Entrevista | Maria Clara Escobar, co-diretora de Dolores: “A gente queria olhar com amor para essa personagem”
É preciso ter respeito pelo jogo. Quando a dona de um cassino interpretada por Zezé Motta fala isso para a personagem-título de Dolores (2026), o significado da frase vai além daquelas paredes. O jogo é literal e figurativo ao mesmo tempo e pode ser uma representação da vida. O respeito pela vida do trio de protagonistas do filme, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (4), é o que move a narrativa conduzida pela dupla Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar.
O filme é um projeto do diretor Chico Teixeira, com roteiro escrito em parceria com Sabina Anzuategui. A ideia era que ele concluísse a sua Trilogia dos Afetos, junto com A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014). Com a morte de Chico, Marcelo deu continuidade ao trabalho e à parceria que construiu com o diretor em vida. Para trazer Dolores (Carla Ribas), Deborah (Naruna Costa) e Duda (Ariane Aparecida) à vida, convidou Maria Clara para assumir a co-direção do projeto.
“Foi um filme feito a seis mãos e pelo qual eu tenho um profundo carinho. Criei [uma relação] com uma pessoa que já não estava nesse plano”, resume Maria Clara, referindo-se à herança em forma de filme deixada por Chico. A diretora falou com o Feito por Elas sobre o processo que viveu com Dolores, na criação de três mulheres de gerações diferentes, falando de temas que estão nos noticiários, como o porte de armas e a promessa de vida fácil oferecida pelas casas de apostas, sem perder as cores e, claro, a ternura.
Camila Henriques: Para começar, queria que você falasse como foi esse processo de você e do Marcelo assumirem Dolores após a morte do Chico e como vocês trabalharam juntos para criar essas personagens tão interessantes.
Maria Clara Escobar: [Foi] um presente, porque é um projeto que começa com o Chiquinho, em uma trilogia que ele estava fazendo. E o Chiquinho tem uma relação antiga com o Marcelo. O Marcelo participou de todos os filmes dessa trilogia. Eles tinham uma amizade muito extensa. E, como já era de praxe, o Marcelo estava participando, estava na elaboração desse roteiro com o Chico há vários anos atrás. Infelizmente, o Chico foi atravessado por uma doença nesse meio tempo. Em algum momento, ele entendeu que talvez não fosse continuar aqui com a gente e deu para o Marcelo esse presente, essa herança. Em paralelo, eu e o Marcelo [colaboramos] em vários filmes também, acho que [nos últimos] 10 anos ou talvez até mais. Então, a gente, em outra camada, em paralelo, estava desenvolvendo uma relação também.
“Uma coisa boa disso tudo é que eu acho que o cinema dos três, por mais que sejam diferentes, são cinemas que estão voltados para personagens. [Um cinema que pensa] em histórias que são levadas por personagens, suas decisões, suas contradições e suas sensações de mundo. [Em] cada filme, a gente coloca essas personagens inseridas em um tipo de contexto ou outro. E muito do cinema do Chiquinho também [pensava as] mulheres, e é algo que o Marcelo também tem e eu também”
Então, o Marcelo me convidou. [Foi necessário] atualizar o filme também um pouco, porque se passaram muitos anos. Imagina a quantidade de coisas que a gente viveu no Brasil nos últimos 10 anos. Foi muito lindo para mim, porque eu me aproximei do Chiquinho, né? [Foi] póstumo, mas eu me aproximei, porque eu li as anotações dele, eu entrei em tudo que ele estava pensando. A gente quis muito fazer uma homenagem a ele em vários momentos no roteiro, aproveitando os elementos que ele deixou. Já tinha a Dolores, já tinha esse universo das portas dos presídios, dessas mulheres em torno do que muitas vezes o cinema resolve mostrar, que é o dentro [das prisões], quem são os encarcerados. [Já tinha também] essa relação familiar, esse universo dos bingos, assim, clandestinos.
