[79º Festival de Cannes] Breves Comentários – Parte Um
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio
Once Upon a Time in Harlem | William Greaves, David Greaves
Exibido na Quinzena dos Cineastas da 79ª edição do Festival de Cannes, Once Upon a Time in Harlem é um documentário póstumo de William Greaves, finalizado por seu filho, David Greaves, a partir de materiais filmados na década de 1970. O longa registra um encontro organizado pelo próprio cineasta reunindo alguns dos principais nomes ligados ao Harlem Renaissance, movimento artístico e intelectual negro que floresceu nos Estados Unidos durante as décadas de 1920 e 1930.
Para quem nunca assistiu a Symbiopsychotaxiplasm: Take One (1968), talvez a obra mais emblemática de Greaves, vale lembrar que ele era um cineasta profundamente interessado em experimentar as formas do cinema. Metalinguístico, transformava o próprio processo de realização em matéria fílmica, borrando as fronteiras entre encenação, documentário e bastidor. Em Symbiopsychotaxiplasm, o que começa como um suposto teste de elenco gradualmente se converte em algo muito mais complexo, até o ponto em que o próprio fazer cinematográfico parece estar sendo encenado.
Essa característica também aparece em Once Upon a Time in Harlem. Embora o filme tenha como centro um registro histórico impressionante – afinal, estamos diante de figuras fundamentais da cultura negra estadunidense reunidas em um mesmo espaço -, Greaves aos poucos encontra maneiras de intervir na situação e revelar as divergências e desconfortos desse encontro. O resultado é um documento histórico fabuloso e magnético, mas também um exercício de cinema que se assume caótico, e por isso mesmo, fascinante.


Natal Amargo | Pedro Almodóvar
Candidato a render a Pedro Almodóvar sua primeira Palma de Ouro, Natal Amargo marca um retorno do diretor espanhol a um registro mais próximo de suas obras antigas, especialmente aquelas interessadas em mulheres, dores compartilhadas e nos limites entre vida real e ficção. Somos apresentados ao roteirista Raúl (Leonardo Sbaraglia), que encontra inspiração para sua nova história na trajetória de sua ex-agente, Mónica (Aitana Sánchez-Gijón). Paralelamente, acompanhamos Elsa (Bárbara Lennie), protagonista desse roteiro que, veja só, também está escrevendo.
Há algo de muito bonito na forma como Almodóvar retrata mulheres conectadas pela arte que, cada qual carregando suas próprias feridas, lidam com depressão, enxaquecas, crises de pânico e outras fragilidades. Em vez de serem somente medicadas para suportar a vida, elas descobrem, paulatinamente, que podem encontrar apoio umas nas outras.
De certo modo, Natal Amargo me lembrou Parallel Tales, de Farhadi, por também partir de narrativas que se refletem mutuamente e de personagens transformados pelas histórias que contam. A diferença é que Almodóvar dispensa o suspense e mergulha sem receios em seu território mais seguro: o melodrama.


La Vénus Électrique | Pierre Salvadori
Filme de abertura da 79ª edição do Festival de Cannes, La Vénus Électrique, de Pierre Salvadori, é uma produção franco-belga que acompanha Suzanne (Anaïs Demoustier), uma espécie de artista circense cujo ofício consiste em oferecer o chamado “beijo elétrico do amor” – ela literalmente recebe uma descarga elétrica enquanto beija aqueles dispostos a experimentar o choque amoroso. Quando o pintor Antoine (Pio Marmaï), mergulhado em uma crise criativa decorrente do luto pela morte de sua companheira, Irène (Vimala Pons), confunde Suzanne com uma médium, ela passa a enganá-lo ao incorporar a falecida em troca de algum dinheiro. Tratando-se de uma comédia romântica, o percurso é previsível: o jogo gradualmente se transforma em afeto mútuo, enquanto a mentira se torna cada vez mais difícil de sustentar.
La Vénus Électrique é um exemplar bastante típico de um certo cinema francês morno. O filme aborda os sentimentos e afetos que surgem através da arte, representada pela ilusão circense, pela contação de histórias, pela pintura, pela inspiração e pelas idealizações projetadas sobre as musas. Tudo isso, porém, vai se revelando frágil na medida em que a inspiração inevitavelmente se esgota e as fantasias construídas pelos personagens deixam de se sustentar.
Há momentos divertidos e delicados, mas o filme não provoca muito além de um meio sorriso. Falta-lhe emoção, empatia ou qualquer sentimento mais intenso – em verdade, pouco se sente diante da experiência fílmica. Resta, por fim, a sensação de estar diante de um bonitinho ordinário.


