[Cine PE 2026] Encontros, locais e amores
A complexidade humana toma conta das telas do Cine Teatro do Parque no segundo dia do CinePE
Este texto faz parte da cobertura do Cine PE Festival do Audiovisual 2026, que ocorre entre 1 e 7 de junho
I. A La Ursa e seu ritmo incontrolável proporcionou ao cinema documentário, de uma estreante, imagens e registros de uma manifestação da cultura popular que pulsa na periferia recifense, mas que se liga às manifestações artísticas europeia, ocupando pontos de intercessão em uma linha que costura a dança, a música e a insubmissão.
II. Rajada: ra.ja.da | ʀɐˈʒadɐ (substantivo feminino) – 1. ventania repentina, violenta e rápida, lufada; 2. precipitação violenta e repentina; 3. (militar) descarga contínua de tiros por uma arma automática; 4. (figurado) ímpeto; 5. (figurado) corrente ininterrupta e rápida; 6. (figurado) energia que emana dos corpos de La Ursa, ‘Los Ursos’ e ‘Los Ursitos’, durante os cortejos de carnaval.

III. Tremedeira: tre.me.dei.ra | trəməˈdɐjrɐ (substantivo feminino) – 1. tremor; tremura; 2. (figurado) nervosismo; 3. (manifestação cultural documentada) agitação dos membros, divergência corpórea; 4. (manifestação cultural documentada) transe carnavalesco ancestral no qual corpos humanos voltam ao seu estado primitivo sendo religado à terra e aos animais; 5. (manifestação cultural documentada) alcançar elevação espiritual; 6. (manifestação cultural documentada) remelexo natural mais rápido que a velocidade seis da dança do Créu praticado pela La Ursa; 7. (capitalismo) meio de conseguir fundos monetários por meio da dança; 8. (ditado popular) Quem banca a La Ursa quando a La Ursa não está bancando a si mesma?.
IV. Os Ursos e Eu, de Maria Ascerald, é uma experiência auditiva intensa na qual a imagem apresentada ao espectador, unida aos sons dos tambores, caixas e demais instrumentos de percussão, provocam um transe que leva àquele que assiste ao curta aos passados formadores das corporeidades brasileiras.
V. A divergência de passo é o nirvana coletivo carnavalesco dos ursos livres.

VI. Existe em Velha Roupa Colorida, de Pedro Filipe a ficcionalização de um ‘desconflito’ de gerações no qual somos apresentados a uma perspectiva de homossexualidade na vida idosa. O espaço ficcional tensiona o imaginário estabelecido sobre orientações sexuais, por meio do afeto construído entre dois homens de idades diferentes. Assim sendo, ao invés de vermos um filme no qual os lugares comuns são revisitados, temos o ambiente e a vida cotidiana, os desejos da juventude e as memórias do fim da vida adulta se entrecruzando e formando a amálgama do respeito e da resistência aos preconceitos, em uma relação descentralizada do desejo sexual e/ou dos atritos.
VII. O espaço da moradia, antes apresentados como lugares de solidão são transmutados na sorte de um amor (fraterno) tranquilo. Dessa maneira, conhecemos um filme que ainda que careça de mais desenvolvimento é repleto de carisma e delicadeza. Ser homossexual também passa pela sensibilidade afastadas dos estereótipos.

VIII. Tássia Dhur, nos leva ao Mercado Central de suja cidade para apresentar formas diferentes de usar uma faca.
IX. Carne: car.ne | ˈkarn(ə) – 1. parte mole, entre a pele e os ossos, do ser humano e dos animais, principalmente o tecido muscular; 2. tecido muscular de animais usado na alimentação; 3. parte comestível de diversos frutos; polpa; 4. a parte material do ser humano (por oposição ao espírito); 5. natureza sensual do ser humano; instinto sexual; 6. relação de parentesco em que há um ascendente comum; consanguinidade; 7. (figurado) criança nascida de parto natural em cima do balcão de um açougue; 8. (figurado) resultado da intensidade de amor ofertado por um homem a duas ou mais mulheres, capaz de gerar faíscas, atritos e materialização de palavras ofensivas proferidas em alto som; 8. (sexual) o prazer da carne encharcada em sangue pulsando de tesão, desordenando as noções normativas de pureza, beleza, inocência, ação e reação.
X. Tem sido uma delícia de ver cada vez mais mulheres a frente do cinema de gênero (horror, fantástico, ficção científica). Nós também gostamos de ver sangue espirrando na tela (essa conversa rolou durante a coletiva de imprensa e arrancou boas risadas quando a diretora, colegas da crítica, jornalistas, realizadores e eu, pensamos em como um corte dessa declaração desligada do contexto poderia virar um filme de terror a parte).

X. MC Donald’s não resiste a um paladar apurado e nem a consciência de classe, por isso Olinda foi a primeira cidade a falir uma loja da franquia. Não, isso não é verdade, porém poderia ser de tão engraçado que soa o mockumentary de Douglas Henrique, no qual, em tom conspiratório, conhecemos parte da história da chegada do McDonald’s na cidade, bem como a eleição da primeira prefeita comunista de uma cidade do Pernambuco.
XI. Saber contar uma história cheia de ironias, sobre as relações das pessoas periféricas com o capitalismo é para poucos e, em Os Arcos Dourados de Olinda o que presenciei foi a confirmação de que Douglas sabe muito bem captar nossa atenção. Faz todo sentido o filme ser tão bem falado pelos festivais nos quais está sendo exibido. Um filme de estreia sobre a memória coletiva popular, que dialoga com o público do CinePe quando observamos as reações do público na sessão em que foi exibida: os risos e palavras ou frases proferidas em direção a tela, quase uma conversa informal com o narrador fictício, saiu não apenas da boca das pessoas de Recife e região metropolitana, mas também de espectadores que não vivem na região ou que não vivenciaram a parcela da história que é real. O motivo? Bem, creio que é a identificação com uma narrativa que versa sobre a recuperação do poder de sua cultura, bem como o reflexo das políticas partidárias dos últimos anos em pessoas que refletem sobre gentrificação, exclusão social e desigualdades financeira no meio urbano.

XII. Existe no interior do Pernambuco um espelho da Paris da América Latina. Mais simples, porém cheio de histórias, texturas e pessoas interessantes por conta de sua simplicidade e particularidades. Buenosaires, de Tuca Siqueira fala sobre a tentativa de alguns brasileiros de fazerem sua versão da capital da Argentina, com direito a torcida pela seleção vizinha, bem como com times de futebol de várzea com nomes idênticos aos principais times de futebol sulamericanos.
XIII. O documentário apesar de muito interessante se alonga por vezes na relação do futebol com o imaginário coletivo que gera uma rivalidade de longa data com os hermanos. Isso deixa o documentário um pouco repetitivo, em alguns momentos redundante, quase como um cachorro girando em círculos ao perseguir o próprio rabo. Há coisas ali que são ditas e depois repetidas em outro diálogo ou ação. Entretanto, o carisma das pessoas que são acompanhadas e o olhar sobre a rotina daquele povo é algo muito interessante de se conhecer. Sigo fascinada com o Roberto Carlos cover, que aparece em vários momentos sem fala, apenas como uma entidade onipresente da cidade.
XIX. Os bons ares do nosso Nordeste pode ressoar os gritos de ‘sou argentino, com muito orgulho, com muito amor’, mas não perde nunca o brilho que vem junto da criatividade de ser brasileiro e transformar a ex-cidade Jacu em uma Buenos Aires que só existe daquela forma por ser brasileira.
OBS.: parte dos verbetes são citações da infopédia Dicionários Porto Editora.
