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Titane

Em Raw, Julia Ducournau já havia mostrado a que veio, usando o canibalismo para abordar crescimento, sexualidade e, mesmo, pertencimento, num filme único e provocativo (que eu amo). Em Titane, de certa forma, repete esses temas e o body horror, mas os explora de outras formas, talvez ainda mais extremas.

Com imagens evocativas, que devem ficar na minha memória por muito tempo, o filme borra diversas fronteiras na própria protagonista. O corpo de Alexia é ciborgue e atrai o interesse de estranhos. É, ao mesmo tempo, humano-máquina, que busca sexo na máquina e afeto no humano.

O sex appeal do inorgânico, conforme estabelecido por Mario Perniola, se manifesta para ela e a partir dela. Mas sua própria biologia, ainda que desafiada pela máquina, se reforça na maternidade maquínica. Isso quase em oposição ao gênero (e suas expectativas), que se dissolve em sua performatividade. A comparação com Crash, de Cronenberg, vem fácil, assim como com Bebê de Rosemary, de Polanski, mas é quase infrutífera quando tomamos essas camadas de interpretação.

O resultado é uma provocação visualmente impressionante e divisiva que já havia marcado seu trabalho anterior. Interessante que por trás de tanta imagem visceral, se esconda uma fábula sobre aceitação e amor.

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Crítica de cinema, doutoranda em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero e cinema e é feminista.

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