Words of Love | Rudi Rosenberg
Exibido na mostra Un Certain Regard da 79ª edição do Festival de Cannes, Words of Love, de Rudi Rosenberg, é um filme francês bastante democrático sobre abandono parental. A narrativa acompanha Érika (Hafsia Herzi), uma mãe sobrecarregada que cria a filha, Abigaelle (interpretada em diferentes fases pelas atrizes Nour Salam e Ella Bedoucha) sozinha após o afastamento do pai da criança, que nunca a assumiu. A ausência paterna assombra Abigaelle desde a infância, e sua busca por algum tipo de contato com esse homem impulsiona a narrativa, ao lado das dificuldades da rotina e dos conflitos familiares. Rosenberg propõe uma reflexão sobre os impactos emocionais deixados por esse abandono e sobre até que ponto a falta pode obscurecer os afetos que verdadeiramente importam.
A possibilidade de identificação é grande, já que poucos são aqueles que não vivenciaram ou conheceram histórias semelhantes. Afinal, o patriarcado sustenta a ideia de que a felicidade está associada à figura paterna e à família nuclear completa, prejudicando e tornando insuficiente qualquer estrutura que escape desse modelo.
Com crianças simultaneamente adoráveis e rebeldes, cachorros, frustrações cotidianas e dilemas familiares reconhecíveis, Words of Love encontra um caminho bastante acessível para dialogar com o público. É um daqueles filmes fáceis de agradar, apoiado na simplicidade e na familiaridade de suas situações e personagens.


Parallel Tales | Asghar Farhadi
Exibido na competição do 79º Festival de Cannes, Parallel Tales marca o retorno de Farhadi ao cinema europeu em uma produção que reúne França, Bélgica, Itália, Estados Unidos e Arábia Saudita, estrelada por Isabelle Huppert, Vincent Cassel, Virginie Efira, Pierre Niney, Adam Bessa e Catherine Deneuve. O filme grita Hitchcock – quiçá até em excesso.
Huppert interpreta uma escritora que encontra inspiração ao espionar os vizinhos do prédio em frente. Aos poucos, porém, a ficção ultrapassa as barreiras da criação artística e passa a interferir na realidade quando ela contrata um jovem assistente (Bessa) para ajudá-la em sua rotina doméstica. A obsessão dele pela história que ela escreve acaba produzindo consequências concretas na vida daqueles que serviram de matéria-prima para a obra.
Apesar das referências nada sutis – temos aqui um voyeur observando um voyeur que, por sua vez, observa outros personagens – gosto da maneira como Farhadi provoca reflexões sobre a capacidade da arte de influenciar nossos pensamentos e direcioná-los de forma inconsciente. Em Parallel Tales, esse despertar provocado pela arte provoca conflitos e paranoias, enquanto o diretor se diverte confrontando moralismos e masculinidades nesse estudo sobre os limites éticos e humanos entre criação, imaginação e realidade.


John Lennon: The Last Interview | Steven Soderbergh
Com John Lennon: The Last Interview, de Steven Soderbergh, documentário estadunidense exibido fora de competição na 79ª edição do Festival de Cannes, a inteligência artificial parece tentar penetrar discretamente nos grandes festivais de cinema se fazendo passar por linguagem cinematográfica. O filme não é inteiramente construído com IA, como algumas reações iniciais podem sugerir. A entrevista de John Lennon existe em áudio, e o diretor a ilustra por meio de imagens de arquivo dos Beatles, registros pessoais de Lennon e Yoko Ono e, outrossim, imagens geradas por inteligência artificial que dialogam com aquilo que está sendo narrado.
O problema é que, em um festival que inevitavelmente tem discutido o papel da inteligência artificial no cinema contemporâneo, o uso que Soderbergh faz da ferramenta não se mostra sequer interessante o bastante para justificar sua presença. Não provoca curiosidade, tampouco acrescenta alguma leitura inovadora ao material de arquivo. A IA funciona, aqui, sobretudo como preenchimento visual. E, para completar a ironia, o filme termina revelando o apoio da Meta. Uma experiência, de fato, monótona, frustrante e imageticamente repulsiva.


Gentle Monster | Marie Kreutzer
Gentle Monster, mais uma obra europeia da competição da 79ª edição do Festival de Cannes, uma coprodução entre Áustria, Alemanha, França e Suécia dirigida por Marie Kreutzer, é um filme complicado. Estrelado por Léa Seydoux, Catherine Deneuve e Laurence Rupp, nele, acompanhamos uma família aparentemente ordinária cuja estabilidade começa a ruir quando o patriarca é acusado de cometer crimes sexuais contra vulneráveis, obrigando os que o entornam a confrontar e lidar com a coexistência entre afeto, convivência, medo e violência.
O que o brasileiro Manas, de Mariana Brennand, faz com bom senso, sutileza e respeito, ao demonstrar que criminosos podem ser pessoas que habitam nossos lares e, muitas vezes, são queridas por aqueles ao seu redor, aqui a discussão envereda por terrenos extremamente problemáticos. A proposta de Kreutzer é mostrar que uma pessoa pode, simultaneamente, cometer crimes e ser um bom pai, marido ou amigo. A questão é que existe uma linha tênue entre complexificar um personagem e suavizar a gravidade de seus atos. Gentle Monster me parece ultrapassar essa linha, sendo complacente demais com a figura do criminoso.


