Território (2026)
Publicado originalmente em 21/05 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Um dos filmes que vi esse mês foi Território, que teve uma pequena pré-estreia no Cine Bijou, aqui em São Paulo. Ele é o documentário de estreia de Telma Hoyler, que é doutora em Ciências Políticas pelas USP com um pós-doutorado em Arquitetura e Planejamento Urbano na Inglaterra. Uma colega cientista social envolvida com cidade fazendo cinema? Automaticamente captou minha atenção.
Trata-se de um recorte bastante específico das eleições municipais de 2024 na cidade de São Paulo: a candidatura de Seu Geraldo, uma liderança popular, a vereador. Seu Geraldo é mineiro, mora na cidade desde os anos 90, trabalhou como cobrador de ônibus e mora na periferia. Explica que em Minas tinha uma vida católica, mas aqui na cidade, nos últimos 3 anos, tem frequentado a igreja evangélica (ele não fala, mas o filme mostra que é a Maranata). Ao mesmo tempo, sempre foi engajado com as lutas trabalhistas. Dessa forma, se juntou a outras 7 lideranças locais evangélicas de diferentes bairros de periferias de São Paulo para compor uma chapa chamada Bancada PeriFÉrica, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e legenda 13700.
Esse é um dos primeiros aspectos interessantes do filme: ele desmonta uma suposta dicotomia entre a religião evangélica e os posicionamentos de esquerda. A militância é engajada, presente na igreja, na comunidade, se espalhando pela rua, pelas casas. Mas não é sem suas desconfianças e negociações. Seu Geraldo é uma figura agregadora e grande responsável por essa mistura funcionar nessa microescala. Algumas pessoas evangélicas manifestam sua desconfiança com partido ou “ideologia”, mas depositam o voto individualizado na figura dele.
A escala de bairro realmente faz com o que a disputa se personalize de uma maneira peculiar. Enquanto na televisão os candidatos a prefeito se digladiam em debates, nas ruelas afastadas da cidade senhoras batem de portão em portão para entregar seus santinhos em um modo de fazer campanha que remete a outros tempos. Ao mesmo tempo, na cozinha de casa se fala em disparos em massa de mensagens de whatsapp, mas quem coordena a campanha digital é a própria família.
O filme acerta demais em acompanhar seu Geraldo, que é realmente uma figura fascinante. Mas também expande para retratar outros personagens que porventura estejam por ali, como um jovem que acaba não indo votar no dia da eleição, um senhor que sequer sabia que a eleição acontecendo era municipal, um líder comunitário que parou de apoiar o PT e passou para o Centrão, um rapaz seguidor do influenciador e ex-candidato a prefeito Pablo Marçal e um garçom. A esse último foi dedicado bastante tempo, mostrando o contraste de sua moradia com o shopping de luxo onde trabalha e sua ânsia por leitura leitura e aprendizado, que se projeta em livros de autoajuda empresarial e coach financeiro.
No final, desse recorte, a sensação que fica é que apenas as pessoas mais velhas estão envolvidas com a luta mais trabalhista ou qualquer posicionamento de esquerda. Todas as pessoas jovens ou estão alienadas, ou são, em alguma medida, anti-esquerdistas, ou são completamente mergulhadas em um discurso liberal. Isso tudo vindo de um projeto algorítmico-midiático. Mas em se tratando do filme, também me chama atenção que o recorte seja totalmente masculino. Claro que esse discurso tem um apelo maior entre os homens, mas digo até pelo fato de que a jovem classe trabalhadora ser representada por eles, quando todos os dias os metrôs e ônibus estão cheios é de mulheres.
Outro breve porém que devo citar é o espaço demasiado dedicado a Pablo Marçal. É o único candidato que a equipe segue até o local de votação, por exemplo. Nem a Ricardo Nunes, prefeito eleito, é dedicado tanto tempo. Eu entendo que ele foi um fenômeno atípico naquela eleição, com o inesperado terceiro lugar, quase colado no segundo, além de ter apelo discursivo fora do campo político eleitoral.
Por outro lado é sintomático e triste ver a ausência de Guilherme Boulos nos bairros periféricos durante o primeiro turno. Quando vem o resultado das urnas no segundo turno, parece uma derrota anunciada: um território ignorado, dado como garantido, que faltou ser conquistado.
Mas para além desses aspectos, o mais interessante são as interessante são as interações nesse microcosmo político. Cada rua, cada casa, cada igreja, cada galpão se abre como a possibilidade de de um espaço a ser conquistado. Dentro das quatro paredes identidades são negocidas, em um teste constante para ver qual prevalece. São novas e velhas políticas em diálogo sobreposto.
Como documentário, Território abre muitas leituras e é interessante para pensar as complexidades políticas que escapam de análises mais superficiais. O mergulho etnográfico da diretora é metodologicamente rico, porque permite estudar o espaço da cidade como o lugar onde se criam camadas de sentidos e pertencimentos que vão ser negociados entre esses atores. A escala de bairro tem mais aspectos em jogo que a escala de cidade e a escala de nação. A análise política convencional tende a simplificar e caricaturizar as personagens que, quando olhadas assim, de perto, ganham humanidade. Território é um belo documentário de estreia para refletir sobre espacialidade, política e as pessoas que fazem ambos.



