Papagaios (2025)
Em Papagaios, do diretor Douglas Soares, a fama é antídoto para a solidão e passaporte para a eternidade. Faça chuva ou faça sol, se houver uma câmera ligada em uma rua qualquer, lá estará Tonico (Gero Camilo), um homem que se autointitula “o melhor amigo dos repórteres”, com cartão de visita e tudo. De terno e cabelo (que depois descobrimos ser uma peruca) penteado para trás, ele busca a melhor posição para ser eternizado em uma reportagem sobre um acidente, um homicídio ou até temas mais prosaicos como o movimento do comércio.
Não importa o que o repórter está noticiando. O que importa, para Tonico, é ser visto, tanto que ele conta, com empolgação, para uma vizinha que passa na rua que “vai estar no noticiário nesta semana”, como quem fala que vai ser entrevistado em um programa de auditório. E essa busca incessante pela fama o leva a um programa desses, no melhor estilo Casos de Família, apresentado por Claudete Troiano (interpretada por ela mesma).
Soares resiste à tentação de fazer um circo da história de Tonico e conta uma história de obsessão ao redor do personagem. Essa obsessão é personificada por Beto (Ruan Aguiar), que ronda Tonico e acaba ganhando a confiança dele, a ponto da relação se transformar em uma dinâmica de mentor e aprendiz com toques edipianos.
É na construção dessa relação que o filme vai para frente. Dividido em capítulos, Papagaios desmonta a farsa que Tonico criou para si, do entendimento de que ser famoso é ser eterno. Inspirado em um “papagaio de pirata” da vida real, ele é consciente do que faz a ponto de transformar essa gana por aparecer em um ofício. Em dado momento, ele chega a propor a outros colegas a criação de um sindicato (informal, claro) para cuidar dos interesses da categoria.
O filme é um acerto porque não infantiliza Tonico e deixa Beto nas sombras, como se nem o personagem entendesse exatamente o que quer. A solidão do mais velho é acentuada por uma casa que só não é silenciosa pela presença de um papagaio (!), mas isso nunca é uma grande questão que a história precisa solucionar. Sim, a casa fica mais solar com a chegada de Beto e a dubiedade do relacionamento dos dois é bem explorada em momentos como a cena em que Tonico coloca um espelho em meio à sua parede de clippings de jornais, dando oficialmente espaço para o mais novo em seu “santuário”. Em outra cena, Beto está deitado, com a jaqueta escolhida após Tonico lhe dizer que ele precisava ter estilo próprio, escutando A Fórmula do Amor, de Léo Jaime e Kid Abelha. A letra, que fala sobre uma busca inútil por ser amado, cai como uma luva, até porque o próprio Léo Jaime se transforma em personagem-chave no final da história.
A resposta para a pergunta que atravessa o filme (‘vale tudo para ser famoso?’) fica, propositalmente, em aberto. Para Tonico, terminar aquela história reconhecido como um “ícone do subúrbio carioca” talvez tenha sido o final feliz que ele sempre almejou. Mas, diante da artificialidade das relações que o cercam e da engrenagem que vai colocar uma nova pessoa em seu lugar, sem cerimônias, fica a dúvida se essa farsa realmente supriu o que lhe faltava.
P.S.: Não deixa de ser curioso que o filme se passe em Curicica, bairro onde estão localizados os estúdios da TV Globo.




