dos nove episódios. Já na direção, a série conta com nomes como Gillian Robespierre (do subestimado filme Entre Risos e Lágrimas, de 2014), Crystle Roberson Dorsey, Jesse Peretz, Anthony Hemingway e Max Winkler.
A série joga com o fascínio que o casal exerceu sobre o público. Nos anos 1990, o filho de John Kennedy era o “homem mais cobiçado de Nova Iorque” e a mídia acompanhava sua vida amorosa com especulações de quem seria sua “eleita” como se ele fosse um príncipe herdeiro. Para os Estados Unidos, os Kennedy eram, de fato, o mais próximo de uma Família Real, e todos os passos de John John (como ele era conhecido) eram acompanhados pela mídia estadunidense com o mesmo afã com que, do outro lado do oceano, a princesa Diana era perseguida e tinha toda a sua vida explorada pelos tablóides britânicos. No meio disso tudo, Carolyn surgiu como a “plebeia” que intrigava a mídia sexista, ávida por usar sua discrição como vantagem em relação às ex-namoradas famosas de John John.

Dos nove episódios, Love Story dedica quatro ao jogo de conquista entre Carolyn (Sarah Pidgeon) e John (Paul Anthony Kelly), da primeira vez que se viram até o momento em que, enfim, ficam juntos. A decisão de lançar três episódios e, depois, continuar com um por semana, foi acertada demais, porque apresentou a série no seu melhor – a química entre os atores principais e a ambientação da Nova Iorque dos anos 1990 – e manteve o público aguardando cada quinta-feira (no Brasil, às sexta, que é quando os episódios entravam no Disney+), mesmo sabendo o desfecho trágico da história.
Esses três primeiros episódios lançados de cara foram fundamentais para despertar o interesse no público que não sabia nada sobre a história e para acender a chama da nostalgia de quem lembra das imagens de John John andando de bicicleta por Nova York e de Carolyn com seus looks impecáveis assinados por Yohji Yamamoto e Miuccia Prada. Sou dona de um coração saudoso de uma boa comédia romântica, então a construção do romance entre John e Carolyn me encantou demais. Tinha dez anos quando os dois morreram, então lembro vagamente deles e dos boatos de que ele tinha namorado a Xuxa. Assim como boa parte da internet, fiquei obcecada pela cena de John John entrando no elevador da Calvin Klein após chamar Carolyn para um date, ao som da música de Lenny Kravitz. E, ao mesmo tempo, xinguei a TV quando ele tentou pedir desculpas a ela por não tê-la avisado que tinha uma namorada, a atriz Daryl Hannah (Drew Hemingway). A série virou meu novelão (e digo isso como alguém que ama uma boa novela).
E, como acontece em uma boa novela, é natural que uma narrativa como essa, focada no namoro e no casamento como episódios de uma grande (e breve) história de amor, escolha alguns vilões pelo caminho. Quando conhecemos John John e Carolyn, o holofote poderia se voltar de forma negativa para Hannah, e é completamente justificável que a atriz tenha se sentido ofendida de ser retratada como um personagem em uma história que ninguém sabe exatamente como se desenrolou. Minha leitura sobre “a personagem Daryl Hannah” é que ela é colocada ali para mostrar a imaturidade emocional de John, que a botava em situações desconfortáveis por medo de confrontar a mãe, Jackie Kennedy Onassis (Naomi Watts), essa, sim, retratada de fato como uma antagonista clássica na primeira leva de episódios da série.

Essa imaturidade que John transmite talvez não fosse a ideia inicial do showrunner, mas é evidenciada quando vemos todos os sinais da vida real colocados em cena. Um homem com todos os privilégios possíveis que é incapaz de passar no Exame da Ordem ou que leva à falência projetos como a revista George e que está o tempo todo vivendo uma preparação tácita para um papel “maior”, como se fosse, de fato, um príncipe herdeiro. É lógico que mulheres ao redor dele vão sofrer se não ficarem contentes em simplesmente orbitarem, sorridentes. Para arrematar essa ideia sobre o personagem, acaba funcionando a inexperiência do estreante Paul Anthony Kelly, que é verde demais para as cenas com maior estofo emocional.
Tanto o início do romance entre John e Carolyn quanto os momentos de crise escancaram que o carisma de Kelly não é o suficiente para colocá-lo em pé de igualdade com a atriz que interpreta sua co-protagonista. Sarah Pidgeon é o nome da série, fundamental para que a gente, também, se apaixone por Carolyn e entenda que, naquele casal, ela era, de fato, a estrela, ainda que uma estrela discreta e relutante. Pidgeon brilha já nos momentos iniciais, com uma jogada de cabelo e um andar displicente que viraram meme nas redes sociais – e não de forma pejorativa, e, sim, porque todo mundo voltou a querer ser Carolyn Bessette. Se lá nos anos 1990 essa vontade era pelo estilo da RP da Calvin Klein, a série ajudou a rota a ser recalculada, com muita gente questionando o que faria uma mulher tão interessante e com futuro tão promissor se interessar por um cara que, com tudo na mão, nem sabia direito o que queria fazer com tanto privilégio. A mulher ajudou a descobrir a Kate Moss, sabe.

