[79º Festival de Cannes] Che Guevara: The Last Companions
Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.
Se todo cinema é político, ainda que essa não seja a intenção primeira de seu realizador, um filme que se proponha a falar sobre Che Guevara inevitavelmente também o será, de maneira aberta e incontornável. Não há, nesse caso, possibilidade real de neutralidade: qualquer tentativa de dissociar sua figura do anti-imperialismo e do marxismo soa, no mínimo, desonesta com a trajetória política e histórica do líder da Revolução Cubana.
Che Guevara: The Last Companions, primeiro longa-metragem de Christophe Dimitri Réveille, ator de Os Três Mosqueteiros: D’Artagnan, é um documentário que não coloca o revolucionário emblemático como protagonista, mas percorre os arredores de seus últimos dias por meio dos seis homens de sua confiança com quem estava pouco antes de sua captura. O convite do diretor é que conheçamos esses companheiros leais de Che e as consequências que enfrentaram em razão da morte de seu líder.
Pombo, Urbano, Benigno, Inti, El Nato e Dario: Che Guevara atravessava a selva boliviana em combate contra o exército local na companhia dessas figuras pouco antes de encontrar seu destino fatal. Mantido em cativeiro até a ordem de sua execução, não teve a chance de ser resgatado, já que uma pista falsa sobre seu paradeiro havia sido plantada. Os seis homens, ao receberem a notícia do assassinato daquele que buscavam salvar, estabeleceram para si um novo objetivo: retornar a Cuba, relatar a Fidel Castro o que testemunharam e seguir lutando.
Réveille nos conta essa trajetória por quatro vias intercaladas: imagens e filmagens de arquivo datadas, aproximadamente, entre 1967 e 1969, quando os testemunhos da revolução eram imageticamente documentados por câmeras dispostas em ambos os lados do conflito; as cabeças falantes, representadas pelos homens que sobreviveram aos acontecimentos; a narração de Vincent Lindon, que contextualiza temporal e historicamente, de maneira linear, os fatos, situando o espectador; e, por fim, a animação em escalas acinzentadas, responsável por reproduzir aquilo que não vemos, dramatizando os acontecimentos e conferindo ao documentário um tom comovente.
No que se refere à aproximação do espectador às figuras revolucionárias, Che Guevara: The Last Companions, apesar de subaproveitar os preciosos testemunhos de seus entrevistados em razão da quantidade de elementos explicativos e didáticos com os quais trabalha, alcança uma humanização imprescindível dessas figuras. Em contextos mais amplos, falar sobre Che Guevara, seus companheiros e a controversa aura que circunda suas existências costuma provocar discussões calorosas acerca da legitimidade da causa revolucionária, das razões de suas lutas e do julgamento de seus comportamentos. Ao confrontar a imagem construída dos guerrilheiros com suas cabeças falantes já idosas e inseridas em uma vida ordinária, o diretor os afasta de qualquer mística ou preconceito que possa envolvê-los, revelando homens comuns, ainda saudosos da diferença que acreditam ter feito no mundo por meio de seus atos.
Suas histórias, os caminhos que percorreram, os desafios físicos e psicológicos que enfrentaram e os riscos que se dispuseram a correr em favor da continuidade daquilo em que acreditavam constituem um rico material humano e histórico. É interessante ouvi-los narrar, por exemplo, o mito que se formou ao redor deles: seis homens mobilizaram cerca de 300 soldados do exército boliviano em sua perseguição, já que eram vistos como guerreiros extraordinários e experientes, supostamente dotados de habilidades quase sobre-humanas. Embora fossem pessoas comuns – trabalhadores do campo e ainda muito jovens, isto é, ordinariamente humanos -, impressiona a maneira como conseguiram, em evidente desvantagem, driblar seus inimigos e sobreviver tanto aos confrontos quanto à força da natureza que se impunha contra eles.
No entanto, para além do aspecto humano, e apesar do valioso material de que dispõe, Christophe Dimitri Réveille, ao optar por trabalhar com determinados excessos, constrói para o espectador uma ponte dramática que desassocia os guerrilheiros da própria guerrilha, isolando-os em narrativas de superação e conduzindo-nos àquilo que apontamos, desde o início, como desonesto à causa: a ideia de isenção.
Os artifícios de comoção presentes no documentário são notórios e chamam atenção para si com clareza. A trilha sonora insiste em uma emoção difícil de ser alcançada organicamente, enquanto a animação ressalta de maneira expressiva a dor e o sofrimento dos personagens. Quanto aos arquivos, o diretor flerta com o mau gosto ao explorar fotografias dos corpos mortos de Che Guevara e de um de seus companheiros não como instrumento de enriquecimento narrativo, mas, sobretudo, como forma de atrair o olhar do espectador.
Che Guevara: The Last Companions expressa uma parte importante da história latino-americana, mas o ponto de vista através do qual observamos essa história é francês. Sempre que me deparo com uma obra sobre determinado contexto ou território realizada por alguém que não pertence diretamente àquela realidade, como é o presente caso, reticências e questionamentos surgem naturalmente no que diz respeito ao cuidado e ao respeito presentes nesse olhar estrangeiro.
Muito embora Christophe Dimitri Réveille seja bem-intencionado, a exaltação do papel da França na repatriação de Pombo e seus companheiros, bem como do heroísmo da figura política de Salvador Allende, deixa o resquício amargo de uma necessidade de centralizar a figura do redentor estrangeiro. A coroação da desconfiança em relação ao discurso fílmico surge, ao final, com a percepção de que a semente ali plantada foi, sobretudo, a da perigosa e confortável isenção: como dito, falar sobre Che Guevara e a Revolução Cubana ao mesmo tempo em que se levanta a bandeira de que o que importa é apenas o conteúdo humano e a ideia de “fazer a coisa certa” – e não os “ismos” (capitalismo, comunismo, socialismo) que estruturam nosso modo de viver – é, certamente, um caminho que faria Che Guevara se contorcer.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.


