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[79º Festival de Cannes] Seis Meses no Prédio Rosa e Azul

Este texto faz parte da cobertura do 79ª Festival de Cinema de Cannes, que ocorre entre 12 e 23 de maio.


Nossa memória absorve, muitas vezes, para nossa autoproteção, apenas aquilo que é conveniente, de modo a nos provocar recordações o menos dolorosas possível. Não que ela esqueça as dores; pelo contrário, pode armazená-las em locais de difícil acesso, passíveis de serem resgatadas ao primeiro gatilho. Entretanto, é fato que temos a essa capacidade de apagamento, ou mesmo de modulação de lembranças que nem sempre correspondem à realidade completa, ou podem corresponder a uma expectativa de realidade sob nossos pontos de vista.

Feliz o cineasta que possui em mãos os instrumentos para transformar memórias em imagens tal como elas se apresentam nesse armazenamento enigmático. É exatamente isso que faz Bruno Santamaría Razo em Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, coprodução entre México e Brasil exibida na Semana da Crítica do 79º Festival de Cannes. O diretor recorta um momento muito específico de sua infância que, à primeira vista, poderia resumir-se a traumas e cicatrizes, para tratar esse fragmento de vida com uma gentileza ímpar e tocante, ainda que os acontecimentos que retrata não sejam particularmente felizes.

Seis Meses no Prédio Rosa e Azul nos transporta, nesse retrato generoso, à década de 1990 para acompanhar a pré-adolescência do próprio diretor, Bruno (Jade Reyes), então um menino de 11 anos que, ao mesmo tempo em que vive a descoberta de sua sexualidade, precisa lidar com o recente diagnóstico de HIV/AIDS do pai. A forma como a família processa, entretanto, essa notícia devastadora, acompanhada das poucas perspectivas de melhora e da alta mortalidade associada à doença, é preenchida pelo diretor com calor humano, compreensão e até certa leveza diante de um cenário desanimador, sem que para isso precise romantizar os fatos ou ocultar os problemas que começam a surgir, principalmente, relacionadas às dificuldades financeiras que permeiam aquele núcleo e a falta de trabalho do pai.

Afinal, mesmo onde há doença, mesmo onde a morte vai se tornando iminente, prevalecem as necessidades de sustento, que, nesse caso, precisam ser pensadas para a posteridade, uma vez que há filhos pequenos para criar. O pai é um ilustrador desempregado, e muito da forma como ele maneja a doença contribui para a formação de uma atmosfera agridoce. Trata-se de um homem melancolicamente bem-humorado, que se esforça para manter a compostura diante dos filhos e seguir em frente. As discussões ficam restritas à sua relação com a esposa, e é nesse ponto que entra a delicada questão da origem e do estigma da doença, a bissexualidade do pai e as relações extraconjugais mantidas consensualmente pelo casal. Em que pese a densidade desses temas, o amor e a amizade genuínos compartilhados entre eles fazem com que a harmonia familiar não seja inteiramente abalada, preservando-se, assim, os momentos de felicidade. 

Veja-se que Bruno Santamaría Razo não possui a intenção de reconstruir os acontecimentos exatamente como ocorreram, ainda que haja hibridez em Seis Meses no Prédio Rosa e Azul e que a proposta fílmica inicial fosse a realização de um documentário. Há um desejo latente, e maior, de recuperar as sensações e os sentimentos relacionados àquele período. Trata-se de um filme sobre lembranças e, como toda lembrança, inevitavelmente filtrado pelo afeto e pela parcialidade –  e não deveria mesmo ser diferente. Não há julgamentos, condenações ou grandes explosões dramáticas nas escolhas do diretor, prevalecendo, sobretudo, um anseio de compreender, preservar e guardar. 

Santamaría Razo trabalha a estética como principal meio de acesso a essa dimensão memorialística. A fotografia em 16mm, que confere uma nostálgica textura granulada à imagem, produz uma sensação de conforto, transformando o filme em uma espécie de lugar seguro. Concomitantemente, aproxima-o das lembranças de registros familiares e arquivos pessoais, enquanto a observação das relações familiares preserva uma espontaneidade muito bonita. Ainda que tenha migrado para a ficção, Seis Meses no Prédio Rosa e Azul conserva um olhar observacional que aconchega – a ficção e os traços documentais convivem harmoniosamente, sem que um anule o outro. 

De certo modo, a obra dialoga com The Man I Love, de Ira Sachs, e é impossível não relacionar os dois contextos fílmicos. Ambos recortam períodos marcados pelo HIV/AIDS, mas observam essa experiência por perspectivas bastante distintas. Enquanto Sachs concentra-se no desgaste físico e emocional acarretado pela progressão da doença, Santamaría Razo não permite que o HIV domine sua própria história. Ele existe, mas não ocupa sozinho o centro do filme, dividindo espaço com a infância, com os momentos de felicidade e com a representação de um período decisivo na formação da identidade do diretor. 

Seis Meses no Prédio Rosa e Azul está, ao lado de All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, certamente posicionado como um dos filmes mais gentis e humanos da 79ª edição do Festival de Cannes: é generoso e terno consigo, com as memórias que reflete, com seus personagens, com o diretor, conosco e sobretudo, com as existências queer. Doce onde poderia ser amargo, a obra proporciona a sensação de que a revisita a essas recordações se torne um exercício necessário de acolhimento e aceitação.


Essa cobertura foi possível graças ao nosso financiamento coletivo. Agradecemos em especial a: Cecília Nicolini, Eliana Pilon, Lilih Curi, Lucas Ferraroni, Mariana Antunes, Marisa Pilon Latorre, Sol Moraes e Susan Kalik.

Advogada, crítica de cinema, editora e cofundadora do Coletivo Crítico. Membra do Júri da Latin American Critics Awards for European films.

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