O Morro dos Ventos Uivantes (“Wuthering Heights”, 2026)
Enquanto os créditos de abertura sobem, é possível ouvir madeira rangendo e uma pessoa gemendo. A mistura de sons evoca uma imagem sexual. Quando o quadro se abre revela um homem pendurado, sendo estrangulado em uma forca, arfando em busca de ar enquanto seu corpo se debate em seus últimos espasmos, ao mesmo tempo em que ostenta uma grotesca ereção. Uma multidão de pessoas ao seu redor grita e vibra, incluindo as pequenas Cathy Earnshaw (Charlotte Mellington) e Nelly (Vy Nguyen), sua dama de companhia. Nesse mundo bárbaro, de vigiar e punir, nem mesmo as crianças passam incólumes da violência (que se mistura ao sexo). A diretora e roteirista Emerald Fennell é afeita ao choque (um tanto quanto banal) e à provocação e essa primeira sequência, elaborada para confundir o público, também demonstra que nessa história os limites entre dor e prazer serão borrados, na tradição da petite mort.
Toda adaptação literária é uma fanfic. Transpor linha por linha um livro para a tela é uma decisão artisticamente desinteressante, que rende obras audiovisuais tediosas. A partir disso vem a decisão do que fazer com o material original. Recortar trechos específicos. Transpor a atmosfera sem se apegar excessivamente aos acontecimentos. Usar a personalidade das personagens para criar desdobramentos. Mudar a época em que os acontecimentos se passam. É um trabalho difícil, porque geralmente o livro tem muito mais tempo de narrativa que um filme.
Quando reli Jane Eyre, de Charlotte Brontë, discuti um pouco sobre como via suas adaptações para o cinema aqui e mencionei que um dos meus trabalhos preferidos de adaptação literária em geral para as telonas é As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless, 1995), vindo de Emma, da Jane Austen. O filme transpõe com perfeição o misto de inocência com futilidade de Emma, a protagonista do livro, mantendo alguns dos principais acontecimentos da história, adequando-os para o universo adolescente dos anos 90 estadunidense. Pronto, isso é uma adaptação, sem crises. Eu acho engraçado quando leio críticas de adaptações de histórias da Jane Austen que reclamam que não pode haver beijos nesses filmes apenas porque não havia nos livros, como se eles não existissem no século XIX. É algo que discuto no texto sobre Jane Eyre: a falta de humor e de sexualidade em algumas adaptações, quando tudo isso estava lá no texto original, era só ler com atenção. Por que as pessoas pensam que não se ria e não se transava naquela época?
Tudo isso pra dizer que essa adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, já nasce polêmica. E sim, antes de qualquer coisa, é importante tirar o elefante da sala: Jacob Elordi não é o ator certo para o papel de Heathcliff, um personagem que cresce sendo tratado como um pária e cujo status de marginalizado está relacionado não só à sua orfandade e pobreza mas também à forma como é racializado, embora de forma ambígua, que não deixa especificadas as suas origens, no livro. Quando eu li o livro, há muitos anos (e não o reli para ver o filme) gostei muito, mas sempre fui mais da Charlotte do que da Emily. É um livro de pessoas terríveis, fazendo coisas terríveis, sem respiro. Pesado, denso, não é possível dizer que seja um romance convencional, mas também não é possível negar que haja ali desejo desmedido. Dito isso, vou falar do filme pelo que ele é.
Quando o Sr. Earnshaw (Martin Clunes), um proprietário de terras empobrecido, traz para casa o pequeno Heathcliff, interpretado por Owen Cooper, de Adolescência, pretendia dar a ele melhores condições de vida, pelo menos no discurso. No lar em decadência o menino encontrou uma companheira para brincadeiras e brutalidades: em certo momento é possível ver as crianças gritando e rindo enquanto encurralam ratos, torturando-os dentro de um barril. Mas essa violência é herdada do ambiente em que são criados, não só indicada pela sequência inicial, mas também pelo pai de Cathy se consumindo em álcool e descontando nas crianças.
Em um determinado momento de fúria inflamada do senhor da casa, Heathcliff pede que Nelly retire Cathy do recinto para que o ódio do homem recaia apenas sobre ele. Ouve-se o chicote ser utilizado. Mais tarde Cathy vai ao seu quarto no sótão e ele lhe fala que nunca vai deixá-la, não importa o que faça, numa promessa que antecipa os acontecimentos futuros do filme. A direção de arte fica a cargo de Suzie Davies, que já havia trabalhado com a diretora em Saltburn (2023). Ela constrói um espaço despido de adornos, mas que funciona como um refúgio para os pequenos. Na cama de Heathcliff, Cathy olha para para o tecido de sua camisa marcado de sangue e a montagem de Victoria Boydell intercala imagens das costas do rapaz do futuro, marcadas com cicatrizes de açoites. As crianças dormem. O peso da violência presente no drama nesse momento é diluído na própria abordagem infantil utilizada.
