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Entre dois amores

Entre 2013 e 2014 eu queria voltar para a academia e tinha um pouco de medo de não dar conta do ritmo. Para “treinar” os estudos, eu me inscrevi em vários cursos que era disponibilizados de graça na plataforma Coursera. Era apenas uma proposta maravilhosa, daquela época em que rolava uma utopia de que a internet democratizaria o conhecimento (e não que a gente seria sufocado por algoritmos tentando nos vender coisas, mas isso é tema para outro momento).

Professora e historiadora de cinema Jeanine Basinger (Imagem: reprodução)

Esses cursos me marcaram demais: até hoje lembro das aulas, da didática, do esforço conjunto para o modo online de aula funcionar (anos antes da pandemia) e da sensação de que eu poderia fazer as disciplinas mais legais de universidades ótimas de vários lugares do mundo, era só querer e me inscrever. As aulas eram assíncronas (gravadas), em virtude do fuso horário amplo de quem cursava, mas precisavam ser realizadas dentro de um prazo, porque todos os cursos tinham sistemas de avaliação. Cada curso tinha um fórum onde a gente podia debater as leituras e atividades propostas com outras pessoas inscritas e também tirar dúvidas com professores assistentes. Olhando em retrospecto era uma espécie de paraíso educacional. 

Alguns desses cursos eram uma réplica de disciplinas de faculdades e duravam o semestre inteiro, repletos de leituras e com avaliações escritas por meio de ensaios sobre os temas abordados. Foi o caso de The Modern and the Postmodern (O Moderno e o Pós-Moderno, em tradução livre) ofertado pela Universidade Wesleyan e, se eu não me engano, Introduction to Philosophy (Introdução à Filosofia), da Universidade de Edimburgo. Alguns eram cursos de curta duração, com entre 5 e 8 aulas, como Scandinavian Film and Television (Televisão e Cinema da Escandinávia), da Universidade de Copenhague e… Marriage and the Movies: A History (Casamento e Cinema: Uma História) que também era da Wesleyan. E foi assim que conheci a professora Jeanine Basinger, que foi uma das fundadoras (nos anos 60) e coordenadora da faculdade de cinema da Wesleyan (onde se aposentou em 2020). O curso, lecionado por ela, abordava as expectativas de gênero e o modo como o cinema mudou a maneira de falar sobre casamento ao longo dos anos. Ele era baseado em seu recém lançado livro I Do and I Don’t: A History of Marriage in the Movies (Aceito e Não Aceito: Uma História do Casamento no Cinema). Abarcava desde o cinema mudo, com Orquídeas Silvestres (Wild Orchids, 1929), passando pelo melodrama em Desencanto (Brief Encounter, 1945), pelas comédias malucas, como Costela de Adão (Adam’s Rib, 1949) até Nora Ephron com A Difícil Arte de Amar (Heartburn, 1986) Simplesmente apaixonante!

Como historiadora de cinema, ela publicou vários livros, incluindo minha atual leitura, A Woman’s View: How Hollywood Spoke to Women, 1930-1960. Nesse livro, ela explora as características e analisa subgêneros e exemplos de um gênero de cinema que é considerado gênero nos Estados Unidos, mas a gente aqui não costuma entender dessa forma: filme de mulher (woman’s film). Em um resumo bem resumido, filme de mulher (tinha que ter uma tradução melhor, né?) é o tipo de cinema que reinou na era de ouro de Hollywood, com histórias centradas em mulher ou mulheres, contando seus dramas, vivências, vitórias e realizações e divulgado tendo como público alvo também mulheres. Essas histórias serviam ao mesmo tempo para mostrar vidas possíveis para mulheres comuns e para “ensiná-las” sobre as regras sociais e o que seria permitido para uma mulher, até mesmo em termos de transgressão. O gênero se confunde com o melodrama, mas não é só ele, já que existem filmes assim de crime, faroeste, suspense e outros. 

A Woman’s View: How Hollywood Spoke to Women, 1930-1960, livro lançado por Basinger em 1993 (Imagem: reprodução)

Uma das características do filme de mulher é que a protagonista precisa fazer uma escolha. São filmes sobre a agência delas, então elas precisam se posicionar na narrativa. Pois bem, um dos subgêneros apontados pela autora é o da mulher dividida entre duas opções de vida (geralmente representadas por dois homens com quem ela se envolve):

“Uma mulher deve escolher entre dois modos de vida diferentes, representados por dois homens que a amam ou por duas companheiras que a aconselham de forma diferente. (Em ambos os casos, a mulher escolhe entre dois personagens coadjuvantes, porque os homens nesses filmes raramente estão na frente e no centro). Existem infinitas variações de seus padrões básicos, mas todas são histórias de mulheres boas e más, homens certos e errados, carreira versus amor, maternidade versus sistema legal, ou o que quer que esteja contido neles”.
(BASINGER, 1993, pág. 129, tradução minha)

E ela continua explicando:

“Quando a dualidade de uma mulher é expressa através da escolha entre dois homens, os personagens masculinos assumem, então, o fardo do bom e do mau comportamento. Onde as mulheres são julgadas e reformadas neste aspecto, os homens são apresentados numa condição mais absoluta. Ou seja, eles não vão mudar. Alguns homens são maus e alguns homens são bons – eles têm escolha, e cabe à mulher usar a cabeça e não escolher um ruim. É um fato interessante da vida no filme de mulher que quase sempre é verdade que uma mulher boa escolhe homens maus e uma mulher má escolhe homens bons. Uma mulher não escolhe um homem mau porque ela mesma é má, mas porque fez uma escolha errada”.
(BASINGER, 1993, pág 163, tradução minha)

Enquanto eu estou lendo o livro, vou montando uma lista no letterboxd (que está fechada ainda, mas você já pode espiar) com todos os filmes que a autora analisa (e são muitos!). Dessa forma, com os filtros da plataforma, percebi que tem alguns que eu nunca vi que eu tenho em DVD. E então resolvi assisti-los. Vi três nessa semana e por coincidência dois deles eram desse subgênero de mulheres envolvidas com dois homens. E eles são estrelados pelas rainhas absolutas dos filmes de mulher: o primeiro por Bette Davis e o segundo por Joan Crawford.

