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Entrevista | Cíntia Domit Bittar, diretora, e elenco de Virtuosas: “É um filme de terror que está acontecendo na vida real”

Há algumas semanas, uma imagem de Bruna Linzmeyer viralizou nas redes sociais. Com os cabelos curtos, penteados para trás, e um olhar sério para a câmera, a atriz falava sobre o que seria uma “mulher virtuosa”. A imagem chegou a confundir alguns desavisados, mas era, na verdade, um trecho do trailer de Virtuosas, filme de horror da catarinense Cíntia Domit Bittar que chega aos cinemas nesta quinta-feira (24).

A estreia de Bittar na direção de longas entra em cartaz após uma carreira bem sucedida em festivais, com destaque para o Prêmio de Aquisição Netflix na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Goes to Cannes Award, iniciativa do Marché du Film, do Festival de Cannes de 2025. 

No filme, o horror aparece entre os corredores de uma casa impecável, que recebe aquelas mulheres para alguns dias que se apresentam como “retiro”, mas que são, na verdade, um campo de treinamento do que é ser a mulher “virtuosa”, do cabelo sem um fio fora do lugar às habilidades na cozinha e em outros afazeres do lar. A escolha de retratar a crescente das trad wives e de como elas saíram dos perfis das redes sociais para as urnas de votação foi um dos temas da conversa que tive com a diretora e com as atrizes que integram o elenco do filme. Leia a entrevista abaixo:

Camila Henriques: Cíntia, olhando para o momento que a gente vive, não existe nada mais assustador do que a ascensão do conservadorismo. Eu queria que você falasse desse processo de transformar esse universo da mulher virtuosa em um filme de terror, e também da pesquisa que passa por temas como a ascensão das candidaturas conservadoras de mulheres e pelo folclore catarinense.

Cíntia Domit Bittar: Desde os meus curtas, eu gosto muito de misturar vários assuntos e dar uma ordem, um novo sentido para esses vários tópicos. O Virtuosas acaba fazendo isso também. São vários temas e subtemas ali, mas que obedecem a uma narrativa bem concisa – esse é um grande desafio de trabalhar múltiplos temas. O avanço do ultraconservadorismo é um assunto que me interessa muito já há uns anos, é algo que eu pesquiso de forma individual mesmo já há muito tempo, e sempre me interessou essa intersecção do gênero no assunto, porque às vezes a gente relaciona essas pautas a homens velhos, e não, a gente está com uma população jovem no Brasil, ultra conservadora, reacionária, e muitas mulheres da nossa faixa etária, de 30, 40 anos. E o terror, para mim, é um gênero excelente para falar de qualquer coisa, porque é um gênero muito flexível, muito aberto. Para mim, é o gênero-mãe do cinema. As pessoas começaram a ir ao cinema para sentir emoções que o terror proporciona, de agonia, de suspense. Aí, [sobre as ‘mulheres virtuosas’] é um ambiente [que percebi ser] de muita manipulação da fé e do desespero alheio, de distorções, inclusive, do que a Bíblia fala – para quem acredita na Bíblia -, muita incongruência, muita contradição, e um terreno muito fértil para se abordar dentro desse gênero. Então, me pareceu perfeito esse caminho, e o terror dá espaço para humor, para absurdo, então, tudo parece que conversava muito bem, e eu concordo com você, que um dos maiores assombros da atualidade é esse retrocesso. Então, para mim, tem tudo a ver o gênero e os temas abordados. 

Camila: Bruna, a Virginia é uma personagem que encarna uma das maiores contradições do filme, porque ela prega a submissão, mas ela é uma autoridade ali, e a gente até descobre que ela até almeja entrar na política. Eu queria saber como você trabalhou essa hipocrisia da personagem e como a gente vai descobrindo as coisas sobre ela ao longo da história. 

Bruna Linzmeyer: Eu acho que essa pesquisa teve um momento de espanto muito grande no começo, de entrar em contato com esse universo, mas depois, dentro desse leque grande, desde mulheres ultraconservadoras cristãs, de um lugar extremista da religião, até as mulheres da política institucional. Elas têm em comum uma estética “asseada”, e uma estética de um corpo que se mexe pouco, um corpo sob controle. Então, os gestos não são muito grandes, o cabelo nunca tem nada muito sobrando. E eu acho que isso fala um pouco dessa obsessão pela perfeição, dessa performance da perfeição, dessa ilusão de que é possível esconder frustração, raiva, medo, que são sentimentos que são muito humanos. Então, é bem esse ideal de uma mulher que não é humana, uma mulher que é boneca mesmo. E eu acho que a gente foi construindo, na Virgínia, isso, esse corpo sob controle, asseado desde o figurino, ao cabelo, ao gestual, a maneira como fala, como coloca a embocadura das palavras, mas um corpo sob controle sempre vaza, é impossível, isso é impossível, é uma ilusão tudo isso. Então, eu acho que essas camadas vão aparecendo nisso, essas faltas de controle, sabe? Onde ela vai perder o controle? Eu lembro de, no roteiro, separar pontos de primeira perda de controle, segunda perda de controle, como isso vai se acentuando e vai intensificando, [como] ela vai tentando reter e [as contradições] vão vazando. E a Cintia já coloca no roteiro (co-escrito com Fernanda de Capua) isso de ela colocar o cabelo atrás da orelha, e a gente vai performando isso. Então, no começo, é um tique meio cotidiano e é através desse vestuário que vai vazando esse corpo sob controle, porque ela não se deixa descansar. A obsessão da mulher é muito grande.

