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Vidas Entrelaçadas (Couture, 2025)

Publicado originalmente em 17/04 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


Uma das coisas mais tristes nessa vida de assistir a muitos filmes é me deparar com um que é completamente desinteressante. Infelizmente, esse foi o caso de Vidas Entrelaçadas (Coutures, 2025), que estreia nos cinemas de algumas cidades brasileiras neste fim de semana. O filme da realizadora francesa Alice Winocour transita pelos bastidores do mundo da moda, em plena Paris Fashion Week, por meio de uma cineasta estadunidense (Angelina Jolie) contratada para conceber a parte criativa de um desfile, de uma modelo sudanesa (Anyier Anei) que é a novidade da temporada e de uma maquiadora (Ella Rumpf) que vive a falta de glamour de quem trabalha por trás dos holofotes.

O magnetismo de Jolie e seu status de estrela monopolizam o filme e é à história de Maxine – personagem dela – que ele se debruça com mais atenção. Há paralelos com a vida pessoal da estrela, desde a mãe francesa à sugestão de que a personagem acabara de passar por um divórcio conturbado. O maior eco com a história real de Jolie vem quando Maxine recebe a notícia de que tem um câncer de mama – para quem não sabe ou não lembra, a atriz passou por uma mastectomia após descobrir uma predisposição genética para a doença. 

O mesmo cuidado que o filme dispensa a Maxine não se reflete nos blocos dedicados a Ava (Anei) e a Angèle (Rumpf). A gente conhece um pouco do que levou a primeira a Paris, vê a hostilidade com que ela é recebida pelas outras modelos, o racismo que nem sempre é tão velado, a xenofobia como “parte do pacote” – ainda mais na França – mas a história dela fica pelo caminho. Ava tem um breve momento de acolhimento com Angèle, que percebe que a maquiagem que passam na “new face” (como as modelos em início de carreira são conhecidas) não foi feita para a pele dela. 

É frustrante ver as histórias de Ava e de Angèle deixadas de lado para que o filme se dedique a Maxine, até porque há uma linha em comum que liga essas três personagens, que são engolidas pelo capitalismo e estão todas longe do que realmente gostariam de fazer, porque os boletos precisam ser pagos. Maxine sonha em firmar sua voz artística no seu próximo filme, Ava queria mesmo trabalhar com Farmácia e Angèle busca um lugar ao sol na escrita. Cada uma tem esses desejos interrompidos pelas circunstâncias. Para um filme com um título no idioma original que se traduz para “costuras”, a história que se apresenta é um grande remendo pronto para se desfazer a qualquer momento. 

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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