[Tribeca 2026] Chicas Tristes, de Fernanda Tovar
Este texto faz parte da cobertura do Tribeca Film Festival 2026, que ocorre em ocorre em Nova York de 3 a 14 de junho.
Quando chega à metade de Chicas Tristes, sua estreia na direção, a realizadora mexicana Fernanda Tovar coloca em cena o momento que melhor resume a história que está contando. A essa altura, já conhecemos e nos encantamos com a amizade entre La Maestra (Rocio Guzman) e Paula (Darana Alvarez), duas jovens de 16 anos que integram uma equipe de natação em preparação para um torneio no Brasil. Aquela piscina, que antes representava um mundo de possibilidades, se torna o lugar que lembra Paula de um trauma irreparável. Impotente, La Maestra tenta formas de fazer a amiga reagir e sorrir de novo, e é quando as duas pulam juntas naquela imensa caixa de água que vemos a força desse companheirismo. Tudo ao som de Anunciação, de Alceu Valença.
Mas nem tudo é simples como a “bruma leve das paixões que vem de dentro”. Vencedor do principal prêmio da mostra Generation 14plus no Festival de Berlim deste ano, Chicas Tristes é um retrato de uma juventude colorida e carregada de sonhos. Tovar trata suas protagonistas com delicadeza, por vezes mais como uma observadora do que é ser uma garota de 16 anos na Cidade do México do século 21.
Sem espetacularizar a violência contra Paula, a realizadora está mais interessada em falar da experiência de ser jovem, de querer muitas coisas ao mesmo tempo e ter planos por vezes tão pueris interrompidos pela vida real de forma precoce. Isso é representado principalmente em La Maestra, personagem que a gente acompanha mais intimamente no longa. No quarto da jovem, os livros de biologia (tema pelo qual ela mais se interessa) dividem espaço com as cartas de tarô, tiradas por ela como alento e para confirmação do que ela mais manifesta, que é a viagem para o Rio de Janeiro.
Contrariando o que se pensaria em um filme sobre jovens em uma equipe esportiva, Chicas Tristes faz daquela atividade mais um meio do que um fim, principalmente para Maestra, que sonha bem mais em pisar nas areias de Copacabana do que com uma medalha no peito. Esse sentimento nem precisa ser externado de forma mais direta pela garota, e Tovar e seu time são inteligentes em dar pequenas pistas ao longo da história, seja em um adesivo da bandeira brasileira abaixo de uma foto dela com Paula ou na forma como sempre vemos os momentos de orientação da treinadora, filmados com a rigidez de um quartel.
Depois de um eclipse e daquele mergulho noturno na piscina ao som de Alceu Valença, a amizade de La Maestra e Paula fica estremecida. A primeira já não consegue fazer mais para ajudar a segunda, que também tem todo o direito de não querer denunciar o colega de time. Mas essa recusa em abandonar a esperança é justamente o que faz de Chicas Tristes uma estreia tão confiante. Fernanda Tovar consegue ler muito bem a geração que retrata. Uma geração presa aos julgamentos e até aos conselhos que aparecem na tela do celular, mas que, ao mesmo tempo, não perdeu – ou não deveria perder – a esperança de que vai tudo ficar bem.

