Natal Amargo (Amarga Navidad, 2026)
É possível apenas identificar no mais recente longa-metragem de Pedro Almodóvar, Natal Amargo (2026), tudo aquilo que há de mais recorrente em termos de características de sua filmografia: mulheres emocionadas, mães ou amigas que sofrem ou vivem crises, mas que são profundamente solidárias umas com as outras. É o que vemos na trajetória de Elsa (Bárbara Lennie), Patrícia (Vicky Luengo) e Natalia (Milena Smit). A tríade luto, abandono e culpa está perfeitamente figurada nessas três personagens. Elsa sente enxaqueca e ataques de pânico e, ao que tudo indica, são sintomas de um luto mal elaborado em relação à mãe que morreu há um ano. Patricia sofre o abandono de um marido que provavelmente ama outra mulher. Natalia absorve a culpa pela morte de seu filho pequeno e se enclausura.
Se prestarmos atenção apenas na história que está sendo criada por Raúl (Leonardo Sbaraglia), a forma como Elsa, Patricia e Natalia existem como personagens ficcionais femininas encontra ecos em protagonistas almodovarianas. Patricia parece uma Pepa (Carmen Maura), de Mulheres à beira de um ataque de nervos (1988), mas talvez em tom menor e mais contido. Natalia lembra bastante o drama de Manuela (Cecilia Roth), de Tudo sobre minha mãe (1999), que perde o filho e carrega uma culpa imensa. Em meio ao atribulado trabalho de publicidade, Elsa perde a mãe e não sabe como lidar com essa ausência, tal como Raimunda (Penélope Cruz) em Volver (2006). No meio de tanto drama, há cenas e diálogos com ironia e humor, como a icônica sequência da médica que confunde o sentido de “filme cult” com “filme de culto”. Ou até mesmo cenas de maior intensidade emocional, envolvendo canções que levam personagens a chorar.
Curioso que Elsa e Patricia escutam e se emocionam com uma canção entoada por uma intérprete que vai perdendo aos poucos a voz. Chama-se La Llorona, que alude ao famoso mito da jovem mulher que, após ser abandonada por um homem, decide jogar seus filhos em um rio e, na sequência, afundar-se no mesmo lugar, tornando-se uma pobre alma que vaga e assombra. A imagem da mulher que sofre e tem o destino trágico ganha espelhamentos contemporâneos, como um ciclo sem fim de dor. É exatamente isto que o espectador gostaria de ver em um novo filme de Almodóvar?
No entanto, o filme não se resume à história de Elsa, Patricia e Natalia. O aspecto mais inquietante reside em quem está escrevendo essa história. Raúl é o roteirista-diretor que dá vida às personagens. Ele molda as fragilidades emocionais de Elsa, Patricia e Natalia como alguém que sente satisfação artística suficiente para organizá-las em forma de roteiro. A metalinguagem de Natal Amargo parece apontar para uma pergunta desconfortável: até que ponto a indústria do cinema necessita do sofrimento feminino para continuar produzindo imagens consideradas profundas, sensíveis ou artísticas? Enquanto as três mulheres atravessam suas dores, Raúl encontra nelas a possibilidade de voltar a criar, recuperando uma potência autoral que parecia bloqueada.
Alguém poderia logo defender o borramento de fronteiras entre ficção e realidade como mote propulsor do artista, mas parece haver algo de perverso nessa dinâmica defendida por Raúl, porque ele nunca é verdadeiramente atravessado pelas dores que o mobilizam. Por mais que tenha sido ele que perdeu alguém, o que vemos no papel é uma mulher que perdeu. Ou mesmo um personagem masculino pode lembrar seu atual namorado, mas não há enfrentamento emocional no cotidiano. Por isso, é tão extraordinário ouvir Mónica (Aitana Sanchez-Gijón), sua assistente há 20 anos. Por meio da fala dela pouco antes do desfecho, compreendemos a camada interpretativa mais instigante do filme. Raúl permanecerá relativamente intacto, protegido pelo lugar historicamente concedido ao criador masculino no cinema hegemônico: o de alguém autorizado a transformar a intimidade feminina em obra, mesmo quando isso implica exploração afetiva. As mulheres sofrem, enlouquecem, choram e desmoronam, enquanto o artista, por outro lado, reorganiza tudo em linguagem, estética e prestígio cultural.
Talvez Almodóvar esteja justamente tensionando esse mecanismo ao fazer de Raúl uma espécie de espelho incômodo do seu próprio cinema. Afinal, Natal Amargo parece perguntar se ainda é possível representar mulheres em sofrimento sem reproduzir uma lógica de consumo dessa dor. Quando Elsa, Patricia e Natalia passam a existir como material narrativo manipulado por um homem em crise criativa, o filme expõe uma engrenagem antiga da indústria cinematográfica: a romantização da mulher ferida como combustível da imaginação masculina. O mais perturbador é perceber que Raúl não precisa responder moralmente por isso. Basta transformar tudo em arte para sair ileso.