Sheep in The Box | Hirokazu Kore-eda
Exibido na competição da 79ª edição do Festival de Cannes, o japonês Sheep in the Box, de Hirokazu Kore-eda, retoma uma premissa já bastante conhecida da ficção científica contemporânea: a possibilidade de trazer de volta um ente querido falecido através da tecnologia. No presente caso, esse retorno assume a forma de um robô alimentado por inteligência artificial.
Kore-eda nos apresenta uma família que perdeu o filho pequeno e que, embora inicialmente resistente à tecnologia de rebirth, acaba cedendo diante das dificuldades do luto. Com a chegada desse novo membro robotizado, surgem questionamentos sobre identidade, sentimentos, maternidade, paternidade, abandono e, sobretudo, sobre aquilo que permanece de uma pessoa após sua morte.
Como de costume, o diretor aprecia alongar o drama. Ainda assim, gosto da forma como constrói essa inteligência artificial, tal qual uma presença controversamente atraída pela natureza, curiosa, inocente e aparentemente alheia à maldade humana. Apesar de relativamente óbvia, a aposta em uma estética limpa e serena para um filme sobre tecnologia funciona muito bem e produz imagens de grande beleza.
Sheep in the Box é um filme adorável e sensível, mas acaba prejudicado pela verborragia e pelo excessivo arrastamento de sua narrativa.


Moulin | László Nemes
Presente na competição da 79ª edição do Festival de Cannes, Moulin, mais uma obra franco-belga (e também estadunidense) de László Nemes (O Filho de Saul, Orphan), é um recorte da trajetória de Jean Moulin, um dos principais líderes da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial, concentrando-se em seu período de prisão e nos interrogatórios conduzidos pela Gestapo.
O problema é que o filme custa a acontecer. Após mais de meia hora de projeção, ainda é difícil se situar plenamente na narrativa, enquanto a fotografia excessivamente escura e o ritmo arrastado contribuem mais para o tédio – e para o sono – do que para a suposta tensão que a história parece buscar.
Também não ajuda o fato de Klaus Barbie, oficial da Gestapo interpretado por Lars Eidinger, ser concebido como um vilão nazista bastante convencional e estereotipado. Em um filme que deseja explorar um dos episódios mais dramáticos da história francesa, falta urgência e, principalmente, envolvimento.
Para surpresa, Moulin é uma produção da Disney e da HBO Max.


Garance | Jeanne Herry
Candidato à Palma de Ouro na 79ª edição do Festival de Cannes, o (outro!) filme franco-belga Garance, dirigido por Jeanne Herry, parte de um ponto de vista interessante sobre o alcoolismo, abordando a doença em pessoas jovens e o quanto seus sinais costumam ser normalizados socialmente. Adèle Exarchopoulos interpreta Garance, uma atriz de 36 anos que divide sua rotina entre os ensaios de uma companhia de teatro e as saídas com as amigas para dançar e beber. Aos poucos, porém, percebemos que o álcool passa a ocupar espaços cada vez maiores em sua vida, extrapolando os momentos de lazer e começando a comprometer seu trabalho e suas relações.
Apesar da temática delicada, Herry constrói um filme leve, divertido e gentilmente humano com sua protagonista. Há um cuidado em não reduzir Garance à doença, mas compreendê-la em suas tentativas de seguir em frente e no seu medo da própria identidade para além do álcool. Graças ao ótimo trabalho de Exarchopoulos, não é difícil desenvolver empatia por sua personagem.
Garance é um filme simpático e sensível, ainda que, ao final, também se revele um tanto esquecível.


Hope | Na Hong-jin
Representante sul-coreano na competição da 79ª edição do Festival de Cannes, Hope, de Na Hong-jin, talvez seja um dos filmes mais surpreendentes da seleção, ainda que menos do que o imaginado. A narrativa acompanha uma pequena cidade que passa a ser aterrorizada por uma presença misteriosa responsável por uma série de episódios de destruição. Durante boa parte do filme, acompanhamos uma força policial formada por poucos homens tentando localizar essa ameaça sem jamais compreendê-la totalmente. Vemos os rastros do caos, mas não aquilo que o provoca.
Há algo de bastante provocativo nessa estrutura. Hope não tem exatamente a aparência de um filme de competição de Cannes e, em diversos momentos, parece funcionar como uma grande sátira a certas produções hollywoodianas de monstros, invasões ou catástrofes. O problema é que Na Hong-jin alonga demais esse jogo. A primeira hora, centrada quase exclusivamente na perseguição de algo que permanece invisível, torna-se cansativa e repetitiva, gerando a sensação de que o filme corre o risco de se resumir àquela dinâmica. A estratégia é boa, mas o prolongamento preocupa.
Ainda assim, quando finalmente começa a revelar suas cartas, Hope parece se encontrar mais dinamicamente. Certamente permanece uma obra ousada e curiosa, embora superestimada, que vale a experiência mesmo quando não alcança exatamente suas ambições.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.
