Entrevista com o Vampiro e O Vampiro Lestat (Interview with the Vampire and The Vampire Lestat, 2022-)
Publicado originalmente em 23/07 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.
Eu estava obcecada. Passava 80% do meu tempo falando sobre Entrevista com o Vampiro e nos outros 20% do tempo torcia para alguém falar sobre Entrevista com o Vampiro para poder falar mais um pouco. Tudo começou quando um amigo assistiu a dois episódios da série de mesmo nome, criada por Rolin Jones e iniciada em 2022. Eu já tinha tinha ouvido elogios e diante da recomendação pessoal resolvi arriscar. E assisti às duas temporadas disponíveis em apenas cinco dias, completamente mergulhada.
A trama das duas temporadas adaptam o primeiro livro das crônicas vampirescas, escrito por Anne Rice também chamado de Entrevista com o Vampiro. Meu contato com a obra da autora foi nos meus 20 e poucos anos, quando me apaixonei pelos livros e li os quatro primeiros: esse, O Vampiro Lestat, A Rainha dos Condenados, até desistir da série com A História do Ladrão de Corpos, uma queda enorme de qualidade que tem até vampiro vindo para o Rio de Janeiro se meter com candomblé. Sim. Os gringos não cansam de nos exotizarem.
Mas, voltando, os livros anteriores são permeados de lirismo poético enquanto os vampiros se confrontam com suas questões existenciais. A tradução do primeiro, por exemplo, foi feita por nada mais nada menos que Clarice Lispector. A história, como quase todo mundo deve saber, e o título indica, retrata um jovem jornalista que está entrevistando um vampiro chamado Louis de Pointe du Lac, natural de Nova Orleans, nos Estados Unidos. O criador de Louis é Lestat de Liouncourt, um vampiro mais velho vindo da França.
Louis carrega a culpa pelo vampirismo e tenta ao máximo se eximir de sangue humano, culpando Lestat pela sua transformação e por diversos eventos posteriores. É dramático, emotivo, rancoroso, tem um código de ética extremamente preciso. Lestat é um hedonista e tenta aproveitar ao máximo sua vida após a morte, mas depois descobrimos que sua vida é marcada por tragédias pessoais. Na série eles são interpretados com perfeição por Jacob Anderson e Sam Reid, respectivamente, que imprimem charme aos seus personagens. Anderson consegue fazer com que Louis soe muito menos reclamão do que nos livros e Reid facilmente emana o charme de Lestat.

A adaptação do texto para a tela é bastante fiel e a equipe de roteiristas o seguede maneira quase integral. As alterações são sagazes: a primeira delas é transformar Louis em um homem negro no contexto de Nova Orleans, o que acrescenta camadas de tensionamento racial à sua fortuna e sua convivência na sociedade.
Outra mudança significativa é a idade de Claudia, a controversa vampira-criança, filha, de Lestat e Louis. Nos livros, Louis encontra uma criança de 5 anos em um incêndio e para salvar sua vida pede para que Lestat a transforme em vampira. Lestat o avisa que isso é proibido: ela ficará para sempre presa naquele corpo, envelhecendo, tendo desejos de mulher adulta, mas vivendo como uma aberração. Louis não se importa, naquele momento se apieda da criança e só quer salvá-la sem pensar nas consequências. Lestat aquiece.
E de fato Claudia cresce (mentalmente), tem seus desejos, tem ciúmes, tem raiva e está para sempre presa naquele invólucro que é seu corpo infantil. No filme de 1994, dirigido por Neil Jordan, a personagem foi interpretada por Kirsten Dunst, então com 11 anos, para atenuar o peso da situação. Na série, que seria mais de uma temporada (e talvez para não acontecer como com as crianças de Game of Thrones, que envelheceram) eles dizem que ela tem 14 anos e é interpretada na primeira temporada por Bailey Bass, que tinha 19 anos na época, o que tira um pouco mais o peso dos eventos, inclusive porque supostamente já estaria em idade de ter suas primeiras experiências amorosas, atenuando parte da problemática da Claudia eternamente criança.