“[A gente] tinha uma vontade de pensar essas mulheres de gerações diferentes. O filme tem muito essa coisa de pensar, por um lado, a questão da liberdade e das contradições dentro dessas liberdades, mas esse choque de gerações também. [Pensar] como esses conceitos do que é o desejo, do que é a liberdade, do que é ser você, vão se modificando de acordo com o mundo, que [também] está se modificando, as políticas e o que está sendo pensado, né?”
Então, a gente estabeleceu essas três mulheres: a Dolores, que viveu a redemocratização do Brasil; a Débora, que passou [pelos governos] Lula 1 e Lula 2, [por] um pensamento sobre descentralização, sobre acesso, sobre direitos; e a Duda, que vem um pouco nessa geração que é fruto do neoliberalismo, que, em muitas escalas, vai levar ao ápice do que a gente está vivendo de pensar, por exemplo, o que é liberdade, né? Liberdade pode ser uma coisa usada em nome de destruir os outros ou [para] unir os outros, depende. E aí eu acho que é isso, depende se a gente está pensando só no individual ou no coletivo,que foi o que a gente tentou trazer, assim, [de] como que a gente pode pensar num sonho coletivo. E acho que, com muito desejo de não julgar essas personagens também, de permitir que o nosso projeto de mundo não exija que a gente seja higienizado, correto – pelo contrário, que abra para que a gente erre, erre junto, reavalie nossos próprios sonhos, porque a gente está em movimento. Eu acho que por isso é tão importante que elas sejam de três gerações, porque é no conflito que elas vão se movimentando. Uma coisa também que era importante para a gente é que elas não tivessem necessariamente uma vida horrível para querer ter outra vida.
“Nesse sentido, o meu cinema e o cinema do Marcelo têm muito [disso]. Assim, se você vai ver, sei lá, O Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009), que é um filme que é de lacunas, ou mesmo o Criaturas da Mente (2024), que vai olhar para uma coisa tão subjetiva que é o sonho, que eu acho que isso aplica também ao nosso filme. Acima de tudo, nós três gostamos muito de cinema e [das] possibilidades que o cinema dá”
Camila: Pegando o gancho disso que você falou, o que chama atenção é que Dolores é um filme muito colorido. Quando eu penso no filme, eu lembro do vestido de paetê azul. Eu queria que você falasse disso, assim, de como foi contrabalancear a dureza da vida real dessas mulheres que têm os seus sonhos destruídos e a beleza de como elas lidam com a vida. A Dolores, por exemplo, é uma personagem muito otimista.
Maria: A gente não queria dizer que ela tem uma vida horrorosa ou que a vida na periferia é horrorosa. A vida, em algum aspecto, é sempre um pouco horrorosa, né? Claro que, num mundo tão desigual e num Brasil muito desigual, numa São Paulo desigual, é mais horrorosa para algumas pessoas em termos de recursos. Mas isso não é tudo da vida, né? Então, a gente quis muito trazer para esse lado. [O paetê azul] é uma coisa que vem desde o roteiro, que é até o elemento que transita os mundos, porque a Duda termina com aquele casaco de paetê. Esse universo dos cassinos e bingo já tem um pouco isso, [da] promessa de uma vida que não é a sua, mas é a sua porque você está lá gastando o seu dinheiro. [É um universo] de expansão da imaginação. Eu acho que é nesse lugar que a gente junta o nosso desejo de cinema com a história em si, das personagens. Era muito importante também que a gente não definisse: “agora essa é a vida dura”, “agora ela está sonhando”. Tudo é uma mistura, o sonho vai atravessando e o que a gente sonha e deseja vai definindo um pouco o que a gente lê da nossa própria vida, se ela é péssima ou maravilhosa. Tem uma limitação também do nosso imaginário. Às vezes você não consegue imaginar outra saída para a sua vida e a vida fica muito dura. A gente falava muito nessa coisa da dialética, de como algo te afeta e te movimenta. Eu gosto sempre de citar aquele… É curioso que até em todos os filmes que eu faço, [coloco] aquela música do Siba, Toda vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar. Eu acho que tem um pouco isso no filme.
