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[44ª Mostra de São Paulo] 17 Quadras


Dirigido por Davy Rothbart, com roteiro de Jennifer Tiexiera, 17 Quadras (17 Blocks, 2019) é um documentário que acompanha a vida de uma mesma família por vinte anos, começando em 1999 e fazendo uso de mais de mil horas de gravação. Os Sanford moram em Washington, nos Estados Unidos, a dezessete quadras de distância do Capitólio, ou seja, tão próximos dos espaços de poder, e ainda assim tão pouco acolhidos.

Cheryl Sanford é uma mulher que veio da classe média, estudou em escola particular e agora, mãe solo de três filhos, vê suas condições financeiras se deteriorarem. No começo do filme Akil “Smurf” tem 15 anos, Denice tem 11 e Emanuel tem 9. É o caçula da família quem muitas vezes é o responsável por mediar a criação das imagens. Com uma câmera fornecida pela equipe, ele faz os registros e comenta os acontecimentos.

Emanuel, em determinado momento, faz um discurso inteiro sobre como a “droga tira o futuro”, a possibilidade de estudar e de ter um emprego que remunere bem. Cheryl, em contrapartida, comenta que Akil “entrou na vida”. Ela mesma lida com seu vício e diz, culpada, que o expôs a isso. mas que tipo de estrutura social empurra os meninos para o tráfico? Emanuel é apresentado como o futuro daquela família, alguém que tira notas boas e não se envolve em encrencas. Já com 19 anos, noivo de Carmen, representa a figura paterna para Justin, o filho bebê de sua imã, que se tornou mãe solo, além de ter conseguido uma bolsa para fazer faculdade e ter sido aceito no corpo de bombeiros.

É triste que diante de tantas realizações do menino ainda tão jovem, a mãe precise lembrar reiteradamente que ele não fumava, não bebia e não usava drogas, como se assim tivesse um valor maior na sociedade. Se ele praticasse algumas dessas ações, suas conquistas teriam menos significado ou sua vida teria menor valor? O fato é que em se tratando de vidas negras periféricas o escrutínio é uma constante e provavelmente ele teria passado por um julgamento moral se esse fosse o caso. O orgulho e o futuro que se estilhaçam.

Rothbart é um documentarista invisível. Nunca o vemos interagindo com seus interlocutores. O resultado é uma curiosa tentativa de conversa unilateral que funciona quase como um confessionário, ainda que muitas imagens sejam criadas justamente pelos objetos do filme, que se tornam atores-diretores. Mas o que ele consegue captar é o impacto individual, na vida de cada uma dessas pessoas, da violência e da falta de assistência governamental.

A passagem do tempo cobra seu preço e ele é doloroso. Nenhuma mãe deveria precisar lavar o sangue de um filho das paredes. A possibilidade de uma prisão mostra a desproporcionalidade com que as penas são aplicadas sobre esses corpos. Mas a passagem do tempo também traz mudanças. Cada pessoa daquela família está em busca de algo que seja mais que a sobrevivência diária. As crianças que chegam parecem funcionar como um catalisador pela busca de uma vida melhor, por elas.

Em determinado momento no começo do filme, Cheryl diz que queria ter sido artista e depois, de usa alma sensível, ela diz que acredita em esperança: coisas ruins acontecem todo dia, mas ela existe. O filme registra a desassistência e suas consequências, mas também a luta de quem segue adiante e afeto e carinho entre os envolvidos, ressaltando, justamente, a força dessa esperança para cada um. 17 Quadras é como um Boyhood documental que não deu certo, mas ao fracassar aponta os problemas sociais que fazem com que algumas vidas, e sabemos quais, não vinguem como as outras.

Nota: 4 de 5 estrelas

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