Esses questionamentos vêm à luz na figura da mãe de Carolyn, Ann Marie, interpretada com muito pulso por Constance Zimmer. Em vários momentos, ela pergunta o que a filha tem a ganhar com esse relacionamento e se o papel público de John (e as ambições políticas que ele teima em dizer que não existem) vai fazer a balança pesar para o lado mais fraco – no caso, a mulher que, sozinha, não tem a rede de proteção do sobrenome Kennedy (ou que, ao contrário de outras esposas que se juntaram à família, tem sonhos distantes demais de Hyannis Port).
Quando o pior acontece, os medos de Ann Marie se tornam realidade e a série pontua essa disparidade na percepção pública que, inclusive, fez de Lauren Bessette (Sydney Lemon), irmã de Carolyn que também morreu no acidente, uma mera nota de rodapé. Se a esposa de John John mal era mencionada ou considerada nas conversas sobre onde ele seria enterrado, imagina Lauren. Em uma cena belíssima que mostra, também, a força da atuação de Grace Gummer, que interpreta Caroline Kennedy, Ann Marie faz justiça a Lauren e a Carolyn e lembra que a tragédia não pertence apenas aos Kennedy. Com a dor de alguém perdeu duas filhas de uma vez em um acidente que poderia ser evitado, ela retoma a narrativa para Carolyn, injustamente acusada pela opinião pública pela tragédia porque o avião demorou para decolar “porque ela se atrasou na manicure”, e não porque o piloto era inexperiente e insistiu em viajar à noite, sem instrutor e com um pé quebrado.

Um dos elementos mais irresistíveis da série vem junto com Carolyn e foi resultado de uma volta de 180 graus da produção após as primeiras imagens dos atores caracterizados receberem críticas do público. A reprodução dos looks mais famosos e do estilo do dia a dia dela ficou a cabo do figurinista Rudy Mance, que conseguiu alguns garimpos em brechós de peças iguais às usadas por Bessette pelas ruas de Nova York nos anos 1990. A jóia da coroa é a reprodução do vestido de noiva, com o mesmo tecido que o usado por Narciso Rodriguez (na série, interpretado por Tonatiuh) na confecção do longo branco que foi basicamente costurado no corpo de Carolyn a minutos da cerimônia (em um momento que, claro, é recriado – ou melhor, imaginado – na série).

Por coincidência, enquanto eu via Love Story, também acompanhei uma docussérie no mesmo Disney+ sobre a Vogue nos anos 1990. O programete nunca mencionou Carolyn, mas tem seu último episódio dedicado à moda estadunidense daquela década, encabeçada por estilistas cujos estilos-chave foram reproduzidos nas vestimentas dela, e isso inclui, claro, Calvin Klein. Em Love Story, ele é um personagem importante na primeira metade da história, e adoro a interpretação do Alessandro Nivola, que faz um homem que a gente entende que carrega muitos segredos e que mantém uma pose que não dá espaço para vulnerabilidade. Mesmo um raro momento em que desmorona, o faz sozinho, na segurança de seu escritório, em uma cena que fecha o arco de Carolyn na companhia e na qual a economia cênica de Nivola se sobressai.
Mais do que o romance, Love Story me pegou mais pela forma como mostrou Carolyn se anulando, pouco a pouco, por conta do assédio da imprensa e pelas expectativas de ser uma Kennedy. Em meio à morte da Princesa Diana, após uma perseguição com paparazzi em Paris, o relacionamento parece que também está se desvanecendo.

A série não se rende às fofocas de que tanto Carolyn quanto John tinham casos extraconjugais, quase que para não macular o que o projeto quer vender (ou alguém consumindo um programa chamado Love Story ia gostar de saber que – supostamente – a última mulher com quem John dormiu não foi Bessette?). E, de certa forma, isso funciona, porque terminamos o último episódio com uma sensação de incompletude, de duas pessoas que não tiveram tempo de viver esse amor sem pressões externas. Quando Ann Marie lamenta que a filha morreu, ela fala a frase que sintetiza a série: “Ela diz que não reconhecia quem tinha se tornado e agora essa imagem é a que foi imortalizada. Eu só queria que ela tivesse vivido o suficiente para ser lembrada por algo mais”.
A dificuldade em colocar na tela episódios que sempre foram fontes de especulação é driblada com criatividade pelo time de roteiristas e de diretores. A gente sabe que, no fim das contas, é tudo uma especulação sobre um relacionamento muito idealizado, mas breve demais e dentro do microscópio cruel da mídia. Mas é importante que o programa termine reforçando que um casal não é formado apenas por uma pessoa – aqui, a mais famosa – e que uma delas não era apenas a “sortuda” que fisgou o solteirão mais cobiçado dos Estados Unidos. Se levar apenas em consideração os personagens e a história apresentada em Love Story, a sorte era do John John de ter conquistado a Carolyn, né?
Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette está disponível para streaming na Disney+




