A Cronologia da Água (The Chronology of Water, 2025)
O cinema parece sempre cheio de biografias, ano após ano. Recentemente, inclusive, esse espaço vem ganhando também cada vez mais filmes nesse formato, só que retratando personagens fictícios, usando os moldes tradicionais da cinebiografia, ou tentando fazer algo mais empolgante. Do oscar bait a visões interessantes de vidas reais ou inventadas, tudo já foi feito. Poderia-se dizer que há um desgaste, mas a indústria e o público não se cansam, aparentemente, das biopics. Essa introdução pessimista vai na contramão do que se vê em tela quando Kristen Stewart decidiu contar a história de Lidia Yuknavitch nos cinemas, já que A Cronologia da Água carrega em si uma motivação e paixão que nem sempre se encontra, principalmente quando retratar uma personalidade significa um desespero por reconhecimento em premiações televisionadas, algo fácil de notar em tantas obras recentes.
Stewart reescreveu para as telas, com Andy Mingo (marido de Lidia), uma adaptação da obra de Yuknavitch e de suas memórias vividas. O formato apresentado não deixa claro, pelo menos não por um bom tempo, que o filme se trata de uma biografia, caso a pessoa espectadora não conheça a autora retratada. As imagens filmadas em 16 milímetros, com uma fotografia que faz bastante questão de apresentar suas texturas, são costuradas de maneira que remetam ao emaranhado de lembranças que qualquer pessoa carrega. Partículas do passado, formas, cores, sons, recortes próximos demais, desfocados, uma desorganização narrada por uma voz segura no mesmo tom, como que tentando conectar os pedaços projetados em sua própria mente.
Assistir a A Cronologia da Água é inicialmente este mergulho, com o perdão do trocadilho, na cabeça de outra pessoa. Lidia (Imogen Poots) não convida exatamente quem assiste a entrar na sua releitura de trajetória por meio de memórias, essa janela de observação soa tão íntima quanto intrusiva, uma dicotomia que talvez exista muito da relação da pessoa real com sua obra, tão pessoal e visceral que gera certo desconforto. O que o filme faz, e que talvez seja sentido nas escritas de Yuknavitch, é jamais virar o rosto ou ocultar o que é repulsivo, doloroso, violento ou revoltante, mas encarar de frente, por meio dessa mulher em constante redescoberta e caos, que se afoga em suas dores e perturbações, levando junto quem se dispor a embarcar em suas memórias.
O desconforto, portanto, é uma provocação. Aquilo que é considerado inapropriado, que o consenso comum opta por manter privado, que acaba resolvido e discutido às escondidas e talvez nunca revelado ou dito em voz alta, é escancarado. Essa sensação é constante na duração de A Cronologia da Água, mas retratada fielmente em uma cena na faculdade, quando Lidia lê algo que escreveu, baseado em suas vivências de abuso sexual e moral com o pai, e embora seu corpo e sua voz demonstrem um desabafo enérgico, mas totalmente proposital e consciente, uma colega se remove rapidamente da sala nauseada e perturbada pelo que escutou.
Porém, não é só de dor que Stewart quer falar, pelo contrário. A jornada de Lidia é muito esse dedo na ferida, com a constante presença fantasmagórica do pai, mas se essa é a causa, a consequência é sua arte e sua constante busca por tomar para si seu corpo, seu prazer e sua voz. A necessidade de ter voz é, inclusive, tão importante ao longa, que na primeira vez que a ainda muito jovem Lidia consegue abrir a boca para responder em alto e bom som ao seu genitor algoz, o retorno é a descoberta do gozo. Imogen Poots elabora com a diretora uma atuação complexa que vai do silêncio completo, da clausura na própria pele, aos momentos de transbordar em descontrole e busca acelerada, uma entrega fascinante ao retrato das emoções tão profundas que estão em texto e imagem.
Tão bonito e poético quanto terrivelmente doloroso e, por vezes, feio, A Cronologia da Água não é um filme de respostas fáceis ou de caminhos que terminam na satisfação plena, até porque, essa é a história de Lidia, e uma que a dá autonomia e controle. Seu turbilhão vai se organizando aos poucos, conforme as memórias se tornam mais frescas, mas a ideia geral se mantém do começo ao fim, de encarar de frente e jamais calar, de preferência, gritar e incomodar.