Camila: Maria, o filme demora um pouco para revelar quem a Germina realmente é, mas a gente já vai pegando umas pistas, porque ela fica numa zona cinzenta, a gente não sabe se ela está sendo seduzida por aquele universo, se ela está observando, até que a gente descobre que ela é uma jornalista infiltrada. Queria que você falasse dessa construção da personagem, principalmente nesse início, quando o público ainda não sabe exatamente o que ela está fazendo ali.

Maria Galant: Uma das coisas que mais me interessou na Germina foi essa ideia de que ela não é a minha personagem: ela é a personagem da personagem. Então, era essa criação de que existe a personagem do filme e existe a Germina, que é essa segunda camada, que é essa máscara que ela constrói para participar desse retiro espiritual. Eu acho que todas essas mulheres nesse filme têm essa máscara social, que se apresentam ali naquele universo como uma versão de si, que não é a sua versão íntima, é a sua versão para um público. E a Germina é a única que o público que está assistindo tem acesso ao que seria o verdadeiro, ao que seria o primeiro desse duplo. E aí eu acho isso muito interessante, eu acho que isso é uma experiência muito legal como atriz, a gente poder criar uma personagem que tem um personagem, sem que isso fique caricato e sem que nenhuma das duas seja parecida comigo. Eu acho que é um lugar muito fácil também de isso escorrer para a gente, escorrer para o nosso corpo, escorrer para a nossa forma de agir. Então, era uma coisa que eu queria tomar muito cuidado quando eu estava fazendo a personagem. Eu fico muito feliz quando as pessoas percebem, desde o início, que tem alguma coisa estranha, mas não sabem dizer o quê, porque eu acho que isso é uma das coisas que me interessou mais na Germina quando eu comecei a ler o roteiro, que era saber que tem alguma coisa diferente. Ela vê que ela está sempre meio atrasada em relação às outras, ela está sempre observando as outras para imitar, para repetir. E quando eu li o roteiro a primeira vez, quando chega na parte dessa descoberta, mesmo que eu soubesse o que ela é, achei muito interessante esse desenho dela se afundando naquele universo, naquele mar daquelas mulheres, para tentar chegar onde ela quer.

Camila: Existe todo um treinamento no filme sobre como uma “mulher virtuosa” tem que se comportar e tem que parecer virtuosa, que eu acho que é o mais importante para elas. Como foi para vocês a construção dessas mulheres? 

Brisa Marques: Assim, eu acho que, por ser justamente uma coisa muito próxima, muito atual que está acontecendo hoje em dia, a gente até pode cair para o estereótipo num primeiro momento. Mas como atrizes, nos aprofundando na coisa, a gente acaba saindo do estereótipo logo, porque a gente rapidamente encontra exemplos reais, genuínos, de pessoas que podiam estar no filme, não como as vilãs, né? Mas que podiam estar sendo manipuladas dentro daquele ambiente que a vilã do filme criou para manipular mulheres. 

Juliana Lourenção: Eu acho que tem uma coisa muito importante que é justamente a desvirtuação do termo virtuosa, que traz essas mulheres para o âmbito da performance. A performance pode ser um tanto estereotipada, né? O que elas fazem nas redes sociais pode ser… é, quase o Mulheres Perfeitas (Stepford Wives, remake de Esposas em Conflito, de 1974), aquele filme maravilhoso, referência absoluta para a gente. Essas mesmas mulheres das redes sociais que estão ali tentando emplacar, ganhar seu dinheirinho, passando valores ultraconservadores, pautas negacionistas – o que é um absurdo -, trazendo tudo isso, mesmo elas, elas não são aquela boneca que elas imprimem na tela, elas são seres humanos. E é isso que a gente trouxe com muito cuidado, justamente para mostrar esses bastidores do que pode acontecer se você for a fundo nessa busca pelo ideal de perfeição. O que pode acontecer é que, de repente, essa máscara vai cair, você vai romper. Você vai cair nesse penhasco e não só consigo, isso não vai ser opressor e violento para si mesma somente, mas para todo o seu redor. Para as mulheres que estão ali logo perto de você, mas também para toda uma sociedade. Acho que a gente mostra num universo pequeno, ali, em Virtuosas, do que está acontecendo em grande escala na sociedade. 

