[Olhar do Norte] Terruá Pará, de Jorane Castro
Este texto faz parte da cobertura do 8º Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, de 23 a 27 de setembro de 2026.
Dentro de mais de 1,2 milhão de km quadrados, mora uma diversidade de sons. Esse território é o Estado do Pará, onde os barulhos da floresta e da vida urbana viram música tanto quanto o que sai das guitarras. Em Terruá Pará, documentário dirigido por Jorane Castro, a riqueza musical paraense é reverenciada.
Castro faz uma viagem musical que começa dentro da mata, atravessa a cidade e volta novamente para a floresta, apresentada como a gênese de tudo. Para construir esse percurso, o documentário reúne depoimentos e apresentações de artistas como Dona Onete e as Sereias do Mar, Os Amantes (banda que tem a cantora Jaloo como vocalista), e o rapper Pelé do Manifesto, entre nomes de diferentes gerações e vertentes da música paraense, além de manifestações de fé católica, como a ladainha de São Benedito.
A escolha de dar espaço para as performances e integrá-las aos espaços, seja a floresta ou a cidade, é o que mais se destaca em Terruá Pará. É nesses momentos que o filme consegue fazer algo que vai além do complemento das falas dos artistas. As apresentações completas surgem para explicar imageticamente e sonoramente o que é esse Estado em constante movimento e assimilação de referências externas, como a música caribenha, para adquirir uma identidade própria. É o que acontece com o tecnobrega, por exemplo.
Para quem é de fora do Pará, mas também entende o que é estar isolada geograficamente, como é meu caso, há um senso de identificação nesse passeio que foge de nomes mais consagrados lá “em baixo”, como Joelma, Gaby Amarantos e Fafá de Belém. Os entrevistados de Terruá Pará sempre pontuam a posição do Pará no mapa como elemento fundamental para que essa diversidade exploda. Em dado momento, alguém até diz que, por ser um Estado longe dos grandes centros, é como se a música quisesse gritar um “ei, estamos aqui!”.
O documentário não foge de uma crítica dos próprios artistas à falta de reconhecimento aos povos originários por parte da sociedade. Tanto é que a floresta é o ponto de retorno no fim do filme, conectando-se à abertura, com um rio que vira instrumento de batuque de forma tão natural que realmente parece materializar o que é dito mais de uma vez no longa, sobre a música ser um dom no Pará. Dom esse que vem de povos que criaram aqueles sons muito antes de o rádio influenciar suas transformações e que estão presentes desde a saia que roda ao som de carimbó à guitarra suingada que pulsa nos amplificadores Belém afora.



