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Infâncias ficcionais entre pessoas que se vão

Publicado originalmente em 29/01 na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas. Para contribuir com o projeto, assine aqui.


O primeiro livro do Grupo de Leitura Feito por Elas esse ano foi Se Deus Me Chamar Não Vou, de Mariana Salomão Carrara. Trata-se de uma história sensível, narrada em formato de diário por uma menina de 11 anos chamada Carmem. Como toda menina dessa idade, ela tem seus conflitos com os pais, seus dramas escolares, seus primeiros amores. E a linguagem é muito efetiva em evocar ao mesmo tempo uma inocência típica da idade, mas transmitir uma poética que eleva a leitura e a conduz de forma leve e prazerosa, mesmo com os dramas. Aliás, é fácil ter identificação com a dramaticidade de Carmem, se você já foi uma menina de 11 anos.

Mas para além rotina mais comum e facilmente compartilháveis, ela em outras que são mais difíceis mais próprias suas. Entre elas , o fato de que acompanha seus pais ao comércio da família, que já era dos avós, e que chama carinhosamente de “loja de velhos”. Não que o estabelecimento venda idosos, claro, mas na expressão infantil, é chamado assim porque vende objetos que serão usados como substitutos de partes dos velhinhos: próteses, produtos ortopédicos e outros. O negócio da família é a substituição das partes pastes do todo e Carmem está acostumada a refletir sobre quando cada pessoa vai precisar usar aqueles acessórios.

“entrou uma mulher chorando. Ela falava no celular e não parava de chorar e não nos dizia nada, só ia tentando rabiscar na própria mão o que a outra pessoa ia dizendo, e chorava. Ficamos os quatro parados em volta dela, todos provavelmente torcendo pra que tivéssemos ali tudo que ela precisasse. […] Ela pediu soldas, bolsas intestinais, imobilizadores de pescoço, todos os tubos possíveis para alimentar e desalimentar uma pessoa, sustentadores de coluna. Meu pai ia registrando no computador e a soma ia ficando imensa e eu queria cochichar pra ele não cobrar uma ou outra coisa. Minha mãe demorou um pouco, mas desceu com tudo aquilo. Eu fui embalando e enquanto eu embrulhava eu sentia sentia que ela estava comprando uma pessoa inteira, que talvez nem fosse um velhinho, porque normalmente não se envelhece de repente trazendo trazendo susto e choro, ninguém nunca tinha entrado tão abalado na loja, e eu fiquei com mais esse medo, que um tipo especial de velhice pudesse chegar assim de repente” (Se Deus Me Chamar Não Vou, p. 88-89)

Para Carmem, o corpo está sempre às vias de ser parcialmente substituído e isso é um medo constante: a constatação de que somos todos velhos em potencial. Escrevendo dessa forma, faço parecer que o livro é uma leitura trágica: longe disso. Arrebatou-me pela doçura. Mas destaco esse ponto por uma coincidência: poucos dias após terminar de lê-lo, assisti a A Natureza das Coisas Invisíveis (2025), belíssimo filme de Rafaela Camelo e me deparo com uma menininha que, por um momento, também se vê pensando no fim da vida. A Raissa já escreveu uma crítica completa sobre ele, o meu recorte vai ser só essa sobreposição temática.

Glória (Laura Brandão), a protagonista do filme, tem quase a mesma idade que Carmem: 10 anos. Sua mãe é enfermeira e trabalha longas horas em um hospital e por isso ela tem acesso às caixas de pertences de pessoas que “foram embora” do lugar, um eufemismo para aqueles que já morreram. Ela brinca e conversa com pacientes idosos e começa a se dar conta que nem todos que deixam o hospital o fazem porque tiveram melhora. Em certa cena confronta a mãe sobre a morte e quando esta lhe fala que na sua idade ela tem que brincar e não pensar nessas coisas ela diz que é deixada com coisa de cadáver o tempo todo então como não pensaria? O que mãe nem havia percebido é que, para manter a filha perto de si, sem querer fez com que o envelhecimento e a morte tornasse parte da sua rotina de brincadeiras. E a partir daí há uma chave de virada na vida das duas, que envolve mudança de ambiente, amizade, uma comunidade de mulheres, crença e natureza.

Não há uma conclusão nesse ensaio, que nada mais é que uma dupla recomendação. Achei uma enorme coincidência a confluência e o diálogo temático entre as duas obras, ambas que eu havia lido e visto num curto intervalo de tempo. E as duas são de um olhar gentil e sensível sobre suas protagonistas, com narrativas leves, mas não por isso isentas de textura e nuance. Duas meninas lidando com a ideia de envelhecimento e perda com a singeleza do olhar infantil, enquanto vivem o próprio amadurecimento e tentam entender seu lugar no mundo. Ler Se Deus Me Chamar Não Vou e ver A Natureza das Coisas Invisíveis na sequência foi uma experiência que recomendo muito.

Se Deus Me Chamar Não Vou, de Mariana Salomão Carrara, 133 pag, Editora Nós.

A Natureza das Coisas Invisíveis está disponível em streaming na Netflix.

Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisadora de corpo, gênero, sexualidade e cinema.

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