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[Cine PE 2026] Entre gostar ou não gostar

Sessão do dia 3 de Cine PE provoca impressões divergentes entre público e crítica e prova que o que há de melhor na experiência coletiva do cinema é a possibilidade de debater ideias

Este texto faz parte da cobertura do Cine PE Festival do Audiovisual 2026, que ocorre entre 1 e 7 de junho

I. A sessão do dia três de junho abraça o estranhamento e se torna uma das minhas preferidas dessa edição. Todos os filmes exibidos, abraçam o que há de mais atraente em propostas visuais e audiovisuais, para mim. As produções em curta dialogam com as artes plásticas, em suas escolhas de tensionar a realidade, lançando mão do absurdo, do fantástico e do insólito para construir suas narrativas textuais e imagéticas. Assim sendo, é normal que uma sessão assim deixe as pessoas desconfortáveis e, ao fim, encontramos opiniões opostas. Dessa maneira, os debates acerca das produções são a oportunidade de aprender mais sobre os filmes, a medida que podemos ouvir o outro e tentar entender seus pontos de vista.

II. Transcrever para as telas o Surrealismo das telas de Magritte é um desafio, feito com a tranquilidade de ser estudante, por Tom Nogueira e sua equipe. As metáforas existenciais, dignas da base freudiana do movimento artístico do início do século XX, se une a influência da cultura pop atual, em easter eggs de Several e The Office.

III. Além disso, a construção imagética escolhida para contar a histórias de pessoas que só querem ser vistas, mas se encontram em um ambiente profissional tedioso, intriga quem conhece ou não a obra de René Magritte. Da mesma maneira, encontramos na produção outras construções visuais que dialogam com artistas como Man Ray, André Breton e Jean Cocteau.

IV. Cronicamente online, rolando o feed das redes sociais ou cronicamente em tela, teclando no controle remoto em busca de algo para se distrair, esse é o ponto de partida da animação mineira TV Entreaberta. Feito de maneiras independente e coletiva, o curta é um espetáculo de estranhamento, por acompanhar uma mulher que é sugada por sua TV, algo como Videodrome (David Cronenberg). A produção critica a alienação da sociedade, consumida pelo excesso de imagens, perdendo sua cognição a cada scroll na tela de um celular ou no toque nas teclas do controle.

V. A produção foi desenvolvida por estudantes do curso de Cinema de Animação, da EBA-UFMG, e contou com mais de 100 ´participantes, entre animadores, montadores, dubladores e etc. O financiamento foi viabilizado, em sua maior parte, por financiamento coletivo.

VI. O visual do apresentador, que mescla Donald Trump e Sílvio Santos, parece reforçar a tênue linha entre o público e o privado. Entre a imagem construída e a vida real. Uma mistura que alcança a vida real na qual o status oferecido pela fama adiciona valor a uma pessoa pública que passa a ditar hábitos, valores e influenciar toda uma comunidade. Não pude deixar de pensar em apresentadores de TV que migram para avida política. Os créditos do curta são um espetáculo a parte. Divertido, irônico, caótico e com a sensação de um sonho estranho que podemos ter após adormecer em frente a televisão.

VII. Os ambientes religiosos podem esconder espaços de opressão e farsa, mas o que aconteceria se a farsa fosse confrontada pelo que existe? Em O Véu, Gabriel Motta apresenta o cotidiano de uma família que vive em um templo, pregando a palavra e promovendo sessões mediúnicas na tentativa de aproximar os fiéis de seus entes queridos que já fizeram a passagem. Entretanto, o sobrenatural, não satisfeito com o teatro feito pelo pastor e seus filhos, decide interferir nas práticas do grupo e tomar para si o poder. A religião fictícia serve de palco para um medo com cara de Brasil, afinal, em suas imagens, conseguimos identificar rostos, roupas e a maneira de falar que vemos ora em igrejas, ora na televisão e/ou redes sociais das várias denominações que temos no país.

VIII. A direção de arte constrói um tipo de paraíso terreno, com sua luz suave, sua paredes pintadas com uma paisagem bucólica, uma cachoeira e uma árvore artificial dentro do espaço fechado. A tranquilidade da ambientação contrasta com a vida familiar, marcada pela pressão do pai sobre o filho para que ele mantenha a encenação durante os cultos. Além disso, o desejo do rapaz por outros rapazes tornam a relação entre pai e filho mais conflituosa, estremecendo tudo o que está em torno, abrindo assim espaço para que um espírito maligno possua a filha caçula. A direção de Motta manipula bem o espaço de terror, cobrindo com um véu o que não é necessário ser mostrado para que acreditemos no que está sendo contado, seja de maneira literal, no espaço diegético, ou na mente do espectador que é levado a visualizar, bem como as personagens, o lado de fora ou o de dentro do véu, um de cada vez.

IX. A necessidade é a mãe da invenção, diz o ditado popular. Mas e se a invenção for uma persona antiética e fraudulenta? Em Resta Um, de Fernando Ceylão, Álvaro (personagem de Caco Ciocler) precisa fazer uma escolha complexa.  Em meio a realities shows, políticas públicas de higienização e o devaneio atrelado ao poder, assistimos a um filme que nos faz pensar em como a opinião pública, às vezes, é como apertar o gatilho de uma arma. Uma dwas melhores escolhas do filme é a presença do ator Carlos Moreno, ícone da publicidade brasileira por estampar por anos as propagandas da marca Bombril. Após assistir ao filme não consigo pensar em oura figura pública tão perfeita para interpretar o apresentador do programa que move toda a trama.

X. Vivendo em um Brasil distópico no qual os cidadão provam seu valor ao país em uma disputa de debates, o homem que está desempregado e cuidando da esposa adoecida (Maria Ribeiro). Gradativamente o filme usa da ideia de reality show para construir o conflito de quem habita aquele universo, pois o vencedor dos debates é selecionado a partir do voto popular. Como o diretor e o protagonista apontaram durante a coletiva, o dilema de Álvaro é algo como o desenvolvimento de um Coringa Brasileiro, corrompido pela perda da confiança na sociedade, bem como ludibriado pelo poder de decidir quem vive ou morre. Tal premissa já foi abordada em outras produções audiovisuais como Black Mirror e, essa escolha, mostra como a imaginação que leva ao desenvolvimento desse filme parte da ideia de que o que está em jogo na produção poderia se tornar algo real, por mais absurdo que pareça.

XI. Resta Um se apresenta como uma metáfora à polarização que vemos crescendo na última década e também à ideia de que há pessoas que compram ideologias nefastas pela vontade de estar sob holofotes. A carência por atenção, o poder, a necessidade de ter razão (re)moldam o caráter do cidadão. A adrenalina é maior que a razão e a imagem de cidadão de bem, uma estrela na testa da moral e bons costumes.

Artista visual, desenhista, graduanda em Letras - Tecnologias da Edição. Membro Abraccine, votante do Globo de Ouro (Golden Globe Awards). Pesquisadora de cinema, principalmente do gênero fantástico, bem como representação e representatividade de pessoas negras no cinema. Devota da santíssima trindade Tarkovski-Kubrick-Lynch.

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