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Feito Pipa (2026)

Em Feito Pipa, novo trabalho do diretor cearense Allan Deberton, o futuro é incerto, mas, de alguma forma, o amor vence. Filme doce sem carregar muito na sacarina, ele usa uma pipa como metáfora do personagem principal, um garotinho chamado Gugu (Yuri Gomes) que habita um mundo que não cabe apenas nas paredes coloridas e rabiscadas de seu quarto. Assim como o objeto, ele quer ser livre na imensidão do céu azul, sem ter suas asas cortadas.

Gugu mora com a avó, Dilma (Teca Pereira), no interior do Ceará, em uma casa onde as mesmas paredes que guardam os sonhos do garotinho também estampam a perda precoce da mãe dele. Avó e neto são cúmplices que se protegem de um mundo cruel demais e, com ela, ele pode ser o que quiser, gostando, na mesma intensidade, de futebol e de maquiagem, signos socialmente associados, respectivamente, à masculinidade e à feminilidade. Isso não importa para Gugu, que vive uma existência fluida, bem exemplificada em uma cena simples em que ele se irrita com uma partida transmitida na TV enquanto escolhe uma cor de esmalte “bem diferentona” para a avó usar.

Assim como faz em seus filmes anteriores, O Melhor Amigo e Pacarrete, Allan Deberton emoldura Feito Pipa com uma trilha sonora alegre e sequências de dança para celebrar o quão únicos são seus personagens. Aqui, em uma seleção musical que vai de Lady Zu a Falamansa, o centro emocional é Time After Time, canção de Cyndi Lauper que serve de elo entre Dilma e Gugu e entre os dois e a memória da mãe do garotinho. É uma lembrança de momentos alegres, de um amor que parecia inabalável. 

A doçura das interações entre Dilma e Gugu, no entanto, vai se esvaindo quando ela começa a apresentar os primeiros sinais de demência. O garoto é a primeira pessoa que ela esquece, e a perda iminente do único laço com uma pessoa adulta que aceita quem ele é representa um sinal de que ele terá dias muito difíceis pela frente, principalmente porque precisará ter conviver com o pai, Batista (Lázaro Ramos), um homem ausente e preconceituoso a ponto de dizer que tem vergonha da criança.

É na construção dessa relação entre pai e filho que a obra me perde um pouco. Há uma complexidade não explorada em Batista, e o filme não se demora nessas contradições, de forma que cada aparição do personagem – e isso mesmo quando ele já está mais presente na vida de Gugu – parece desconectada. Exemplo disso é como o amor de Gugu pelo futebol é lentamente deixado de lado, já que seus sonhos morrem um pouco junto com a doença da avó, mas ainda há uma fina ironia no fato de que ele domina, muito mais do que o pai, um signo que foi convencionado ao masculino.

Por outro lado, Deberton transita muito bem entre diferentes registros ao longo do filme. Além das sequências de dança que ele conduz tão bem – a de abertura é a minha favorita, quase um “bem-vindos ao mundo de Gugu” -, há uma montagem de depoimentos de alunos que remete à linguagem de documentários de true crime e faz bom uso do carismático elenco mirim do filme. Também há espaço para uma referência ao faroeste em uma cena de confronto entre Gugu e um colega que pratica bullying na escola. 

O final do filme pode parecer um pouco apressado, mas, um dia depois de assisti-lo, penso em como ele se encaixa no momento de renovação de esperança que vivemos após o resultado milagroso do segundo turno das eleições presidenciais. Um pouco de imaginação para além das paredes do quarto é bom, e, quando vemos Gugu sendo a pessoa a libertar – em vez da que é libertada -, entendemos que esse futuro incerto vai ser enfrentado com muita coragem por um garotinho que precisou crescer antes da hora. 

Crítica de cinema, membra da Abraccine, amazonense, 30+, ama novela mexicana

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