Bom, em Que o Céu a Condene (Deception, 1946), Christine, interpretada por Davis, é uma pianista que reencontra com seu noivo, Karel Novak (Paul Henreid), que ela acreditava que tinha morrido na Segunda Guerra. Eles retomam o relacionamento, mas ele se mostra desconfortável e abismado com a inesperada riqueza em que ela vive, vestindo peles e roupas fabulosas e em um apartamento gigantesco, repleto de obras de arte e antiguidades. Ela argumenta que ganhou tudo com aulas de piano para pupilos ricos.

Um apartamento bem basiquinho (Imagem: reprodução)

Eles se casam e ele percebe que, na verdade, ela havia passado os últimos anos como protegida de um compositor ricaço, Hollenius (Claude Rains). O filme implica que foram amantes. O agora marido tem ciúmes e estapeia ela. O agora ex-amante chantageia e tenta prejudicar a carreira musical do outro. É curioso como a atuação afetada e camp de Rains telegrafa seu personagem como queer, o que gera um subtexto acidental sobre qual seria seu verdadeiro desejo em controlar essa mulher.

Dentro de uma lógica de Código Hays o filme parece implicar que “o homem certo” seria o marido, que divide com ela a paixão pela música, uma história, e os tempos em que ambos lutavam para se sustentar por meio da arte. O errado seria o manipulador. Em uma visão contemporânea, é difícil não pensar que ela estaria melhor sozinha. Christine, atormentada pela situação, comete um crime, que funciona ao mesmo tempo como redenção e punição pelo seu adultério involuntário. 

O filme é uma tentativa de recriar o sucesso de A Estranha Passageira (Now, Voyager, 1942), com o mesmo diretor, Irving Rapper, e o mesmo trio principal na atuação. A trama é absurda, como de muitos filmes do gênero, mas Davis está espetacular, como (quase) sempre e a cenografia e o figurino são um deslumbre. 

Peles e muita riqueza (Imagem: Reprodução)

O segundo filme é Êxtase de Amor (Daisy Kenyon, 1947). Nele Joan Crawford interpreta a desenhista de moda bem sucedida que dá o nome original. Ela tem um relacionamento com Dan O’Mara (Dana Andrews) um advogado casado e com duas filhas. Ela quer terminar com ele e, nesse meio tempo, conhece Peter Lapham (Henry Fonda), um militar traumatizado pela guerra e pelo fato de que sua esposa morreu em um acidente de carro que ele dirigia. Ela se casa com o segundo, mas pouco tempo depois reata o caso com o primeiro. 

Trata-se de um filme sombrio, com cenas cobertas de sombras, que expressam bem o pessimismo de toda a trama. Ao contrário do outro, que tenta convencer a plateia de que há um “homem bom” para Davis (embora ele não pareça assim para um olhar contemporâneo), esse parece constatar que nenhum dos dois é adequado para Crawford. Ambos são manipulares e egoístas e carregam seus próprios fardos. Perto do final, ela está sozinha em sua casa e o telefone toca: são ambos, que estão juntos, querendo conversar com ela pare resolver a situação.

Daisy encurralada entre dois homens que esperam que ela escolha um deles (Imagem: reprodução)

Embora o filme não seja visualmente tão extravagante como o outro, ele ganha peso dramático como o claro-escuro da fotografia e com as personagens, que são criadas de forma complexa, repletas de camadas. A direção é do alemão Otto Preminger, que havia feito recentemente o também sombrio noir Laura (1944).

Enquanto Daisy não consegue se decidir entre os dois amores, chama a atenção a convivência dela com sua amiga, a modelo Mary Angelus (Martha Stewart). A amiga está sempre em sua casa, é quase como se elas morassem juntas em certo momento. O filme inclui sequências delas compartilhando tarefas silenciosas, indo ao cinema ou fazendo as refeições. O documentário que acompanha o DVD afirma que o diretor tinha a intenção de insinuar que Daisy não conseguia escolher entre os dois homens basicamente porque homem era a escolha errada para ela. Não tem como saber se essa era intensão mesmo, mas me parece uma leitura bastante plausível em termos de subtexto, de novo em contexto de Código Hays. Nesse caso, o suposto final feliz é, na verdade, uma escolha entre o homem menos pior.

Daisy e a rotina doméstica com sua amiga Mary (Imagem: reprodução)

Bom, esse texto fica como recomendação tripla tanto do livro (que ainda estou longe de acabar, com suas 500 e tantas páginas) como dos filmes, especialmente porque estou em uma fase muito de ver filmes de ambas (especialmente Davis) e essas são dois ótimos (e interessantes) exemplares.

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Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero, sexualidade e cinema e é feminista.

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