[Cine PE 2026] Recife chama o monstro para abrir a sessão de sua primeira noite
Filme de abertura da 30ª edição do CinePE aborda o crime de feminicídio cometido por cirurgião plástico
Este texto faz parte da cobertura do Cine PE Festival do Audiovisual 2026, que ocorre entre 1 e 7 de junho.
I. Em tempos de ‘epidemia de feminicídio’, ter filmes abordando o assunto tende a ser algo que nos conforta, afinal, esperamos que (mais uma vez) o cinema sirva de meio de meio para que discussões pertinentes e importantes alcancem cada vez mais pessoas. Entretanto, há de se entender que a escolha da forma influencia bastante a recepção do público. Não que as artes devam, sejam obrigadas a assumir o papel de mediador de pautas socioculturais, porém, em 2026 já se espera mais tato ao se tratar de algo tão sério quanto a violência de gênero.
II. Invocarei aqui meus anos de conhecimento e admiração pelo cinema de Quentin Tarantino, para dizer o quanto cenas de violência desenvolvidas por meio de um olhar fetichista, irônico, na tentativa de amenizar e estetizar um filme, pode ser um tiro no pé. Sempre me lembrarei de Spike Lee questionando o quanto ‘Taranta’ se sente confortável em reproduzir em seus filmes, inúmeras vezes a ‘n word’ como se isso fosse apenas uma escolha estética. Dei toda essa volta apenas para refletir o quanto as escolhas estéticas de Doutor Monstro criam belas imagens enquanto visual cinematográfico, com excessos de dramatização que poderiam potencializar muito a proposta de mostrar os furos e incoerências no depoimento de Farah Jorge Farah (Marat Descartes). Mas, ao fim, nos deparamos mais com uma série de imagens que ainda que apresentem o ponto de vista do réu, não conseguem dignificar a história de Carmem (Marcelina Fialho) justamente por não fazer o mesmo com os demais pontos de vista. Me explicarei melhor, em seguida, após refletir sobre as relações do filme com imagens de horror ficcional como ferramentas abordar o horror real.

III. Para dar mais ênfase à violência do assassinato de Carmem, o cineasta Marcos Jorge (Estômago, O Caso Celso Daniel) trás para Doutor Monstro, elementos visuais recorrentes em filmes de horror, bem como em séries e filmes de true crime. Por exemplo, a sequência na qual, perante o júri, Farah é confrontado com a incoerência de seus depoimentos sobre a maneira como o crime aconteceu. Em repetição, o ataque é visto vários ângulos, acontecendo por meio de empurrão, ferimento a faca no estômago ou na jugular. Porém, sempre como um tipo de legítima defesa. Essa talvez seja, para mim, o único momento no qual enxergo a ironia proposta ao mostrar o início do ataque contra a mulher de maneira exagerada, o tempo todo reforçando o quanto Farah se porta como vítima agindo em legítima defesa.
IV. Entretanto para que essa ironia fosse sólida ao longo de toda produção, percebo o quão necessário era um contraponto no qual ao mostrar a personagem feminina, vivenciando a relação paciente/médico com seu algoz, não soasse tão histérica, desregulada e até mesmo inocente demais. O que colhemos com essa ausência é o constrangimento de presenciar na sessão momentos de riso efusivo diante de algumas falas e atos em cena, que não são balanceadas com o constrangimento, dentro e fora da tela, a partir do momento que nos é oferecido outros pontos de vista que não estejam em um lugar ora de culpabilização, ora de revitimização.

V. Na coletiva, Marcos Jorge aponta o quanto ele percebe que as reações ao filme dizem mais sobre como somos (a partir da maneira como lemos o filme) do que sobre o que está sendo dito. Não discordo, pois percebo que as risadas diante de piadocas sobre o corpo feminino um pouco deslocado do padrão ou sobre um possível adultério são uma consequência de anos sem se questionar o que é violência ou ofensa, contra corpos postos à margem. Entretanto há de se pensar que o riso que não constrange o espectador confrontado com o absurdo do que está sendo contado pode também ser lido como certa dificuldade da escolha ‘lexical visual’ que a obra cinematográfica usou.
VI. No livro Cinema de horror – Uma introdução, a autora e o autor, respectivamente Laura Loguercio Cánepa e Rodrigo Carreiro apontam que o problema do horror ficcional é que ele é um “gênero de entrelugares. Ele habita espaços de transgressão fronteiras, de preenchimento de frestas e rachaduras, de processos irreversíveis de poluição cultural. Quando presente em uma obra de ficção, costuma contaminar toda a experiência, mesmo que esteja compartilhado com a comédia ou o melodrama […]” (p. 12-13)
VII. Doutor Monstro é um filme impregnado pelo horror ficcional, desde sua abertura que arremeda a abertura da série Dexter, trazendo o médico em sua rotina matinal, usando ferramentas como a navalha para fazer sua barba, em um gestual que nos alerta para o que será visto futuramente, quando ele se transformar em um monstro. Da mesma maneira seu apreço por artes e sua tranquilidade ao se comunicar com as pessoas de seu entorno, flertam com a personalidade erudita e aparentemente pacífica do outro médico assassino, Dr. Hannibal Lecter. Além disso, as tomadas no laboratório, ops… sala de cirurgia, são o suco do que esperamos de um doutor maluco estilo Victor Frankenstein (a figura representada no cinema, não a do livro). Se não bastasse, a mistura feita para criar um filme brasileiro de tribunal esbarra em características dos tradicionais seriados de investigação e julgamento da franquia Lei e Ordem, por exemplo, ou mesmo lembra o tribunal enfrentado por Sueli (Wilma Dias), em Amor Maldito, de Adélia Sampaio.

VIII. A dualidade bem e mal não é funcional quando o centro de um filme, nesse caso o médico monstro, é deslocado para um lugar de neutralidade e seu defensor, o advogado interpretado por Guilherme Weber, carrega sobre seus ombros a vilania à medida que a história se desenvolve. As personagens que deveriam representar os dois pratos da justiça, ao serem colocados em oposição esvaziam o centro da discussão, eclipsando quem realmente representaria a monstruosidade proposta desde o o título do filme.
IX. Ainda sobre relações de oposição, a sinalização à diversidade proposta ao substituir o promotor real, homem cis branco, por uma mulher negra, Taís Araújo (muito bem em cena), soa questionável. Pois ao colocar essa mulher como alguém que de tão obstinada e focada em seu trabalho não é capaz de ter uma relação amorosa fixa, dá manutenção ao estereótipo da mulher negra que não é digna de receber amor (e aqui falo de amor romântico). Não há problemas em uma personagem ser solteira e, tão, mas tão segura de si e livre em seu desejo que contrata um garoto de programa para saciar seus desejos sexuais. Todavia, quando a pessoa posta na outra direção, com uma mesma rotina e sanha pelo sucesso e poder no judiciário, é apresentada como bem casado ao ponto de mesmo diante da divergência ideológica com a esposa não ter sua relação abalada.
X. A maneira que interpretamos uma história diz muito sobre como observamos as coisas e a julgamos, entretanto a maneira como contamos uma história também reflete a bagagem que carregamos e usamos para interpretar a realidade. No fim, o que me fica é como a fruição de uma obra de cunho artístico revela, desvela, desvenda e afirma práticas culturais enraizadas em cada um de nós por meio da construção do imaginário. É preciso estar atento e sempre, diante do estranhamento, dar um passo atrás, observar, ouvir o que está sendo dito e refletir, não reagir. E isso vale para quem estiver em qualquer parte dessa cadeia, seja na realização, na produção, na crítica ou na poltrona enquanto espectador.