Nelly, que até então era a única companheira de amiga de Cathy, observa o laço entre os dois crescer, enquanto ela gradativamente ocupa o segundo plano. Esse afastamento vai marcar toda a segunda metade da narrativa, quando as personagens já forem jovens adultas.
Nessa passagem para a juventude, a proximidade entre os protagonistas vai se expressando em obsessão e autodescoberta. A vergonha de se masturbar escondida e ser flagrada. O jogo de espiar. A jovem Cathy (Margot Robbie) observa com curiosidade pelas frestas do piso as interações dos empregados da casa, em um despertar sexual que logo a conecta ao seu companheiro de todos esses anos. Cathy deseja ver, Heathcliff tapa seus olhos. O próprio veto é erotismo em si mesmo: a prisão do olhar que vai reverberar na memória. Corpos próximos, corpos desejosos. Fennell, consegue filmar essa corporeidade de forma a amplificar a noção de sensualidade retratada.
Mas a chegada dos Lynton, os novos vizinhos ricos, especialmente Edgar (Shazad Latif), bagunça tudo com prospectos de casamento. Em uma cena que homenageia os melodramas de Sirk, Heathcliff vai embora em seu cavalo, com o pôr do sol cenográfico ao fundo. Esse aspecto melodramático, com cenografia de estúdio, aparece em outros momentos, como com a neve caindo lindíssima na janela.
A figurinista Jacqueline Durran, que sempre trabalha referências anacrônicas com perfeição, aqui utiliza tecidos vistosos com silhuetas de épocas variadas, para compor uma Cathy com uma estética romântica entre a capa de romance de banca e o melodrama cinematográfico. Os vermelhos explodem na tela, compondo com a cenografia, como o chão igualmente vermelho lustroso, em trajes que ora parecem ridículos, como o de camponesa germânica, ora encantam, como o vestido com saia vermelha e corpete de rosas com pequenas pérolas bordadas nos ombros, com que volta para casa após uma temporada se recuperando nos Lynton, mostrando estar pronta para enriquecer.
Nada fez sentido quando vemos Nelly (Hong Chau) apertando seu corpete sem uma chemise por baixo, como se ele fosse o símbolo de tortura dos bens materiais sobre a carne. O vestido de casamento, por sua vez, vislumbrado brevemente quando a vemos percorrer as charnecas dos Morros, cria uma impressão onírica marcante. Isso pouco antes de ser entregue em sua noite de núpcias em uma camisola furta-cor com um enorme laço, um presente para seu marido, em uma sequência camp. Em outro momento se joga ao chão vestida de vermelho em um plongée que a retrata como um coração pulsante.
O retorno de Heathcliff anos depois atiça sentimentos que estavam acobertados pela rotina prazerosa do casal Lynton. A riqueza dele altera a dinâmica da relação. A química entre os dois protagonistas funciona sobremaneira, embora Margot Robbie tenha um rosto que, de alguma forma, não se traduza para um filme de época, o que acaba por ser relevado porque esse não é literal. Já Jacob Elordi, depois de Frankenstein e agora aqui, parece acertar em personagens que equilibram uma dose monstruosidade e sofrimento. E aí talvez o maior problema dessa adaptação seja que Heathcliff não é cruel o suficiente. Porque no livro ele é uma personagem terrível, ao ponto de ser difícil criar alguma conexão com ele. E talvez esse seja o problema: suavizou-se para que seja possível suspirar por ele como um herói romântico.
Dito isso, outras adaptações utilizam o nome das personagens e poucos acontecimentos do livro e fazem belos trabalhos, como Drácula de Bram Stocker (Bram Stoker’s Dracula, 1992), de Francis Ford Coppola, por exemplo, que tem a ousadia de transformar a trama também em um romance e ainda creditá-la ao falecido autor no título. Com Morro dos Ventos Uivantes, penso que sempre teremos a versão da Andrea Arnold de 2011, uma adaptação atmosférica, e a que, na minha opinião, melhor capta o espírito do livro e de brinde talvez seja a única que tenha um Heathcliff que não é branco.
O quarto de Cathy com as paredes cor de pele, suas veias marcadas, bem como sardas, presente de seu marido, é algo belo é macabro, quase premonitório. Desses personagens que se amam e se torturam, Nelly é quem aprisiona Cathy em sua própria carne, nessas quatro paredes. Morrer de desejo, morrer de privação, morrer se esvaindo em sangue, morrer para assombrar para sempre os Morros dos Ventos Uivantes.
Vi comentários dizendo que esse seria o melhor filme de Fennell e não sei se concordo. Sem dúvida é um filme belíssimo de olhar e ela é uma diretora que já demonstrou ter um apuro visual afinado antes. A parceria renovada com Suzie Davies e iniciada com Jacqueline Durran não são desprezíveis, preenchendo o filme com espaços e trajes que enchem os olhos. O desejo também transborda de uma maneira que é muito bem representada: aflitivo, intenso e mesmo devastador em sua tristeza. O Morro dos Ventos Uivantes é uma adaptação estilizada, com uma estética muito particular, que entrega emoção em um misto de camp e melodrama.