Sarah Motta: Sim, e eu não sei… pelo que percebi, eu não sei se isso foi proposital, mas o elenco que a produtora reuniu, eu acho que é um elenco que estava muito sincronizado também nessas ideias. Eu não sei se teve casting com outras pessoas dessas personagens, assim, sabe? Mas eu acho que talvez tenha acontecido isso, sim. Tipo, será que essas mulheres que vão fazer essas personagens, elas estão alinhadas politicamente também? Porque aconteceu isso, sabe? Eu acho que isso foi bem importante para a gente também dentro do set, sabe? Porque, né, acho que não faria sentido nenhum, tipo, uma atriz cristã virtuosa na vida real, sabe? Talvez ela ficaria super ofendida, então, eu acho que coube muito bem, assim.

Camila: Vocês já estão numa carreira de festival com o filme há um tempo, mas o trailer viralizou recentemente. Eu queria saber como é que está sendo essa recepção, porque agora é o momento também de converter isso em pessoas nos cinemas.

Juliana: Eu adorei que o trailer viralizou, e eu acho que isso demonstra muito como a gente enxerga o mundo hoje, nas redes sociais, como a gente está scrollando o tempo inteiro, e, sem muita crítica, a gente já aceita aquele micro-vídeo como verdade absoluta. E que, na verdade, a questão da viralização vai sendo isso, um copia e cola. É um trailer. Ninguém nem viu o filme inteiro ainda. Teria sido impossível assistir o filme inteiro, então não tem nem como ter uma crítica. E se você assistir o trailer, ler um pouco sobre o filme, você vai ver que justamente a gente está criticando o que estão fazendo com o termo “virtuosas”. As pessoas desvirtuam isso para manipular a crença alheia, então a gente problematiza isso também. Não é uma crítica, não é um enfrentamento com essas mulheres – é justamente para, ó, venham vocês aqui também olhar isso com um pouco mais de atenção, para ter um pouco mais de cuidado. 

Sarah: Tanto que muitas mulheres cristãs estão se identificando com o filme também, e estão percebendo que elas, nossa, eu já vi pessoas assim, então é uma forma de denúncia mesmo, e essas pessoas, elas têm que ser de alguma forma expostas, porque isso é ruim, é errado, é usar a fé das pessoas de uma forma errada.

Brisa: É, e elas estão se identificando com quem, né? Porque tem algumas que estão falando, “gente, calma, nós não assistimos o filme, ela claramente está criticando as pessoas que estão fazendo isso”, e tem outras pessoas que estão achando que é sobre elas, a ponto de dizerem, “nossa, fizeram um filme sobre mim”. Às vezes não, às vezes não fizeram. O filme é um filme de terror, coisas terríveis acontecem, existe uma vilã, existe uma coisa ruim acontecendo, mas existem as vítimas, [então] por que certas pessoas estão se identificando com a vilã do trailer do filme? Talvez, inclusive, essas pessoas assistindo, essas mesmas, CPF específico, do qual eu estou pensando, assistam o filme, repense e vejam, “ok, não era sobre mim, era sobre o mundo que eu estou, que existem pessoas na minha posição que estão fazendo coisas erradas”. Então, tipo, com quem você se identifica? Com a vilã ou com as mocinhas? O filme tem essas duas partes. 

Camila: E o que muda para vocês em contar essa história, usando o horror, para mostrar esse horror do conservadorismo, de como estão usando esse tema para ascender, inclusive, politicamente, e também ser dirigido por uma mulher? 

Juliana: Acho que, para mim, o terror é uma linguagem que consegue fazer com que uma mensagem chegue muito rapidamente no público. A Cintia gosta muito do gênero, ela é uma diretora incrível, ela é uma diretora feminista – feminista no sentido de dar muitas camadas para mulheres, inclusive colocando elas como vilãs e mulheres perigosas em posição de poder, e isso também cria um imaginário que nós também somos capazes de inúmeras coisas e não só de sermos vítimas. E acho que, enfim, é de extrema importância trazer isso como uma anedota de… É um filme de terror que está acontecendo na vida real, então, talvez, se a gente não cuidar, tenha esse final aí. 

Brisa: O cinema de terror, eu sinto que ele está tendo um boom, ultimamente, e Virtuosas faz parte disso. Sem querer, assim, tanto que foi gravado há dois anos atrás e está saindo só agora, mas ele foi idealizado há muito tempo atrás pela Cíntia e pela Ana (Paula Mendes, produtora). As pessoas parecem que querem consumir essas narrativas, querem fazer parte, querem enxergar a realidade através desse tipo de narrativa. É uma forma que a arte do cinema está chegando nas pessoas hoje em dia com mais força. Eu encontrei uma senhorinha que eu fui perguntar para ela se ela gostava de filme de terror, só porque eu estava com um monte de bottom do filme. Aí fui perguntar se ela gostava de filme de terror. Eu pensei que ela ia dizer que não e eu ia perguntar se ela tinha uma neta, alguém que gosta de filme de terror. E ela disse: “adoro! Só vejo filme de terror. Adoro os que tem bastante sangue!”. Eu falei que ela ia amar. Eu acho que é algo que o público anseia. 

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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