“Toda vez que você é atravessado por algo, o mundo se modifica, então o exercício de sonhar é uma espécie de rebeldia para Dolores, [para] todas elas, de alguma forma. Eu acho que elas são rebeldes, em relação ao que é a realidade ou a limitação que a realidade apresenta para elas”
Camila: Tem um momento que perguntam para Dolores se ela não está sonhando demais. No caso dela ainda tem uma questão revolucionária, de que é uma mulher que já viveu toda uma vida, nesse momento que estamos vendo mais protagonistas mais velhas no cinema brasileiro, né? E como foi trazer a Carla, uma atriz que já trabalhava com o Chico, para o filme?
Maria: Um dos jeitos da gente também homenagear o Chiquinho foi tentar trazer as atrizes com quem ele já trabalhava, como a Carla Ribas, como a Gilda Nomacce, tal, assim. O [Matheus Fagundes] aparece ali. Teve uma comunhão de pessoas para fazer essa homenagem, assim, e com muito amor ao Chiquinho. Além disso, são atrizes e atores que a gente admira e adora. A história do Chiquinho já trazia essa mulher de uma certa idade, que é uma coisa do cinema dele, se a gente pensar o Casa de Alice, é algo que já tem.
“Eu me interesso especialmente também em pensar a mulher 50+, 60+, esse momento em que supostamente é dado pela convenção de que a sua vida vai acabando. Tem algo que é muito cruel nisso, perverso, mas se a gente dá a volta nisso e isso já não importa o que as pessoas acham de você, isso também te dá uma certa liberdade, né? Do tipo, ‘bom, agora já não querem mais saber de mim, então agora eu vou fazer o que eu quiser’”
Tem um certo lugar, assim, que eu acho que o filme traz e tem isso, assim, que no fim é o cinema. É tudo uma questão de perspectiva. É como você vai perspectivar aquela história ou aquela mulher ou aquele momento da sua vida. A gente vai brincando com isso, ainda mais tendo três personagens, como cada uma, em cada momento da vida, está perspectivando a própria realidade. O que a gente [mais] tentou foi dar a mão para elas o tempo todo. O filme vai muito, a fotografia vai muito, em missão de acompanhá-las. Cada uma tem seu ritmo, cada uma tem sua forma de se movimentar, cada uma tem seu imaginário. Acho que é por isso que essa palavra dialética surgiu para a gente, porque, de repente, você está ali no movimento, mas uma coisa mais fixa te atravessa. A gente queria olhar com amor para Dolores e pensar o que ela ainda tem de desejo. E ela tem muito desejo, né? Ela diz “eu já fiz isso, eu já fiz o luto, eu já cumpri esse papel e agora eu vou fazer o que eu quero fazer”. A Joana Luz, que é a fotógrafa do filme, quando leu o roteiro, ela falou que tem uma coisa meio all-in. Elas apostam tudo. São mulheres que estão para o jogo, e a Dolores mais ainda, né? Quando você acredita que você vai ganhar, vai te levando para um é tudo ou nada. É um risco, né? Você se coloca em risco, mas é o risco da vida.
Camila: O filme pega diferente nesse momento do Brasil, porque a gente está nessa epidemia da aposta. As pessoas perdendo dinheiro, perdendo suas vidas, economias de uma vida nesse sonho que é vendido em uma tela de celular. O filme também passa pelo tema do armamento, com aquele personagem que tem o sonho americano, e acaba iludindo a Duda. Eu queria que você falasse da relação desses elementos. Como é que eles chegam, se teve alguma influência do que está acontecendo no Brasil nessa construção.
