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Willow e o queer em Buffy na virada do século

Texto publicado originalmente na newsletter para assinantes do financiamento coletivo do Feito por Elas.


No Grupo de Seriados FpE estamos (já há um tempo) assistindo a Buffy, a Caça-Vampiros (Buffy The Vampire Slayer, 1997-2003). Terminamos recentemente a quarta e começamos a quinta temporada. A quarta temporada foi ao ar nos Estados Unidos entre outubro de 1999 e maio de 2000. Eu não lembro exatamente quando passou no Brasil, mas a espera às vezes era de até um ano. E, para contextualizar para quem nunca assistiu ao seriado, é no final dessa temporada que Willow (Alyson Hanningan), a melhor amiga da protagonista, e que já tinha sido apaixonada por dois rapazes e namorado com um deles, revela que seu novo interesse amoroso e namoro é com Tara (Amber Benson), personagem apresentada nesse momento.

Rever a série hoje é colocar em perspectiva meu próprio contexto quando assisti pela primeira vez essa revelação, lá pelos meus 15 anos. Toda vez que eu vou logar um episódio como revisto no TV Time (aplicativo estilo letterboxd para seriados) leio os comentários das pessoas mais jovens que estão vendo pela primeira vez e fico com sentimentos mistos. O fato de que até o ponto onde revi, as duas, embora namoradas, nunca foram mostradas se beijando. E aí muita gente fala “ah era os anos 90, não podia ter personagens sáficas etc etc”. E isso pra mim tem diversos desdobramentos. 

Colocando em contexto de quem estava lá™, viu tudo e lembra de muito, a Willow foi muito marcante, sim! Eu lembro que ela foi muito importante para mim na época e eu lembro de conversar com outras pessoas adolescentes que depois se entenderam como LGBTQIA+ que também se apegaram à personagem. E, afinal, não eram mais os anos 90, na verdade a gente já tinha virado o século. Só que muita coisa é uma continuidade da década anterior. Às vezes a pessoa jovem acha que sua geração inventou o queer e que tudo começou com Me Chame Pelo Seu Nome e Com Amor, Simon (e as referências masculinas não são por acaso). No nosso podcast sobre My So Called Life (1994-1995) mencionamos que Rickie Vasquez é o primeiro personagem adolescente de um seriado estadunidense que se revelou gay para a família. Na época isso foi um marco televisivo.

Eu lembro que quando tinha 13 anos fui ver Seis Dias e Sete Noites (1998) no cinema com os meus pais e expliquei pra eles que Anne Heche, que interpretava a protagonista, era namorada de Ellen DeGeneres. Era um frisson na época! Inclusive um episódio recente do podcast You Must Remember This, que aborda o lesbian chic, fala sobre a atriz.

Também nessa virada de milênio eu assistia e adorava Will and Grace (1998-2006). A série era protagonizada pelos personagens do título, um advogado gay e uma decoradora hétero, que são amigos e moram juntos. Completam o quarteto principal a chefe de Grace, Karen, também hétero e um amigo deles, Jack, também gay. Lembro de umas férias que um primo meu estava passando uns dias na minha casa e eu parei para assistir o episódio da semana. Ele perguntou do que se tratava e eu expliquei essa breve sinopse ou arranjo de personagens. Ele fez uma careta e falou “mas é bem gay, né?”, frisando a palavra. Esse foi um momento em que percebi que nem todo mundo aceitava sequer a existência desses personagens (25 anos depois, como estamos?).

De qualquer forma, ao contrário do que os jovens de fóruns de seriados falam, a gente consumia, sim, audiovisual com personagens LGBTs nos anos 90. Tudo bem, eles eram raros. Mas eles existiam. Só que essas referências eram bastante masculinas (Anne Heche estava lá, mas interpretando personagens heteressexuais). As femininas, quando existiam, não eram protagonistas, como Susan e Carol em Friends (1994-2004) (a primeira ainda retratada de forma vilanizada, como uma pessoa briguenta e desagradável). Ou eram queer coded, ou seja, usavam de códigos para insinuar a orientação sexual delas, sem jamais confirmá-la, como Xena e Gabrielle em Xena: a Princesa Guerreira (1995-2001).

No final das contas, não é que não tinha presença de mulheres LGBT nos anos 90, é que essa era muito menor do que de homens. E eu nem estou entrando no mérito de qualidade, já que os personagens masculinos tinham narrativas de calvário, como Filadélfia (1993) ou de estereótipos desrespeitosos e caricatos, como de Será que Ele É? (1997). E personagens trans, por sua vez, vinham de décadas de retratos que patologizavam sua existência, abordando-as como pessoas potencialmente perigosas e descontroladas, como em Vestida Para Matar (1980) e O Silêncio dos Inocentes (1991).

Mas em meio a isso tudo o que chama a atenção é a completa invisibilidade bissexual. E por isso Willow me marcou tanto na época. Eu lembro muito como a bifobia era naturalizada. Comentários sobre “gilete” e coisas do tipo eram completamente comuns, mesmo nos meios de esquerda progressista LGBTs em que eu andava, seja na época da escola, seja já na faculdade. Assim, por um lado, nós não tínhamos referências de personagens bissexuais em narrativas ficcionais; por outro, a realidade era de um ataque constante. É como não existir, mas se existir um pouco já está errado (e de novo, 25 anos depois, isso mudou significativamente?).

Enfim, daí o peso da Willow na época: acho que foi a primeira vez que uma personagem tão central numa narrativa tão popular era bissexual. Todo mundo via Buffy. Todo mundo comentava. Todo mundo torcia por Willow e Tara, assim como tinha torcido por Willow e Oz, seu namorado anterior, antes. Lembro de ter comentado em algum episódio do Feito por Elas sobre como isso me marcou e aí, agora nessa revisão, descobri que Joss Whedon, criador e roteirista da série, fez a personagem se definir dentro da trama como lésbica, negando os relacionamentos anteriores. Eu acho que isso tem relação com várias questões, mas principalmente pelo fato de que na época era esperado que uma personagem “escolhesse” um lado e com a própria bifobia generalizada e aceita. Mas eu acho também que é um grande apagamento do que a personagem viveu e não consigo deixar de entendê-la, sim, como bissexual.

(Esse texto foi baseado em um conversa de umas semanas atrás no Grupo de Seriados FpE no telegram, e publicado originalmente em nossa newsletter em 09/11/2023).

Imagem: reprodução (TV Time)
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Crítica de cinema, doutora em Antropologia Social, pesquisa corpo, gênero, sexualidade e cinema e é feminista.

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