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[79º Festival de Cannes] Fjord

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Há algo muito claro: o seu direito existe e é garantido na medida em que não prejudique o direito alheio. Há diversidade de pessoas e cada uma delas é sujeito de direitos, portanto, esse é o meio de garantir dignidade a todas elas. Quiçá o maior mal do mundo seja, justamente, a extrapolação desse limite: quando desejo impor meu direito ou meu ponto de vista a outrem, forma-se um conflito competitivo que visa estabelecer uma hierarquia de valores que, em tese, seria descabida. No entanto, qual não é o Estado, por exemplo, que protege a liberdade religiosa de todas as pessoas na teoria, mas na prática persegue aquelas de matriz africana? Ou ainda, qual não é o Estado que nunca se submeteu às instituições religiosas, permitindo uma simbiose tão profunda de poderes a ponto de privilegiar as regras da religião em detrimento das regras estatais? Lidamos, no Brasil, com os perigos do avanço da igreja evangélica nos espaços de poder político de forma gradativa e assustadora.

Esse conflito entre Estado e religião é o mote para que Fjord, de Cristian Mungiu, nos conduza a um filme de tribunal não convencional, no qual uma família católica radical, os Gheorghius, é julgada pela educação oferecida aos filhos e pela moralidade que organiza seu lar. Mihai (Sebastian Stan) é romeno, casado com Lisbet (Renate Reinsve), norueguesa, e ambos possuem juntos cinco filhos, dentre eles, um bebê lactente. Após uma oportunidade de emprego do patriarca, o grupo se muda para a terra natal materna, numa pequena comunidade isolada situada entre o mar e aos pés de uma montanha nevada sob o constante risco de avalanches. As crianças se adaptam ao novo lar e criam laços fortes de amizade com os filhos da família vizinha, os Halbergs. Entretanto, a suspeita de que os Gheorghius usam de violência física para punição de seus filhos fazem a escola denunciá-los a um grupo de proteção à criança e ao adolescente, e os pais perdem temporariamente a guarda.

Mungiu é provocador e irônico. O tribunal que julga a família é conduzido por uma curiosa dinâmica democrática, onde os atos dos pais são confrontados pela obviedade da lei que proíbe qualquer tipo de abuso contra a criança e o adolescente. Entretanto, o que está sub judice é muito mais abrangente do que a punição física em si. O conflito nuclear se torna coletivo até alcançar um nível de discussão sutil entre países e culturas, ou seja, entre conservadorismo e progressismo, entre Romênia e Noruega, e o manto religioso é o cerne da fundamentação que protege a família julgada.

Os Gheorghius representam uma parcela radicalizada do catolicismo, que interpreta e faz da bíblia um modo de vida, sendo, inclusive, membros da comunidade religiosa local. Os filhos, que replicam ao pé da letra os conceitos ensinados pelos pais, inclusive mediante comportamento homofóbico, não têm acesso à celular, redes sociais, não podem ir a festas ou sair de casa para interagir socialmente ou realizar qualquer programa comum e saudável à crianças e adolescentes. Quando não se comportam, são disciplinados conforme manda o texto bíblico ou a cultura religiosa: com castigos, palmadas, tapas e outras “pequenas” agressões físicas não só descabíveis nos dias atuais, mas criminosas ao pé da letra da lei de alguns países.

Quantos de nós já levamos palmadas e tapas supostamente educativos em nossas vidas? Quantas são as famílias que conhecemos que já o fizeram? Mungiu nos incita, de certo modo, a também  julgar os personagens nessa história. O confronto da lei aos costumes e cultura de uma parcela religiosa da população, colocado ao lado das figuras que vemos sendo julgadas, torna, a princípio, essa avaliação complexa. O diretor, no entanto, vai gradativamente revelando facetas e aumentando a ironia, de modo com que, muito embora seja evidente que ali tudo seria remediado pela compreensão dos pais a respeito da natureza de seus atos, a postura de resistência ao que é óbvio torna nosso veredito não mais simples, mas no mínimo, mais claro.

São muitas as questões que nos são propostas por Fjord. Reinsve interpreta uma Lisbet cuja voz mal ouvimos. Além de mãe de cinco filhos, ela trabalha fora de casa, numa espécie de clínica para pessoas idosas. Adota uma postura levemente curvada, com a cabeça inclinada, as mãos posicionadas juntas em frente ao corpo, tipicamente submissa e de aparência inofensiva. Ela claramente ama e se preocupa com seus filhos, é notório que sobrecarregada pelas tarefas domésticas, mas não hesita em cumprir os preceitos religiosos à risca. Não há, por parte dela, grandes manifestações e nem inclinações violentas. Mas lhe sobram moralismo e obediência ao marido e à instituição cristã.

Ao compor Mihai, Sebastian Stan, na mesma linha de Reinsve, usa o tom de voz baixo e sempre que encontra um piano, dedilha com doçura músicas religiosas. Sua postura de patriarca, porém, muito embora aparentemente passiva, por representar a masculinidade dominante e a chefia do seio familiar, é muito mais ameaçadora e defensiva. Uma pessoa, de fato, não precisa ser expansiva para ser violenta. Ou ainda, não precisa ser passível de praticar uma lesão corporal grave para ser lida como violenta. 

A violência se manifesta de formas tão sutis que o grande desafio de suas vítimas é a identificação. Parece evidente, mas é impressionante como se desconhece seus outros tipos para além da física. A violência pode ser física, moral, psicológica, verbal, sexual, patrimonial, racial, de gênero, institucional, apenas para citar algumas de suas modalidades. Em Fjord temos duas divisões importantes quanto a essa diversidade: o desconhecimento e a tomada de consciência de estar na posição de agressor. É exatamente o que será feito a partir do mencionado segundo momento, ou seja, da compreensão e da consciência, que definirá o veredito, não necessariamente, do filme, mas o nosso.

Até que ponto cabe ao Estado opinar ou interferir na criação dos filhos dentro do núcleo familiar? O que fazer quando aquilo que a religião ensina afronta o que o Estado protege? Quando há interferência, onde se posiciona a liberdade? E voltamos ao início: a liberdade acaba a partir do momento em que viola o direito alheio – aqui, o direito dos filhos. Mungiu é perspicaz e ágil ao expressar, nos minutos finais, não só o maior direito violado, mas o elemento que salva e move montanhas muito mais do que instituições religiosas e regras: o amor, genuíno, em sua forma mais pura. Arrepio só de lembrar. 


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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