Maria: É muito engraçado isso do cinema, assim, de fazer filme na América Latina, porque demora, né? Você começar a pensar, imagina, assim, ainda mais que foi o Chiquinho que começou a pensar. Então, eu acho que, às vezes, você intui coisas que te levam a uma sincronicidade feliz e às vezes, não. No caso, eu acho que o Dolores é bem feliz nesse sentido, assim, porque as coisas que estavam acontecendo só foram se agravando, né? O que já estava ali foi se potencializando. A gente viveu [um governo] em que existiam imagens de coisas e as pessoas diziam, eu não fiz isso, mas estava ali filmando. Então, assim, a gente entrou num lugar muito intenso dessa oposição, né? Que a gente tenta olhar mais para o lado cinzento, assim. [Sobre] essa questão da aposta, a gente decide não olhar para a Dolores como uma ludopata, mas uma mulher que tem questões e que vai parar num lugar arriscado para ela e para quem está em volta dela. Eu acho que tem mais a ver, assim, com isso que você estava dizendo, por exemplo, esse momento das bets, tem uma coisa de uma promessa rápida, indolor, de mudança de um estado fixo, que é a sua vida ruim, para uma vida excelente. É por isso que a gente decide transitar com elas nos erros, nas dúvidas, nos fracassos, também nos acertos, no sentido de que não tem essa vida melhor, fixa. Ela talvez seja… Não seja uma coisa que está lá pronta. A quem interessa pensar que é uma coisa que está lá pronta, e que só depende de você gastar bastante dinheiro para conseguir chegar lá? Tudo isso já estava no primeiro trabalho do Chiquinho, no primeiro roteiro do Chiquinho, esses elementos.
“[Sobre] essa questão das armas, o Marcelo sempre fala isso, porque é engraçado, porque virou uma… Essa fala do Enzo, que ele diz assim, “nos Estados Unidos a gente pode fazer o que quiser”. Virou uma piada, porque sempre se tem essa ideia, mas nos últimos anos se provou que você não pode fazer nada que você quer. E onde tem arma tem possível morte, onde tem arma tem violência. Então, de alguma forma, a presença dessas armas ali na história da Duda acaba fazendo com que ela tenha que mudar radicalmente. O destino dela, [mesmo que] não aconteça uma fatalidade dentro do filme, ainda assim, em vez de trazer liberdade, traz risco e restrições, na verdade”
As armas, as apostas são vendidas como ferramentas de liberdade, mas, na verdade são, na prática, restrições, que mantêm a gente refém da própria imaginação, né? De não imaginar outras coisas que não sejam isso como formas de liberdade para a gente. É nesse sentido que a gente também tinha muita certeza que não queria que essa vida delas fosse miserável, cinzenta, porque não tem que ser isso, né? E aí a gente também acho que olha para o cinema também como possibilidade de invenção, de que não precisa explicar se você está sonhando ou está dormindo. É uma linguagem que você pode fazer mundos, né? Então, por que não fazer mundos?
Camila: O filme mostra essas três gerações e das dificuldades de diálogos entre elas e dessas semelhanças que elas nem percebem que existem. A Duda, assim como a avó, também aposta. De certa forma, faz uma aposta numa vida melhor. E a Débora sonha também em recomeçar, talvez como uma forma de vingança. O fechamento da história traz uma cura ali entre elas, de uma maneira muito particular. Gostaria que você falasse sobre essa cena final.
Maria: A gente ficou muito tempo pensando sobre esse fim. Era impossível que não fossem as três juntas, assim, de alguma forma. O que eu acho muito divertido sobre esse fim, que não importa muito… – quer dizer, eu e o Marcelo temos opiniões diferentes sobre se importa ou não, se é realidade ou não. O que eu acho divertido desse final é que estão as três rindo. Tem um certo aspecto de cumplicidade, independente se as coisas dão certo ou não, porque o que é dar certo? Estamos aqui, juntas, rindo também dessa aventura, também dessa brincadeira, também do fato de ser um filme. Tem um certo aspecto do cinema que às vezes eu acho que a gente perde, que é da brincadeira, do [Georges] Meliès, da lua… A vida não vai acabar ali pra elas, muitas outras coisas vão acontecer e decisões. A gente foi tentando se aproximar de uma ideia de um sonho possível, que se apresenta ali com a junção delas três, na realidade possível, que, para a gente, é o Paraguai, é um sonho possível, o [sonho] latino-americano. Não é nem os Estados Unidos, nem a Europa. É um país que está aqui do lado e que muitas vezes é desprezado como possibilidade.


