[79º Festival de Cannes] Coward
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
O cineasta e roteirista belga Lukas Dhont possui uma carreira curta, porém consistente e que traduz aquilo que podemos chamar de cirúrgica. Realizador de três filmes, todos eles foram premiados no Festival de Cannes. Girl (2018) venceu a Caméra d’Or, a Queer Palm e o Prêmio FIPRESCI como representante da mostra Un Certain Regard. Close (2022) foi laureado com o Grand Prix da competição. Depois de quatro anos, Coward entra na 79ª Edição do Festival disputando a Palma de Ouro, e dessa vez leva para casa o prêmio de atuação masculina para a dupla Valentin Campagne e Emmanuel Macchia. Muito embora não tenha sido premiado diretamente em 2026, aos 34 anos, Dhont já alcança um feito e tanto: acumula uma filmografia breve e celebrada, e não é exagero dizer que é suficiente para consolidá-lo como um dos nomes de maior prestígio de sua geração no cinema europeu.
Coward certamente é seu projeto mais ambicioso até aqui, seja em termos orçamentários, seja a título de grandiosidade. No longa, situado na Primeira Guerra Mundial, especificamente no período entre 1914 a 1918, o diretor afasta-se dos espaços intimistas de suas obras anteriores para acompanhar dois jovens soldados, Pierre (Macchia) e Francis (Campagne), mobilizados para a linha de frente do conflito. É através do ópio proporcionado pela arte em meio à brutalidade bélica que ambos passam a perceber uma atração mútua, enquanto suas masculinidades são colocadas à prova em um universo permeado pelo medo extremo, pela violência e pela iminência da morte.
Dhont possui uma habilidade ímpar de trabalhar a homoafetividade em espaços regidos por expectativas de masculinidade, onde a delicadeza e o afeto parecem prestes a serem sufocados – e ele encontra, nesses contextos, uma sutileza que soa até descabida. Mesmo diante da coletividade que compõe o exército e seus inúmeros representantes, o diretor não abre mão de seu habitual estudo da intimidade humana, concentrando-o nas figuras desses dois apaixonados, tão opostos e diferentes um do outro – enquanto Pierre é um agricultor tímido e silencioso, Francis é um artista expansivo e expressivo.
Em Coward, o grupo de teatro liderado por Francis age como catalisador dos vínculos emocionais, e como respiro e alívio para o sofrimento traumático vivenciado de modo desolador pelos rapazes tão jovens lançados ao conflito – a arte exerce, de fato, um papel fundamental na narrativa. As apresentações que permitem performances afeminadas e as brincadeiras infantis surgem como formas desesperadas de evasão diante de uma realidade notoriamente insuportável. É igualmente belo e doloroso o modo como encontra-se na performance artística uma possibilidade de pertencimento emocional onde tudo ao redor é agressivo. O espaço teatral permite que gestos femininos, sensibilidades e vulnerabilidades possam existir sem julgamentos.
Em que pese haja esse espaço quase que seguro diante do horror, Dhont não romantiza completamente essa experiência. O diretor insere um desconforto sonoro que interfere na encenação, expressado pelo som de tiros e bombas ao fundo, e sobretudo, quando o grupo se apresenta em hospitais de guerra, pelos gritos de soldados mutilados e à beira da morte que se contrapõe ao espetáculo que precisa continuar resistindo.
Coward lança um olhar gentil para a pressão imposta sobre aqueles homens pela necessidade de performar masculinidade. O pertencimento ao grupo como mero instrumento de guerra exige agressividade, brutalidade e resistência emocional absoluta, e é exatamente essa exigência que faz julgar e penalizar os ditos covardes, aqueles que fogem da guerra. Aqui, a fragilidade torna-se motivo de humilhação. A covardia, no fim das contas, não decorre somente do temor diante da morte iminente, mas parece derivar, outrossim, da incapacidade de corresponder às expectativas violentas que estruturam aquele ambiente militar.
Trabalhando contrastes, Dhont contrapõe, como dito, os personagens, e desenha oposições visuais eficazes. O longa sai dos toques delicados, dos olhares e dos beijos para em seguida situar Pierre e Francis carregando corpos empilhados no campo de batalha, ou ainda, da refeição compartilhada entre brincadeiras pelos soldados para o vômito provocado pelo horror da guerra. Encurrala-se qualquer possibilidade de inocência dentro desse universo brutalizado, como se nenhum sentimento pudesse ali sobreviver intacto – e ainda assim, sobrevive, genuinamente.
Muito embora guarde momentos de absoluto auge emocional, como por exemplo, quando o grupo de teatro instiga uma canção coletiva que cresce no campo de batalha numa possível referência a Os Miseráveis, Coward se mostra o filme mais frio de Dhont. O diretor traz, certamente, um retrato gentil de uma juventude masculina queer, mas não consegue inclinar o espectador a explosões sentimentais mais explícitas – e essa intensidade emocional devastadora que tornava seus trabalhos anteriores tão dilacerantes faz falta. Ainda assim, mesmo assumindo uma dimensão mais grandiosa, o diretor preserva aquilo que talvez seja sua principal característica enquanto cineasta: a capacidade de observar a intimidade humana com enorme delicadeza, mesmo nos contextos mais violentos e desumanizadores possíveis.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

