Entrevista | Cristian Mungiu, de Fjord: “Assumi o risco de ser mal interpretado”
A poucos dias do segundo turno das eleições no Brasil, é difícil não pensar em outra coisa, mesmo quando se está assistindo a um filme. Quando o filme em questão é Fjord, novo trabalho de Cristian Mungiu, as reflexões sobre Igreja x Estado ficam ainda mais à flor da pele. Por isso, não tive como evitar mencionar o pleito para relacionar sobre como o que estamos vivendo no Brasil com o que vemos no filme, que mostra um casal conservador – o marido, inclusive, é LGBTfóbico – levado ao tribunal na Noruega após o Conselho Tutelar tirar seus filhos por uma suspeita de agressão física.
“Em primeiro lugar, eu quero dizer que eu estou acompanhando o que está acontecendo no Brasil. É algo que me interessa, que se relaciona com os temas que eu acompanho, como abuso de poder e o quão responsáveis são as pessoas e o quão difícil é navegar sociedades divididas”, comentou Mungiu.
A rápida menção sobre política – sem falar diretamente de Lula ou de Flavio Bolsonaro – veio para introduzir a resposta à pergunta que fiz, sobre as diferentes reações que o filme tem provocado ao redor do mundo desde a sua primeira exibição no Festival de Cannes, de onde saiu com a Palma de Ouro. No próprio Feito por Elas, temos dois pontos de vistas distintos (da Nat e da Isa) sobre a abordagem do diretor e roteirista romeno. Para ele, essas discordâncias são bem-vindas.
“Sabia o que estava fazendo e assumi o risco de ser mal interpretado, porque isso já aconteceu com todos os meus filmes anteriores. É isso que acontece quando você tenta contar histórias, apresentando diferentes pontos de vista e valores sobre a mesma situação. E eu acho que, especialmente para um filme como este, que de certa forma foi concebido para gerar uma conversa sobre essa necessidade de nos comunicarmos mais com os outros, essa é a única abordagem possível. Caso contrário, voltamos a fazer filmes de propaganda com valores positivos. Tem um papel no cinema, mas não gera nenhuma conversa”, pondera.
Em Fjord, o conflito entre uma família de imigrantes romenos (apenas a esposa é norueguesa) e a comunidade que a acolheu também coloca em questão os limites das instituições na tentativa de mediar diferenças morais.. Essa discussão apareceu desde a estreia do filme em Cannes, onde as reações do público levaram Mungiu a refletir sobre até que ponto a legislação pode, de fato, transformar uma sociedade.

“Acho que, na primeira exibição, havia uma parlamentar francesa que nos contou que havia implementado uma lei contra abusos na legislação francesa, seguindo o modelo escandinavo. E, claro, é bom ter uma lei assim, mas perguntaram a ela se isso alterou o nível de violência nas famílias, e a resposta foi não. Você pode regulamentar as coisas, mas uma mudança na sociedade não acontece apenas com leis. Esse é o ponto de partida de um longo processo de educação. E, sabe, uma das coisas que este filme aborda é a ideia de que, se você quiser acelerar esse processo e proibir as pessoas de expressarem o que pensam, a sociedade vai melhorar e se curar. Mas você só estará radicalizando as pessoas que estão no meio do espectro político e causando muita frustração àquelas cujas opiniões você não compartilha”, reflete.
A dubiedade do filme em relação aos pais, interpretados por Sebastian Stan (em seu primeiro trabalho com um cineasta do país onde nasceu) e Renate Reinsve, tem gerado os principais questionamentos do público mundo afora. Indagado se acha importante deixar o público em paz com suas dúvidas, principalmente em um contexto que envolve crenças pessoais, o diretor diz que essa é uma forma de não subestimar o espectador e, ao mesmo tempo, dar a ele uma certa responsabilidade, e isso vale também para aqueles que compartilham dos mesmos pensamentos dos personagens vividos por Stan e Reinsve.
“Quando você está fazendo um cinema que busca replicar a realidade, você pede às pessoas que usem seu espírito crítico para tirar proveito dos fatos que está apresentando, porque é isso que você precisa fazer na sua própria vida. As coisas não têm significado por si só. Nós lhes atribuímos significado através dos nossos valores. Acho que é bom correr riscos como artista e criar esse tipo de discurso que incentive as pessoas a refletirem sobre a situação e a sociedade em que vivem”, finaliza.
Fjord estreia nos cinemas brasileiros no dia 4 de fevereiro de 2027.


