[79º Festival de Cannes] Elephants in the Fog
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
No Sul da Ásia, em países como o Nepal, Paquistão e Bangladesh, há uma cultura centenária dentro da comunidade queer denominada kinner (ou kimna), representada pela comunidade trans. Trata-se de um grupo de mulheres que, muito embora vivam às margens, estão atreladas à crença religiosa e espiritual que as coloca como capazes de distribuir bençãos poderosas. A intolerância transfóbica é apaziguada pela conexão religiosa de suas figuras, não a ponto da aceitação social, mas as membras do dito grupo são toleradas tendo em vista seus supostos poderes.
Esse o contexto espacial e temático de Elephants in the Fog, filme dirigido por Abinash Bikram Shah, vencedor do prêmio Un Certain Regard da 79ª Edição do Festival de Cannes. No longa, a comunidade matriarcal kinner local é liderada por Pirati (Pushpa Thing Lama), uma mulher trans que formou uma família substituta por escolha e afetividade, acolhendo outras iguais a ela, rejeitadas por seus lares biológicos, e que reunidas vivem seus próprios modos de vida e são procuradas pelos locais necessitados de bençãos.
Pirati e suas filhas, como ela as adota e chama, compõem esse microcosmo inserido numa comunidade nepalesa afastada da cidade, cercada por florestas, onde elefantes são animais indesejados e constituem a principal ameaça local. A aproximação deles é um risco físico iminente à segurança comunitária, às plantações, às famílias e às casas, e instrumentos principalmente sonoros são utilizados para mantê-los longe dali. Bikram Shah nos convida a acompanhar, então, os esforços de Pirati para ser aceita na macro comunidade, fazendo sua parte na proteção contra os elefantes e cumprindo sua função religiosa, ao mesmo tempo em que tenta ser mãe e uma mulher amada em plenitude.
Quando uma de suas filhas some, ela percebe que pode contar apenas consigo e com suas pares, constatando que não são somente os elefantes que não são bem-vindos no seio comunitário. Elephants in the Fog permite, com um naturalismo que flerta com o fantástico trazido pela misticidade dos animais, que conheçamos essa cultura específica do sul asiático, e a reconheçamos em nossas próprias, já que a luta trans é árdua em qualquer lugar do mundo que ainda insista em marginalizar seres humanos e ditar regras que desrespeitem existências inteiras.
O maior deleite do longa é apreciar esse matriarcado, que é real e é expresso em tela pelas próprias mulheres que representam as kinner nepalesas: são todas atrizes locais, que não trabalham com cinema e que foram convidadas a participar do filme depois que Bikram Shah se aproxima delas após conhecê-las por vídeos no TikTok. Elephants in the Fog é, portanto, uma ficcionalização fundamentada numa comunidade real e ritualística, e que constrói, entre as mulheres trans e os elefantes, metáforas e símbolos explícitos, mas progressivamente trabalhados no decorrer fílmico.
O equilíbrio entre a Pirati que tenta ser símbolo de força e resistência com sua outra faceta, que deseja existir como uma mulher feliz juntamente com seu parceiro, é conduzido pelo diretor sem maniqueísmos. De todo modo, qualquer de suas escolhas é complexa, na medida em que parecem lhe causar algum tipo prejuízo, seja para ela, seja para terceiros. Quando ela anuncia que vai deixar a liderança kinner para viver com o amado, é inevitável não julgá-la, já que somos posicionados pelo diretor a tomar partido da filha, que implora dolorosamente para que a mãe fique, em uma cena que mostra a dureza e a firmeza da matriarca naquilo que parece ser uma opção indiscutível.
É justamente essa a filha que some, e o intenso desespero materno que toma conta de Pirati a partir daí nos faz esquecer qualquer tipo de julgamento que outrora lhe lançamos, principalmente porque ela assume fervorosamente a função de líder novamente, desafiando o sistema daquele lugar que só a tolera porque espera por milagres.
Elephants in the Fog é primoroso na condução dos contrastes que coexistem em personagens, espaços e situações, passando longe da simplificação e da vitimização de qualquer contexto. Traz, concomitantemente, a alegria natural e contagiante das kinner, que propagam danças, rituais e canções que marcam suas identidades com muita beleza, sem lhes retirar a seriedade religiosa e comunitária.
Tal é refletido, invariavelmente, por Abinash Bikram Shah na própria mudança da atmosfera do longa: quando Pirati encontra, na floresta, um elefante morto, ela compreende que sua jornada e sua existência estão condicionadas à luta coletiva, compreensão essa também do filme, que reconhece que a força dessa comunidade marginalizada reside menos no misticismo, e mais na concretude da reafirmação da existência de pessoas queer.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.
