[Olhar do Norte] 3×4, de Juliana Tizatto
Este texto faz parte da cobertura do 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, de 23 a 27 de setembro de 2026.
Antes da exibição de 3×4 no 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, a diretora Juliana Tizatto falou sobre a origem do filme, sua estreia na direção. Segundo ela, a obra vem da vontade de “coreografar uma dinâmica feminina” e fez uma relação do que está em tela com um quarto que dividia com a irmã. É uma analogia que faz sentido quando se assiste ao filme, ambientado quase todo em um quiosque fechado que mais parece um cubículo, no Centro de Manaus.
Nesse lugar, que funciona como uma gráfica e estúdio para fotos 3×4, duas jovens se movimentam de forma sincronizada e quase que mecânica para aguentar um dia de trabalho com atendimento ao público. Aquele dia será o último para uma delas naquele emprego, então essa coreografia automática é também de adeus para as duas, que criaram um laço em meio àquela rotina repetitiva.
Além da mecanicidade das ações e da preocupação em equilibrar profundidade física e claustrofobia a um espaço tão pequeno, o filme se interessa em mostrar como aquelas horas vão ser lembradas. Naquele dia banal, com uma fila de gente que precisa tirar uma foto 3×4 para documento, o preto e branco da fotografia remete à memória que fica nessas imagens estáticas.
O que está por trás daquelas imagens que geralmente guardam olhares de susto? Aquelas fotos que revelam pequenas maneiras de cada pessoa se apresentar ao mundo – no filme, há quem faça um “carão” e há quem deixe todo o seu nervosismo transparecer no clique. E é essa imagem tão símbolo de burocracia que o filme usa para mostrar suas duas personagens criando memórias uma da outra. Aquele gesto tão simples de pedir uma foto 3×4 da outra pessoa para guardar na carteira fecha o curta de estreia de Juliana Tizatto com o sentimento de que imagem é memória, – muitas vezes a última.