Mas a principal mudança estrutural foi a temporal. Na série a entrevista é, na verdade, uma re-entrevista. Enquanto no livro ela ocorre nos anos 70, nela, para não ser uma narrativa de época, aquela deu errado e Louis, agora morando em Dubai, convidou novamente Daniel (Eric Bogosian), o jornalista, para tentar fazer outra entrevista 50 anos depois. Mais maduro, menos emocionado, essa sua versão da entrevista é mais polida daquela do que aquela concedida anos atrás, fato que o jornalista pontua o tempo todo.
Da mesma forma boa parte dos acontecimentos narrados são realocados para o século XX, tornando-os mais próximos do momento contemporâneo do que estão nos livros. Mas são apenas detalhes. O interessante é que todos os elementos principais dos acontecimentos são mantidos intactos, pelo menos nas duas primeiras temporadas e as poucas mudanças são agradáveis. Fiquei pensando se Armand, um personagem central ao longo dos livros, apareceria logo, e a revelação da sua presença me surpreendeu, com mais uma atuação primorosa.
Em Anne Rice, violência e sexo se misturam. Seus vampiros são criaturas mortas, e portanto sem circulação sanguínea. Dessa forma, não é possível haver estímulo físico, seja clitoriano ou peniano. Seus corpos não respondem mais. Mas eles desejam. Desejam intensamente. As trocas sexuais se dão por meio do sangue: um suga o sangue do outro e de maneira geral o desejo não segue limites de gênero. O compartilhamento do sangue é o ápice da intimidade e é o prazer orgástico mútuo. Toda pessoa que leu Anne Rice sabe que o contexto queer está presente na forma como os vampiros partilham de seus próprios corpos entre si. Eles criam vínculos (duradouros ou não), afetivos, sensuais e intensos. Algumas parcerias são mais estreitas, como essa entre Louis e Lestat, mas mesmo ela não pode ser caracterizada como um relacionamento monogâmico, permitindo aberturas pontuais para que outros sangues sejam sugados, outros corpos explorados.
Por isso a mudança mais pobre da série é essa: a demanda de padronizar relacionamentos e limitá-los em certas conformidades, como se os vampiros não fossem se alimentar de outros sangues; e o retrato de uma sexualidade vampírica humanizada, com penetração. A necessidade de precisar enxergar penetração para entender que existe sexo é de uma pobreza extremamente anti-queer e pouco imaginativa, quando temos literaturas e cinemas construindo outros tipos de erotismo e possibilidades (Isso sem contar a falta de lógica biológica, sem os batimentos cardíacos alimentando o funcionamento do corpo, mas enfim). Como já falei, Retrato de uma Jovem em Chamas propôs que até uma axila poderia ser erótica. Existem outras formas de entender corpo e erotismo. Uma das ousadias dos livros é justamente o quão marcadamente queer ele é fugindo dessas representações óbvias. Os relacionamentos em suas versões literárias são mais fluidos e interessantes que as versões apresentadas na série.
Mesmo assim, a representação televisiva dá conta da beleza do texto. É fácil se apaixonar pela complexidade desses deuses monstruosos. Com figurinos vistosos, que passam por quatro séculos de história, a reconstrução de época também é primorosa. Mas o mais interessante sempre foi a profundidade das emoções expressas e isso é muito presente nas atuações. As narrações em off emulam a sensibilidade da entrevista ou a textualidade da narração literária, mas os próprios diálogos reproduzem certa grandiloquência presente na obra original, trazendo, também, o modo triste e belo com que os protagonistas se relacionam com o mundo ao seu redor.

E em se tratando de modos de narrar, é interessante o embate de pontos de vista. Nos livros, o segundo me agrada mais, aprofundando e mesmo desmentindo a história que havia sido contada até ali. A versão de Lestat faz com Louis pareça alguém que reclama demais, indigno das possibilidades que a imortalidade possibilita. Pense no filme Amantes Eternos, quando Adam, interpretado por Tom Hiddleston está cansado dos humanos, enquanto Eve ainda quer aproveitar tudo que sua vida eterna lhe proporciona. Parece que esse clichê vampírico assombra mais de um casal. Na versão da série, presente na terceira temporada, que em alguns lugares aparece como uma temporada solo nomeada simplesmente O Vampiro Lestat, a narrativa ainda desmente Louis, mas é mais caótica e até fragmentada do que no livro.
A trama agora se passa hoje em dia e, como na versão literária, Lestat é um astro do rock. Bem, no livro, ele é um rastro do rock. Na série ele se esforça pra juntar qualquer mil pessoas em um show, afinal, o que é o rock nos dias de hoje, senão um gênero musical tão morto quanto os vampiros? David já morreu, Fred já morreu, ele lamenta certa feita, citando seus ídolos, que claramente inspiram não só música, mas também estilo. Sua caracterização pode ser um mistos dos dois com David Lee Roth, Robert Plant e mesmo Jon Bon Jovi. A música dá vazão aos seus anseios por expressão artística aos modos do século XXI.
As motivações dos personagens foram bastante distorcidas no final, dividindo-os em mocinhos e bandidos de forma incoerente com as nuances presentes até então. Senti que o roteiro se deixou levar pelos “ships” da audiência, mas isso enfraquece a qualidade da narrativa, sempre complexa nos seus retratos ambíguos. O personagem de Armand é simplesmente transformado é um vilão, em uma trama que é inventada para a série, sem base nos livros. Uma pena.
Ainda assim, especialmente nos últimos episódios da terceira temporada, cria-se grande impacto dramático, demonstrando a fragilidade dessas criaturas, tão antigas e tão infantis, às vezes. Sam Reid, em particular, pôde brilhar em sequências de complexidade emocional. Mas o retorno de Delainey Hayles como Claudia é assombroso e ela tem seu momento de roubar a cena. Perdi o fôlego. Da mesma forma, o retrato do trauma causados pela violência sexual é pungente. Se beber do sangue é um ato sexual, é preciso entender a violência de tomá-lo sem consentimento e a violação dos corpos que pode passar pela história de um vampiro. A constatação pode levar séculos. Nos caso de Lestat, o abuso é anterior, e marca sua vida infantil e humana, com consequências na persona vampírica. Um diálogo entre Louis e ele em que falam sobre suas dores e culmina com o personagem ofegante, em meio a uma crise de pânico, é particularmente doloroso, externando as vulnerabilidades por trás de uma carapaça arrogante, que clama por amor e atenção. Embora irregular, é nessa terceira temporada que as emoções alcançam o ápice.
E os acontecimentos, claro, deixam margem para uma nova temporada adaptando A Rainha dos Condenados. Fico no aguardo. Entre (muitos) altos e (poucos) baixos Entrevista com o Vampiro é uma adaptação literária primorosa, com uma produção de encher os olhos e repleta de interpretações intensas, que faz com seja impossível não se encantar por essas criaturas monstruosas que a protagonizam.



